Silêncio, que alívio

Um feriado suspende o ruído cotidiano e revela o silêncio como alívio, luxo e resistência íntima diante do excesso de vozes do mundo
Ilustração: Thiago Lucas
20/01/2026

Dia 20 de novembro foi feriado nacional. Antes, ele não existia. A notícia de um feriado me parece sempre boa, ainda mais se os motivos forem justos. Naquele dia, acordei às seis horas da manhã, por um acaso, sem querer. Uma coisa que nunca quero é acordar cedo. Isso sempre me parece uma dor. O corpo dói, a alma não se aguenta. Quase todo mundo precisa acordar cedo. As pessoas que trabalham à noite, como eu, se sentem com um turno a mais na vida. A parte da humanidade que não trabalha à noite geralmente se esquece da outra parte que, sim, trabalha quando todos estão dormindo. Acordei cedo demais, e, num feriado, isso tem um grau extra de revolta. Mas, assim mesmo, me levantei e fui para a cozinha, depois do banheiro. Talvez essa seja a sequência comum de toda uma enorme parte das pessoas.

Quando cheguei à cozinha, antes mesmo de abrir a janela, por onde entra um ar fresco com cheiro de madrugada, reparei no silêncio. Me admirei muito com o silêncio. Geralmente, amo o silêncio como amo pouca coisa na vida. O silêncio total da manhã, que geralmente não é silenciosa. A casa onde moro fica em uma esquina. Uma das ruas é mais movimentada do que a outra. Estou no cruzamento entre uma ruazinha de calçamento irregular e uma outra de asfalto liso, ligação entre uma outra rua antiga e conhecida e uma avenida muito importante. Quem mora em esquina sabe do que estou falando. Parte da humanidade que passa por aqui acha que precisa buzinar ao cruzar a esquina, mesmo com a sinalização farta, em especial se pilotar uma moto. Além das buzinas, tem o motor dos carros no leve aclive, a arrancada do ônibus depois de pegar passageiros no ponto, as pessoas que se encontram e ficam ali conversando, às vezes em voz alta. Essa parte é divertida. Se eu estiver escondida sob minha janela da cozinha, mesmo que ela não se abra para a rua diretamente, posso escutar fofocas, notícias, casos, perguntas e respostas. Escuto assaltos às vezes, escuto alguém ao telefone, quase sempre.

Naquele dia, ninguém esperava o ônibus, não havia carros nem motos, ninguém cruzava as ruas que formam a esquina. Às seis da manhã, reinava o silêncio, provavelmente porque o feriado permitiu que a maior parte dos passantes, de carro ou a pé, ficasse em casa dormindo até mais tarde. Alguns aproveitaram a oportunidade melhor do que eu. Outros ainda tomavam seu café, naquele dia com calma, sem a pressa dos horários marcados. Devia haver quem estivesse com os filhos, com maridos e esposas, talvez quem tomasse um banho mais longo. Eu, se pudesse, estaria ainda dormindo, coisa que acho sempre um ganho.

O silêncio me chamou a atenção. Olhei melhor pela janela porque talvez minha casa tivesse sobrado depois do fim do mundo. Não. Estava tudo lá. A casa laranja da frente, o poste, a esquina, o prédio em construção. A rua parada, o sol branco e morno, sem carros, sem vizinhança visível, sem vozes. Pensei e senti: que ótimo, que delícia, que alívio! Que raro.

Certa vez, viajando com uma amiga pela cidade do Porto, em Portugal, ao passearmos por um parque, comentei com ela: você notou como aqui é silencioso? E ficamos um pouco paradas para reparar nisso. Incrível. Como conseguem fazer isso na região central de uma grande cidade? Tenho inveja de lugares onde o silêncio forma bolhas, e é possível estar nelas.

Trabalho em um dos lugares mais barulhentos do mundo: uma escola. Qualquer silêncio ali é apenas relativo. As pessoas falam muito, em todo lugar, ao mesmo tempo. Muitas gritam sem parar. Na hora de uma prova, o silêncio é apenas localizado, mesmo assim, frequentemente perturbado pelo ruído das outras tantas salas, das pessoas que passam pelo corredor, das máquinas absurdamente ligadas numa obra que jamais acaba, pelos carros na rua (as janelas sempre dão para o lado de fora, bem perto), pela enceradeira do pessoal da limpeza (uma máquina enorme e roncadora), às vezes até pela banda de rock dos meninos que vão se apresentar na hora do intervalo. Um massacre de sons, barulhos, ruídos, vozes. Não é possível pensar assim, a não ser que estejamos muito treinados para o hiperfoco. As alunas autistas sempre pedem socorro e levam seus fones abafadores.

Eu me incomodo. Dirijo de janelas fechadas não porque tenha medo de assalto (pode ser também), mas porque assim evito o ruído da rua. Às vezes, ponho música para tocar, que é um tipo de barulho organizado, eventualmente bonito, harmônico, ritmado. Não ouço rádio porque evito o falatório. Falatório é meu dia a dia. Ao entrar em casa, faço uma oração ao silêncio que impus ali. Ah, que alívio, que delícia. É como brigar com o mundo todos os dias. Chata ela. Cansada.

Naquele dia 20, depois das seis da matina, fiquei reparando no aumento dos sons, na despedida do silêncio tão atípico, para marcar a hora em que aquela paz me deixaria. Tomei meu café sem sorver, evitando estragar o momento. Era possível, por exemplo, ouvir os sons do corpo, coisa que só ouvimos acidentalmente. Feriado, dia nacional do silêncio, um silêncio bom, não imposto. E fomos nos afundando no ruído logo mais, enquanto eu deixava umas anotações.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, infantis e juvenis, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. Teve colunas fixas em algumas revistas desde 2003 e publicou quatro livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (Escribas, 2012), Meus segredos com Capitu (Escribas, 2013, semifinalista Portugal Telecom), Doida pra escrever (Moinhos, 2021) e Nossa língua & outras encrencas (Parábola, 2023). É professora da rede federal de ensino e pesquisadora das mulheres na edição.

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