A cronista

A aspirante a escritora fareja a literatura no cotidiano, mas confunde escrita com a pose até descobrir que a história precisa ser arrancada do mundo
Ilustração: Eduardo Mussi
23/09/2026

Ela sabe que tem alguma coisa no ar. Isso já é muito. Muitas pessoas atravessam a vida inteira sem essa suspeita. Nascem, estudam, casam-se, parcelam um carro, passam dez dias em Guarapari e morrem convencidas de que o mundo era exatamente aquilo. Ela, não. Ela desconfia.

Tem trinta e poucos anos, idade em que as pessoas ainda acreditam que uma boa fotografia junto à janela pode esclarecer alguma coisa sobre a alma. Lê livros em cafés. Às vezes, apenas os abre. Sublinhar, por outro lado, é importante. Um livro riscado é a certidão de uma intimidade.

Quer ser cronista. Não escritora, propriamente. Escritora exige uma espécie de doença mais grave. Cronista ainda permite voltar para casa, pedir comida pelo aplicativo e assistir a uma série dinamarquesa sobre mulheres infelizes.

Então, ela escreve. Sobre a chuva. Descobriu recentemente que a chuva cai sobre São Paulo.

Fala sobre o café esfriando, sobre domingos, plantas que morrem apesar de regadas, sobre a avó que fazia bolo formigueiro, e o ascensorista que lhe disse uma frase magnífica (mas que, examinada com algum rigor, não era tão incrível e talvez nem fosse uma frase).

Mas ela sentiu. Esse é o verbo.

O problema é que a literatura, velha senhora pouco sociável, não se satisfaz com sentimentos. Quer que alguém volte do inferno trazendo uma pedrinha no bolso. A moça ainda não foi ao tártaro. Foi a Paraty. Trouxe fotos. Alguma coisa, porém, está no ar.

Ela nota quando entra numa livraria e sente aquela leve vertigem diante dos livros que não escreveu. Percebe quando vê uma mulher sozinha num ônibus e pensa que existe ali um relato. Constata numa janela acesa às três da manhã, num homem chorando de modo discreto num aeroporto, numa criança que pergunta à mãe se os mortos fazem aniversário.

Por um instante, ela chega perto. Então pega o celular. E escreve: “Às vezes, partir é apenas outra forma de permanecer”.

Pronto. Perdeu-se tudo.

Existe, porém, um pequeno animal dentro dela querendo ficção. Mas ela o alimenta com legendas. Todos começamos confundindo o desejo de escrever com a vontade de sermos autores. A diferença pode levar vinte anos, quatro livros ruins, três amores e uma humilhação pública para ser compreendida.

Ela ainda pensa que escritor é alguém que possui uma mesa bonita. Compra cadernos. Frequenta oficinas. Fotografa pilhas de livros. Diz “meu processo”. Mas seu processo, por enquanto, consiste em evitar a escrita.

Apesar disso, alguma coisa insiste. Bate à porta, e ela não sabe quem está do outro lado. Talvez seja o mundo, a vida, ou apenas o zelador do prédio.

Ela olha pelo olho mágico da literatura e vê uma forma indistinta no corredor. Sabe que está ali, que veio buscá-la. Só não consegue pronunciar seu nome.

E é bem provável que escrever comece nesse ponto: quando afinal se abandona o personagem, abre-se a porta e se aceita que o mundo não nos deve uma história. Nós é que teremos de arrancá-la dele.

Carlos Castelo

É jornalista e escrevinhador. Cronista do Estadão, O Dia, e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo. É autor de 18 livros.

Rascunho