Elogio da madureza

A passagem de Borges por um curso de madureza na Liberdade inspira uma reflexão bem-humorada sobre literatura, aprendizado e os limites da realidade
Jorge Luis Borges por Ricardo Humberto
21/10/2026

Em agosto de 1970, Jorge Luis Borges entrou num curso de madureza na Liberdade, o Santa Inês.

A frase já parece de Borges. Mas tudo indica que aconteceu. Pelo menos é o que registra o livro Borges Babilônico, uma enciclopédia, organizado por Jorge Schwartz.

Na portaria, perguntaram:

— Nome?

— Jorge Luis Borges.

O funcionário procurou na lista.

— Aluno?

— Creio que não.

— Professor?

— Tampouco.

— Então o senhor veio fazer matrícula?

Borges considerou a hipótese. Aos setenta anos, cego, internacionalmente famoso e prestes a receber uma homenagem numa Bienal do Livro, talvez ainda pudesse aprender alguma coisa que não tivesse inventado.

— Pode ser.

O funcionário entregou-lhe uma ficha.

— Data de nascimento?

— 1899.

— Tem certeza?

Borges sorriu.

— Cada vez menos.

Os alunos eram comerciários, donas de casa, um vendedor de seguros. À noite, estudavam História, Geografia, Português e a complicada matéria de continuar.

Naquela noite, disseram que haveria uma palestra de um escritor argentino.

— Famoso? — perguntou alguém.

— Muito.

— Escreveu novela?

— Não.

— Então é famoso por quê?

A pergunta era excelente.

Borges entrou na sala conduzido pelo braço.

Falou de bibliotecas, tigres, espelhos, labirintos. Ou talvez não tenha falado exatamente disso. Com ele, mesmo quando há alguma gravação, fica a impressão de que a fita sonhou parte da palestra.

Um aluno levantou a mão.

— Professor, para que serve literatura?

A pergunta atravessara dois milênios e três civilizações para chegar à Liberdade.

Borges respondeu qualquer coisa muito bonita sobre felicidade, destino ou memória.

O aluno insistiu:

— Cai na prova?

A literatura encontrou seu limite.

Depois da conversa, Borges perguntou por que o curso se chamava madureza.

Explicaram que era para adultos que voltavam a estudar.

— Ah — disse ele. — Estou a caminho há setenta anos. Então todos somos alunos.

A diretora achou que era uma gentileza.

Não era. Borges, que conhecia algumas coisas sobre o infinito, sabia que ninguém termina curso nenhum. Apenas muda de corredor.

Dizem que a aula foi gravada. Talvez a fita ainda exista numa gaveta, com a voz de Borges falando para adultos que, depois de um dia de trabalho, ainda foram estudar.

Seria bonito encontrá-la.

Mas, pensando melhor, uma fita perdida de Borges num curso de madureza da Liberdade é tão borgeana que talvez seja melhor não a achar.

A realidade também precisa saber quando parar.

Carlos Castelo

É jornalista e escrevinhador. Cronista do Estadão, O Dia, e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo. É autor de 18 livros.

Rascunho