Da filosofia odontológica

Um curso cujo objetivo é formar dentistas que, além de extrair dentes, arranquem dúvidas existenciais profundas de seus pacientes
Ilustração: Eduardo Mussi
25/03/2026

Bem-vindo ao curso de pós-graduação online em Odonto-Filosofia: Entre Platão e a placa bacteriana. É aqui onde o fio dental se entrecruza com o fio do pensamento contemporâneo.

A proposta dos encontros é clara como uma radiografia panorâmica: formar dentistas que, além de extrair dentes, arranquem dúvidas existenciais profundas de seus pacientes. Porque, afinal, o que é a cárie senão uma manifestação concreta do niilismo bucal?

Nossa grade curricular traz uma meticulosa metodologia  científica centrada em molares e materialismo:

• Endodontia Nietzschiana: A dor tem raiz — um mergulho no canal da existência.
• A ética em Kant e no Convênio odontológico. Ou como lidar com orçamentos que só são imperativos categóricos no boleto.
• O tártaro e o nada: A higienização como projeto existencial: uma escovação profunda com Camus e bicarbonato.
• Ortodontia rizomática: Deleuze e a mordida em fluxo — o aparelho fixo como estrutura de poder.
• O protético Platão: Estética ideal e dentes irreais. Por que a ideia do belo se contrapõe à dentadura?

Tudo isso num sistema híbrido. De manhã, aula remota sobre Heidegger e halitose. À tarde, atendimento clínico supervisionado seguido de leituras de Slavoj Žižek, Jürgen Habermas, Hilary Putnam e discussões sobre a finitude do esmalte.

Os trabalhos finais da turma anterior já impressionaram:

• A angústia gengival em Kierkegaard
• Freud e a mordida: O complexo de cárie
• Wittgenstein e a linguagem ortodôntica: Onde não se pode falar, usa-se aparelho

E não se engane: ao contrário do que dizia Descartes, aqui o nosso lema é Siso, logo existo. Lembrando que o siso, símbolo da sabedoria, é extraído não só da boca, mas também da consciência. Com anestesia local e metafísica.

Ao final da pós-graduação, o aluno estará apto a aplicar anestesia, montar um plano de tratamento e responder com propriedade à pergunta: “O que é o bochecho?”. Sempre com base em estudos exegéticos de Foucault e Lyotard.

Se o seu sonho sempre foi discutir a ética espinosista do flúor, chegou a sua hora. E lembre-se: para além da gengiva, existe o abismo. E o abismo, se o encarar de volta, pode ser o momento de uma raspagem.

Para os que ainda não pretendem ingressar num curso Stricto Sensu, temos cursos livres: Nietzsche: O eterno retorno do bafo, Sêneca e a dor de canal estoica, A oclusão em Merleau-Ponty. E o mais procurado do último semestre: Schopenhauer e o bruxismo. Inscreva-se já. A verdade pode não estar nos dentes, mas começa por eles.

Carlos Castelo

É jornalista e escrevinhador. Cronista do Estadão, O Dia, e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo. É autor de 18 livros.

Rascunho