Outubro, socorro. Esse ano, tivemos um mês até agosto. Aí tivemos 15 meses até setembro. Pisquei e é outubro. Eleições. A divisão do país me causa um absoluto espanto. Sem importar em que metade você está (apesar de eu ter um bom chute em como vota o leitor do Rascunho), você, assim como eu, acha que a outra metade sofreu algum dano cerebral grave. Não-é-possível é o que mais escuto, nas mais diferentes bocas.
Ando um pouco cansada de viver tempos tão decisivos, importantes, históricos. Chega. Estou com vontade de um pouquinho de tédio. Quero eventos menos. Menos, tudo menos.
Assistindo a uma das tretas do STF na TV Justiça, comecei a ver preço de apartamento em Portugal. Vamos ver se ainda temos república em 2027 ou se seremos todos foragidos, migrantes, corpos estranhos. Festa estranha, com gente esquisita.
Entendo cada vez menos do mundo.
A última foi uma aluna que decidiu me corrigir, assim, “de boa, prófi”. Respondi que a bibliografia que utilizamos fala exatamente o que expus em aula e perguntei onde ela tinha visto essa outra informação. Animadíssima, com brilho nos olhos, puxa o celular e mostra um vídeo no TikTok de um cara que cita como sua fonte o ChatGPT. Dá um desânimo que nem conto.
Tenho um espaço VIP reservado na vesícula biliar para os alunos que acham que a gente não sabe quando a “pesquisa” é IA. Sabe, professor pode até não saber as últimas gírias do momento e achar essa moda de 6-7 meio ridícula, mas não é burro. Sabemos ler. A alfabetização, inclusive, é necessária para virar professor. Ou gente.
O triste é que, apesar da irritação, quem perde é o aluno. Vai pagar um preço enorme por abrir mão do próprio pensamento.
Tenho mais ranço ainda de quem tem um senso de justiça individual. O que é bom para ele é justo. Danem-se a lógica, a coerência, a coletividade, a sociedade, o pensamento. Só o seu próprio umbigo importa. É o que estamos vendo nesse caos em que o Brasil se transformou. Se cobrir, vira circo; se cercar, vira hospício.
Preguiça de gente egoísta, tacanha, burra.
A pequenez é brega.
Preguiça de gente chata, especialmente. Eu devo ter sido o Edward Laurens Mark na encarnação passada. Ele é o cara que inventou a padronização de publicações acadêmicas. O primeiro padrão, de Harvard, em 1881. Não sei se teve alguém antes dele, esse é o nome que eu conheço. Anda um pouco no tempo e temos a ABNT. E agora estou pagando meus pecados.
Não, pensando bem, devo ter sido a pessoa sem amor no coração que teve a ideia da obsolescência programada. Em uma mesma semana, quebraram o meu notebook, o meu teclado e o monitor do desktop. É karma ou um sinal divino para trabalhar menos. Talvez sejam sinônimos.