Existe um tipo de humor que não quer a gargalhada de arquibancada, e sim aquela faísca rápida que acende na cabeça do leitor e o deixa meio constrangido por ter rido. Esse humor teve um mestre na América Latina: o peruano Luis Felipe Angell, que assinava como Sofocleto, nome que parece de filósofo grego com dor de garganta. E que inventou o sinlogismo.
Explico. O silogismo, aquele da escola, vai arrumadinho: todo homem é mortal, Sócrates é homem, logo Sócrates é mortal. Um raciocínio de foto de casamento: todo mundo alinhado, ninguém respirando. O sinlogismo chega, derruba a mesa e mostra que a lógica formal era só pose.
Para Sofocleto, fazer humor era aprender a olhar o mundo por um ângulo agudo, desses que furam. Dizia que a imaginação consiste em vestir a verdade nua e que o humorismo seria a “porta falsa da Verdade”. Ou seja: você entra por ela achando que vai dar na sala principal e cai no quintal, onde a verdade está de havaianas. Nas mãos dele, as palavras deixavam de ser enfeite de mesa e viravam navalha, mas com sintaxe impecável. Um assaltante de fraque.
Seus aforismos cabem num guardanapo e ainda sobra espaço para a marca de batom. Ele definiu o choro como “a goteira do coração”, o que prova que até a emoção sofre com a falta de manutenção. Resumiu a morte a uma expressão de cartório, “vida privada”, porque até o fim a gente quer privacidade e ainda assim aparece gente no velório. Lembrou que “os cegos não têm pontos de vista”, num trocadilho tão cruel quanto genial, daqueles que a gente ri e já pede desculpas a Nossa Senhora Aparecida. E imaginou que, se Adão fosse burocrata, teria cometido o Pecado Original em duas cópias. Com firma reconhecida.
A política, claro, rendeu-lhe fartura, porque político é matéria-prima renovável. Para ele, “a derrota é o carnaval do pessimismo”, e todo candidato que perdeu uma eleição entende: no dia seguinte há um estoque enorme de serpentina no gabinete, mesmo sem ninguém ali para dançar. Sobre os opositores, ele observou que só lhes dão razão quando lhes inauguram a estátua. Quer dizer, o sujeito passa a vida inteira avisando que a ponte vai cair, ninguém escuta, e quando finalmente ele morre põem o nome dele na ponte nova.
Sofocleto quebrou esquemas sem destruir as verdades essenciais, que é a diferença entre o humorista e o vândalo. Deixou uma obra que não envelhece, o que, em se tratando de humor, é quase milagre, já que a maioria das piadas morre antes de as entradas chegarem à mesa. Num tempo entupido de solenidade oca e certezas absolutas, ler um sinlogismo é abrir a janela numa sala abafada.
E prova que o riso fino ainda é uma das formas mais altas de inteligência. A mais barata também, o que ajuda muito atualmente.