Quando o trabalho termina em coisa

Contos de Victor Giudice expõem, com precisão e frieza, a rotina que corrói o humano e transforma o trabalho em mecanismo de desumanização
Victor Giudice, autor de “Contos reunidos: O arquivo e outras histórias”
08/04/2026

Certos livros não chegam, se insinuam. Discretos, quase tímidos, acomodam-se na estante sem chamar atenção. Mas basta abri-los para que revelem outra natureza: silenciosos na forma, incisivos no efeito.

É o caso de Contos reunidos: O arquivo e outras histórias, de Victor Giudice.

À primeira vista, nada ali é ameaçador. Contos curtos, linguagem enxuta, uma economia elegante de palavras. Não há fogos de artifício, exuberância estilística nem sequer a tentativa de seduzir o leitor com malabarismos literários. Pelo contrário: Giudice escreve no registro de quem preenche um formulário. E é justamente aí que a normalidade racha.

Porque, de repente, o formulário começa a olhar de volta.

Giudice pertence a um grupo de escritores que nunca chegaram a ser exatamente esquecidos, mas também não são devidamente lembrados. Um autor lateral, uma mesa encostada na parede de um escritório: ninguém presta muita atenção, até o dia em que alguém precisa dela e percebe que sempre esteve sustentando coisas.

Seus contos operam numa zona híbrida, onde o cotidiano mais banal sofre uma infiltração lenta do absurdo. Não o contraditório ruidoso, escancarado, mas aquele que se instala como um erro de digitação. Há algo de kafkiano nesse mecanismo, mas sem a vertigem metafísica. Em Giudice, o pesadelo tem carimbo, protocolo e horário comercial.

O arquivo, talvez seu conto mais conhecido, funciona como um manual de desmontagem do humano. Um funcionário exemplar (desses que confundem obediência com virtude) vai sendo gradualmente reduzido pela engrenagem que deveria recompensá-lo. Primeiro perde salário, depois dignidade, depois presença. Até que, sem grande cerimônia, torna-se aquilo que sempre esteve destinado a ser: um objeto.

E o mais inquietante não é a transformação. É a naturalidade com que ela acontece.

Ninguém grita. Ninguém estranha. O próprio personagem colabora, com a disciplina de quem acredita que o absurdo é apenas uma etapa do processo.

Giudice não denuncia; prefere demonstrar. Não acusa; opta por organizar. Seus textos têm a frieza de um memorando interno, desses que anunciam cortes com a mesma delicadeza de quem informa a troca do filtro de café. A violência não está no que é dito, mas na maneira como é aceito.

Ao longo da coletânea, os personagens vão perdendo contorno. Não há grandes dramas nem gestos heroicos. Há apenas pequenas concessões, sucessivas, até que não reste mais ninguém ali para conceder coisa alguma. A desumanização não chega de uma vez; ela é parcelada, feito um desconto em folha.

Em razão disso, o livro é tão atual. Porque o mundo que Giudice desenha não soa mais como alegoria. Parece, ao contrário, uma descrição mais honesta do expediente.

Ler Giudice é uma experiência peculiar. Não há identificação fácil, nem catarse, nem consolo. O leitor não se vê nos personagens (pelo menos, não imediatamente). Mas, ao fechar o livro, percebe que alguma coisa foi deslocada: um pequeno desconforto, difícil de nomear. E essa é a operação mais precisa do autor.

Ele não transforma o trabalhador em objeto. Ele sugere, com delicadeza burocrática, que a engrenagem já foi acionada.

Contos reunidos: O arquivo e outras histórias
Victor Giudice
Kotter
276 págs.
Carlos Castelo

É jornalista e escrevinhador. Cronista do Estadão, O Dia, e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo. É autor de 18 livros.

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