Abismos

Alguns alertas chegam claros, outros se escondem no silêncio e só mais tarde revelam o abismo de quem tentava pedir ajuda
Ilustração: Carolina Vigna
17/09/2026

Três amigos muito próximos e eu criamos um grupo de desafios semanais de desenho. O primeiro desafio foi “vermelho” e eu decidi ir pelo caminho de “alerta vermelho”. Daí fiquei pensando nos pedidos de ajuda disfarçados que às vezes não percebemos. Ou que emitimos sem clareza o suficiente.

Acabei escolhendo um trecho de Abismo, do Fernando Pessoa, para o meu desenho da semana.

Fiquei lembrando de todas as vezes em que estive nesse abismo.

Vinte anos atrás, quando I. foi internado para não mais sair, eu o visitava todos os dias. Eu voltava a pé para casa. É um hábito antigo, o de andar para ver se a cabeça anda junto. Costuma funcionar, mas nessa época, não foi o suficiente. Em um determinado dia, um pouco mais pesado, eu parei em um cinema no caminho e entrei no primeiro filme que estava passando. Era Miami Vice. Eu tenho zero lembrança desse filme. Não sei do que se trata, quem está no filme, nada. Chorei por duas horas. Levantei, lavei o rosto e fui pegar filho na escola. Uma solidão impossível de descrever.

A definição de abismo é algo como “uma profundeza tão grande que parece não ter fim”. Não sei se profundo, mas triste com certeza.

Pouco antes de morrer, I. chamou um monte de gente para o hospital. Falou com as pessoas, uma a uma. Lá pelas tantas, pediu privacidade. Entrou uma enfermeira. E ele morreu. Eu sempre acreditei que o que aconteceu foi um suicídio assistido, totalmente ilegal no Brasil, mas não tenho como ou interesse em provar. No lugar dele, inclusive, eu faria o mesmo.

Esses foram alertas muito claros. Anunciados e com legenda em vários idiomas.

Nem sempre é assim.

S. estava já muito doente e ninguém sabia. Eu só entendi o que estava acontecendo quando ela morreu. Aí, em retrospecto, compreendi algumas de suas ações. Ela escolheu não se tratar. Não fez quimio, não fez nada. Já inconsciente no hospital, fizeram hemodiálise e mais um monte de procedimentos que eu autorizei. Se ela tivesse me dito o que queria, talvez não tivesse feito nada disso. Talvez não sofresse quase dois meses no hospital. Talvez morresse mais rápido. Talvez. Na verdade, eu não sei o que ela queria. Nunca me disse.

As doenças mentais são mais difíceis, mais lentas, sorrateiras, traiçoeiras. Silenciosas, as desgraçadas. Essas me preocupam muito mais.

Existe um meme que diz “faço terapia para conviver com as pessoas que precisam de terapia, mas não fazem”. Todas, todas sem exceção, as pessoas que conheço que lutam contra a depressão, que convivem com TEA ou TDAH, que enfrentam transtornos de ansiedade ou pânico, todas são as melhores pessoas do mundo. São as pessoas sensíveis que se afetam pelo mundo. São as pessoas que sentem. E sentem profundamente.

A elas, eu imploro: emitam seus alertas com legendas. Vocês são amados, mas sejam claros. A gente é burro.

Morrer vamos todos.

Precisamos dar um jeito de viver, também.

Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho