Os livros vermelhos

Três livros de capa vermelha marcam a formação de uma leitora e poeta, abrindo caminhos decisivos para a descoberta da poesia viva
Ilustração: Marcelo Frazão
08/09/2026

Outro dia, enquanto falava com amigos e amigas, me dei conta da importância capital que alguns livros vermelhos, isto é, de capa vermelha, tiveram em minha vida, sobretudo para minha formação como leitora de literatura, mais ainda de poesia. Acho que nunca dispus essas capas assim, lado a lado, então não as comparava, mas eu as tive embaixo do braço mais ou menos na mesma época; e, por razões distintas, aqueles livros me puseram num choque bom, o da descoberta.

O primeiro livro vermelho a que me refiro é Distraídos venceremos, do poeta curitibano Paulo Leminski, atualmente autor best-seller em catálogo de editora multinacional, homenageado em festa literária prestigiosa e cara, mas naquele tempo, quando o encontrei nas empoeiradas prateleiras da livraria de rua de Belo Horizonte, seus títulos eram difíceis de conseguir e alguns sebos longe de casa é que nos ajudavam a formar a coleção. Leminski não publicou só por pequenas editoras em tiragens baixíssimas. Ele constou de catálogos como o da Brasiliense e transitou bem pelo eixo Rio-São Paulo, trajetória imperativa até hoje para quem tenta sair das sombras, e sem garantias. Morreu cedo, deixou um legado poético que influenciou e influencia muita gente e apareceu para mim, primeiro, na forma de um solitário poema na página da apostila do colégio. Conto essa história a torto e a direito: a professora mandou saltar a página, mas eu desobedeci. Foi aí que encontrei, num susto, uma quadrinha leminskiana que me atordoou para sempre e me aproximou infinitesimalmente da poesia do século 20. De Leminski, corri para frente e para trás, buscando o que ele lia, quem encontrava, também seus desencontros, e seu primeiro livro a vir inteiro para as minhas primeiras estantes foi Distraídos venceremos. Aliás, é bom que se diga que esse meu golpe de sorte nem é assim tão aleatório. O título era leitura indicada a algum vestibular, e por isso parte de uma tiragem ínfima de poesia — vejam, poesia — viera parar aqui por estas bandas. Não era só tesão, era comércio.

Na mesma época, até porque o livro vermelho do Leminski me fez encontrar uma trilha, resolvi explorar a biblioteca escolar do meu colégio, escura e parca como muitas, e meti ali os dedos entre os volumes para retirar um outro livro vermelho. Se a memória não me falha demais, a lombada não apresentava o título, então algo além me chamou a atenção. Um livro vermelho vivo? Mais um? Assim, sem palavras? De quem será? E era dela: Ana Cristina César, a Ana C. Choque duplo: além de ser poesia recente, era assinada por mulher. Novidade grande para esta aspirante envergonhada e sem rotas seguras. Tomei de empréstimo A teus pés, li, reli, sem entender até hoje, reli os versos da jovem poeta morta, ela também? E fui procurar outras moças para me cercar delas, da poesia que elas publicavam. Não tive assim tanto êxito, não conheci um caminhão de poetas-poetisas, mas entendi que o caminho tinha passagem. Era mais um caso de livro indicado ao vestibular, se não me engano por alguma instituição privada, e isso era interessante e fazia os livros circularem, até mesmo os de… poesia.

Pouco tempo depois, li no caderno de cultura do jornal que um poeta vivíssimo e mineiro andava a lançar um livro nos meus arredores. Seria possível? Um poeta com nome e sobrenome, apresentável ao público, conversado, e autor de um livro vermelho: Ricardo Aleixo. Foto dele, não me recordo, capa, um título enigmático, Trivium, lançado por editora pequena, livraria de rua, também, veja só, indicado como leitura para um vestibular, para minha terceira imensa sorte. Fui lá comprar, que era longe, e ler um poeta conterrâneo e contemporâneo. Pode isso? Pode assim? Trivium me aproximou mais ainda da poesia deste tempo, da poesia viva, da poesia como se fazia ao vivo. Mais um livro vermelho para a minha pequena coleção de aprendiz, menina desejante das palavras, encantada que só com a rima e seu silêncio, o verso e seu desenho, o livro e sua trajetória tortuosa.

O trio de livros vermelhos, esse mesmo, com data de compra escrita à mão, repousa aqui pelas estantes até hoje. Não andam juntos, devem estar separados nos nichos, isso porque Leminski é uma coleção à parte; Aleixo, outra; Ana C., minha menos cobiçada e de obra menos continuada também. Vez ou outra me lembro desses três livros atravessando meu caminho, carmim, vermelho cor de perigo, a poesia me fazendo a corte, o corte, o que eu precisava para tentar uma bênção como poeta, um dia.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, infantis e juvenis, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. Teve colunas fixas em algumas revistas desde 2003 e publicou quatro livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (Escribas, 2012), Meus segredos com Capitu (Escribas, 2013, semifinalista Portugal Telecom), Doida pra escrever (Moinhos, 2021) e Nossa língua & outras encrencas (Parábola, 2023). É professora da rede federal de ensino e pesquisadora das mulheres na edição.

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