“Isso dá uma crônica!”, essa deve ser uma das frases que uma cronista (e um cronista) mais escuta, depois de qualquer conversa solta com pessoas que a (ou o) identifiquem como… cronista. Ou como escritora (escritor). Ou como escrevente, que seja, contadora de casos, furtadora de histórias, anedotas e fofocas, vá lá. Difícil é ser identificada como escritora, já que é coisa que depende de labor, muita persistência e espaços de publicação. Ou não. Para uma noção mais inclusiva, escritor é quem escreve, não necessariamente quem publica. Eu cá, do alto do meu livre-arbítrio, vou considerar que escritoras e escritores dependem de leitoras e leitores, e assim vão compondo uma dobradinha; essa, sim, custosa e exigente.
Escrever um texto, deixá-lo nas minhas gavetinhas, esquecer que ele existe ou lembrar que ele existe e está lá engavetado, ah, isso muita gente pode fazer. O texto ser “finalizado”, sair a passear e encontrar gente que o chacoalhe, aí são outros quinhentos, mil e quinhentos. E quando isso acontece, e as pessoas sabem que você é uma dessas criaturas que saem a recolher traços e fragmentos de mundo para dar-lhes uma nova trama, aí começa esse negócio: “Isso dá uma crônica, hein?”. É um elogio, é um reconhecimento, é uma dica simpática. Pode gerar nosso interesse ou não.
Parece que todo mundo é meio referência, hã? Todo mundo pode dar aquela dica esperta. E pode mesmo. Não é raro que eu esteja de pé, num lugar aberto ou fechado, esperando a hora de ir embora, e, ao conversar com alguém, muito ou pouco conhecido, desperte no interlocutor ou na interlocutora uma coceira de contar coisas, e essas coisas sejam identificadas como interessantes, interessantíssimas, muito mesmo, a ponto de virarem uma história pelas minhas mãos, um trato, uma “floreada”, como dizem; uma promessa de texto, um fio da meada para puxar, uma faísca que pode render fogo. Parece que todo mundo sabe que os textos podem vir do mundo, de qualquer coisa do mundo, mas que o mundo passa por uma espécie de retextualização, e daí recriamos, damos uma cara nova, um jeito coerente, uma graça, um tapa, pá!, e aquilo vira… uma crônica.
Muita gente oferece. Uma pequena multidão dá o toque, libera a história para adaptação, se bobear, ainda dá uma pegadinha no braço, um tapinha nas costas, como que a dizer “olha que ideia boa eu te dei”. Talvez alguns esperem agradecimento público, quase uma coautoria. Mas há também o contrário: quem se sinta furtado, se não roubado à mão armada.
Tem gente que não gosta de contar histórias, sobretudo as de família ou as muito comprometedoras, para a cronista. Deve dar um medo danado de ser devassado. Vai que você conta algo e, pam!, de repente está lá no Rascunho ou em algum espaço de leitura pública. Mesmo que os nomes sejam trocados, a cidade, o lugar qualquer, a descrição das personagens… Não dá para confiar. Além de publicar aquele caso segredoso ou inconfessável, ela ainda o aumenta! E se minha mãe ler isso? Minha mãe não lê nada! Mas e se um dia alguém compartilhar no grupão dos tios e das tias e minha mãe sacar que é ela, toda brilhosa naquele texto que nem é fechado para assinantes! E meu primo barraqueiro? E meu ex-marido? Ah, isso aí é pesado. Quanta história de ex- a gente ouve e sabe e até tem… e nem pode contar. Outro dia mesmo me perguntaram se não tive problemas com certos textos e ex-namorados. Ou, pior, com as atuais esposas ou namoradas dos ex- que foram expostos. Mas não acho que eles sejam expostos. Do jeito que a coisa é feita, estamos sob o manto da ideia de “narrador”, da ficção, de histórias que poderiam acontecer a qualquer pessoa, sem exclusividade. Também estamos sob a desculpa do “floreio”, que dá à narrativa sigilosa um tom de qualquer história tirada da cabeça, do sovaco e de outras partes, como diz o povo.
Uma colega, certa vez, me contou um episódio lindo sobre a vida de sua mãe. Outra amiga, faz tempo, me disse algo sobre seu marido que era absolutamente lindo de se espalhar. Como conter essas histórias tão bonitas? Por que deixá-las tão privativas? Isso sem falar no tanto de poesia que existe sob essa capa de banalidade que reveste o dia a dia da gente, todo o tempo. Só mesmo uma cronista ou uma poeta para irem lá revelar, não? Talvez uma romancista/um romancista, se tiver lido poesia direito.
Há também, claro, o quinhão de histórias terríveis, tristes e angustiantes. Elas são importantes para a gente criar empatia, rever conceitos, experimentar, só com o dedinho do pé, que seja, as águas turvas e gélidas (ou escaldantes?) de algum tipo de sofrimento ou sentimento. Publiquei, uma vez, uma crônica sobre um tal de “beijo surdo”, coisa que ouvi dizer que existe (porque a gente jamais confessa…) quando alguém encontra outro alguém e essas pessoas se apaixonam. Desse encontro raro é capaz de acontecer um beijo que suspende tudo, não se ouve, não se toma consciência de outra coisa que não seja aquele beijo, aquela boca, aquele vento soprando ao redor. Teve vento mesmo? Oxe, mas esse conto deu o que falar. Um tanto de leitores que se identificavam, outro tanto que se entristecia (será que eu, um dia…?), outro mais que morria de inveja (por que não comigo?), alguns que duvidavam (isso nem existe, essas ficcionistas, tsc…), e gente que se mordia de ciúme (que ex- é esse?). Sob o véu da narradora, era afirmar com segurança: “Gente, é só uma crônica, rapá!”.
Toda semana, praticamente, alguém me diz “Isso dá uma crônica!”, como se me autorizasse a estar ali gravando tudo, anotando detalhes, já replanejando como contar aquela história que pode render, que pode eclodir, embrião à espera de se desenvolver e nascer. Quem faz isso? A escritora. Ela vem com seus ouvidos espertos, profundos, serelepes, e captura a narrativa, dá alinhamento a ela, ajeita, poda e expande, a um só tempo, escolhe o tom, a paleta, aperta aqui, afrouxa ali, é ritmo que chama?, escolhe, esconde, expõe, revela, guarda, puxa, solta, recolhe, exagera, contém, quero que chorem?, quero que temam?, quero que se enraiveçam?, quero que duvidem?, quero que se horrorizem?, quero que se divirtam? Quero. O negócio é fiar, fiar, ajustar, organizar, até conseguir. E só vamos saber lá adiante, quando o texto alcançar algum leitor, alguma leitora. Que seja um, que sejam duas.
“Isso dá uma crônica, né não?”, de tão boa história, de tão comovente, asfixiante, impressionante, engraçada. Todo mundo acha que tem uma boa história na manga, mas daí a escrevê-la são outros quinhentos. E que ela fique boa, e dê a rir ou a chorar, mais mil e quinhentos. Mas que dá, sempre dá uma crônica.