Bala

A escrita, desde cedo, revela seu poder de criar sentidos — e enganos —, agora reconfigurados pelas promessas e armadilhas da inteligência artificial
Ilustração: Bruno Schier
07/04/2026

O assunto é a inteligência artificial. A bola da vez. A vedete, expressão que tirei do fundo de um baú que nem é meu. A IA, seu apelido fofo, está na crista da onda. E não quero falhar miseravelmente, como meu pai fazia, afirmando que isso é moda, que logo passa. A IAG, essa que gera textos e imagens, é o beó do momento. E tenho sido instada a ministrar disciplinas sobre ela no ensino superior. Isso porque, além de usá-la a torto e a direito, é bom que as pessoas saibam o que ela é, de onde vem, como funciona etc. Não assim inocentemente, que isso dá ruim. Então, às vezes, preciso estudar, ler, ler, ler, a fim de falar coisas pertinentes, embora sejam sempre provisórias, sobre o tema candente. Dizendo mais fácil: tema quente. E vamos nós.

Só que antes de falar de IAG, sobretudo dessa que gera textos formados por palavras, gosto de começar questionando a própria escrita, ela como tecnologia, como ferramenta, como chave de acesso a tantas coisas, como algo que se conquista (ou não), e que, com isso, se devasta ou se devassa, se amplia ou se limita. A escrita está no centro do debate, assim como a ideia de inteligência, que tem sido bem barateada por esses artefatos que copiam e repetem. Lá vamos nós.

E para começar o debate e pôr a escrita no centro da cena, sempre peço que as pessoas ali na roda, seja na graduação, seja na pós-graduação, rememorem suas histórias, suas conquistas, seus processos de letramento. Gosto que lembrem, que tomem consciência, e muita coisa boa acontece nesses episódios. As pessoas gostam de falar; e quando vão recordando, começam a se lembrar mais e mais e a se emocionar. Algumas coisas se repetem ali, num espaço quase mágico de narrativas de vida, e vemos muita lógica em tudo, inclusive a de que ninguém estava sozinho nas suas experiências. Era mais social do que individual, no fim das contas.

Bem, nos eventos recentes em que escutei as histórias de dezenas de estudantes, tive alguns privilégios. A crônica passada, nesta coluna, tratava do “isso dá uma crônica”, que é quando alguém conversa com a cronista e sempre acha que seu assunto rende bem, rende texto legal. Pois nessas ocasiões das rodas de conversa sou eu que digo: “isso vai virar crônica!”. Pois então. Além do fato de que 100% das pessoas mencionam mulheres — mães, avós, irmãs, professoras — como figuras importantes de suas trajetórias nos letramentos, sobretudo os iniciais, algumas espertezas aparecem como anedotas, em cenas nostálgicas de infância e juventude. Essas mulheres, sendo parentes ou não, muitas vezes surgem com nomes e apelidos, e não raro são analfabetas, ou pouco escolarizadas, e ainda assim insistem na importância de que as crianças aprendam a ler e a escrever.

Numa dessas, um aluno (já professor) bem conversado, de barba no queixo, voz mansa, alegria nos olhos, contou um episódio importante dos inícios de sua alfabetização, em solidariedade relativa com a mãe, pouco escolarizada, mas capaz de escrever uma lista de compras para a mercearia. Ele, criança, era responsável por pegar a lista, o parco dinheiro e sair para as aquisições, sem discutir muito. Até que aprendeu os rudimentos da escrita. Um dia, quando recebeu a listinha a cumprir, tomou de um lápis e escreveu lá, embaixo da lista da mãe: bala. Já aprendera que a escrita podia fazer com que os desejos se realizassem.

Foi à mercearia, como sempre, ou talvez um pouco mais faceiro; entregou a lista ao seu Zé, que a olhou, como sempre, e foi catar os itens que o garoto deveria levar. Nada demais, exceto pelo último item: bala.

— Ô, menino, sua mãe quer o troco em balas?

— É…

Bem, o que é troco, quanto daria, quantas balas caberiam naquele troco, isso era coisa demais para um letramento tão incipiente. O garoto só topou e achou que estava certo. E, junto com as compras devidas, chegou em casa com um saco de balas. Era bastante bala, tanta bala que deu para fazer a alegria dele e a fúria da mãe. Levou uma bronca e uns beliscos, claro. Como assim? Cadê meus dinheiros, seu safado!

A mãe correu para tirar a prova. Foi à mercearia saber do seu Zé, quase teve acareação. Descobriu fácil o item que jamais escrevera em sua lista de necessidades. O menino ficou lascado, o golpe não compensa. É doce, mas não compensa. A escrita tem dessas, os contratos, os bilhetes. Agora é imaginar como a IAG armará arapucas incontornáveis para nós, as crianças.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, infantis e juvenis, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. Teve colunas fixas em algumas revistas desde 2003 e publicou quatro livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (Escribas, 2012), Meus segredos com Capitu (Escribas, 2013, semifinalista Portugal Telecom), Doida pra escrever (Moinhos, 2021) e Nossa língua & outras encrencas (Parábola, 2023). É professora da rede federal de ensino e pesquisadora das mulheres na edição.

Rascunho