Quem só conhece Dostoiévski pelas pensões imundas de Crime e castigo ou pelas salas de interrogatório de Os irmãos Karamázov costuma imaginar o autor como um funileiro de almas, soldando culpa, fé e desespero até formar uma catedral sombria. Mas há, por baixo dessa arquitetura gótica, um comediante clandestino. Um palhaço melancólico, é verdade — mas palhaço. O humor de Dostoiévski não entra em cena no papel de alívio cômico; ele irrompe feito um soluço que vira gargalhada, depois volta a ser soluço.
Nos textos ditos menores, o riso aparece mais à vontade. Em A mulher alheia e o homem debaixo da cama, por exemplo, a literatura russa resolve, por alguns instantes, brincar de quiproquós. Adultérios, enganos, perseguições de corredor. É quase Feydeau, se Feydeau tivesse lido o Evangelho e bebido vodca. A graça não vem só da situação, mas do modo como os personagens levam a própria humilhação a sério demais. Em Dostoiévski, o ridículo nasce sempre do excesso de dignidade.
Já em O crocodilo, o humor vira alegoria política. Como se um cartunista tivesse tomado o lugar do romancista. Um homem é engolido por um crocodilo e, de lá de dentro, passa a opinar sobre o futuro da Rússia, o progresso, o destino do mundo. A piada é dupla: rir do absurdo físico e, ao mesmo tempo, reconhecer no personagem engolido a caricatura perfeita do intelectual que vive dentro das próprias ideias, sem notar o bafo do réptil.
Esse gosto pelo grotesco cômico atinge o auge em Bobók. Mortos conversam em seus túmulos, revelando segredos, vaidades, pequenas safadezas. Não é humor de anedota; é humor de necrotério. Dostoiévski nos faz rir daquilo que não devia ter graça nenhuma: a continuidade das mesquinharias humanas depois da morte. Nem o túmulo purifica.
Nos romances maiores, o riso continua lá, apenas mais camuflado. Humilhados e ofendidos está cheio de personagens que se levam tão a sério que se tornam cômicos por gravidade própria. Já em O adolescente, a famosa “teoria do riso” funciona que nem um manifesto: rir é um modo de desmascarar a vaidade, de expor a criança escondida no adulto.
Dostoiévski deve ter entendido algo que muitos humoristas contemporâneos esquecem: o riso é uma forma de crueldade honesta. Ele revela. Ele tira a maquiagem. Ele empurra o sujeito para fora do pedestal. E, ao fazer isso, aproxima o leitor do personagem, porque nada é mais humano do que tropeçar.
Talvez por isso o humor em Dostoiévski seja tão desconfortável. A gente ri, mas sente que está rindo de si mesmo. Da própria hipocrisia, da fome de reconhecimento, da vontade de ser levado a sério até quando diz absurdos.
No fundo, o autor russo sabia: o inferno é trágico, mas a sala de espera do inferno é a comédia. E, como todo grande escritor, ele nos deixou sentados ali, rindo enquanto o chão range.
Em tempo: todos estes textos estão juntos na caixa Fiódor Dostoiévski – obra completa, com três quilos e oitocentos da melhor literatura russa. Bobók, eu li na tradução de Paulo Bezerra, da editora 34.
Za zdoróvye!