Sempre me intrigou a surpresa geral diante da metamorfose de Gregor Samsa. O sujeito acorda transformado numa barata e todo mundo reage como se aquilo fosse uma inovação biológica, uma espécie de upgrade evolutivo. Ora, ninguém vira barata do nada. Não é como uma gripe. Há, no mínimo, um histórico familiar.
Sustento, com minha conhecida irresponsabilidade científica, que o pai de Gregor já era um barato. Talvez não no sentido entomológico (não imagino o senhor Samsa pai andando pelas paredes ou disputando migalhas com formigas), mas no sentido moral, psicológico e doméstico da coisa. Era uma cascuda humana, que é uma espécie muito comum.
Reparem: o pai de Gregor passava o dia estendido no sofá, ruminando fracassos, emitindo sons guturais e exigindo sustento do filho. Se isso não é comportamento típico de um inseto, não sei o que é. Os ortópteros, como se sabe, são especialistas em sobreviver às custas do ambiente. Não produzem, não contribuem, mas aparecem sempre na hora de fazer uma boquinha.
Imagino a cena. Dona Samsa, resignada, olhando para o marido espalhado na poltrona como uma vírgula mal colocada e pensando: “Isso não é homem, é um rastejante”. A ciência ainda não reconhece o gene do “baratismo paterno”, mas ele deve existir, recessivo, aguardando uma oportunidade para se manifestar em forma de casco e antenas.
Gregor, coitado, foi apenas o primeiro da família a assumir em público o que os outros já eram conceitualmente. Sua metamorfose não foi uma transformação; foi uma sinceridade biológica. Enquanto o pai vestia o uniforme de autoridade e a mãe carregava o avental da abnegação, Gregor resolveu radicalizar: virou o que todos já insinuavam ser.
Aliás, suspeito da mãe também. Aquela dedicação exagerada, aquele amor aflito e, ao mesmo tempo, condicionado ao desempenho financeiro do filho. Há algo de muito barata nisso. Esses animais são conhecidos por uma maternidade intensa e até meio desesperada. Não me surpreenderia se, ao final da história, alguém levantasse o tapete da sala e encontrasse toda a linhagem Samsa acomodada ali, discutindo a prestação da casa e o preço da farinha.
O pai, quando descobre a nova forma do filho, reage com violência. Dá-lhe chutes e bengaladas. Nada mais típico de uma barata acuada do que atacar com o que estiver à pata. É o instinto de bicho que defende seu território.
Há também a questão do trabalho. Antes da metamorfose, Gregor era o único provedor. Depois que ele se torna um animal asqueroso, a família precisa trabalhar. E trabalha. Veja bem: quando o filho deixa de sustentar o lar, os pais subitamente recuperam a mobilidade. Milagre? Não. Sem o salário de Gregor, a despensa ficou vazia. E barata, quando a comida acaba, aprende até a usar gravata.
No fundo, a história não é sobre um homem que virou um ser irracional. É sobre uma família que já era um pequeno ecossistema de baratas dependentes e oportunistas. Gregor apenas teve a coragem (ou o azar) de tornar isso visível.
E talvez esteja aí a verdadeira tragédia kafkiana: não virar barata, mas descobrir que sempre se foi uma.