É sem pressa. Eu disse a ele, logo no início, que demanda paciência construir uma história, preencher a vida, dar corpo e consistência a uma relação, participar efetivamente. Os sinais vêm. Não é agora, de uma hora para a outra, da noite para o dia, e todas essas expressões que significam o de repente. Também não é da água para o vinho. Há líquidos, como sabemos, que não se misturam. Há outros que dão um resultado bem homogêneo. Não sei se vale a analogia, porque talvez ela nem seja desejável entre pessoas, mesmo as que se amam.
Foi sem pressa. De repente, minha casa se encheu de sacolinhas do Café Hélène. Aqui e ali, com pão e sem. Na mesinha da cozinha, as migalhas do que sobrou do bolo de limão e mirtilo. Jamais pensei em conhecer um bolo com esse sabor. Na geladeira, duas fatias do pão integral cheio de sementes, e elas caem pelas frestas, no pratinho, pelo chão. São também sinais da presença dele, de que esteve em algum momento, trouxe um mimo para o café e se foi. Deixou os sinais de por onde andou e onde frequenta. Deixou um cheiro de conversa e gentileza pelos cantos, na sala e na copa.
Os bombons. A casa anda infestada deles, em sua maioria em embalagens de marcas conhecidas. Uma delas, completamente desconhecida para mim, comprada em uma viagem. E aquela outra que compramos juntos, numa viagem recente, com uma caixa colorida e embalagenzinhas que ficam pelas mesas da casa. São vestígios das visitas, curtas ou longas, que ele fez. Um amor que cheira a chocolate e café, pão e drinks com gin. Aqui e ali, garrafas de vinho ainda fechadas, aguardando oportunidades. Mais um pouco, um livro. Um empréstimo, um presente, uma curiosidade. Na mesa da sala, um conjunto de xícara e pires lindíssimo, companhia para todos os lanches, nos três turnos da vida. O tênis de plataforma, a camisa verde-seco, os anéis. Ah, os anéis! Vestígios de Paraty ou de caminhadas pela feira da Recoleta. Pode ser piegas, mas ficam também os fios de cabelo pela casa.
Com o passar — e o vagar — dos dias, o pufe do quarto mistura as roupas. Uma camiseta daquela marca preferida, usada. Meias. No banheiro, a toalha à espera, a postos. Os sabonetes de erva-doce aqui e lá. Qual é seu cheiro favorito? Não é necessário pedir ou combinar. Sem pressa, minha vida vai se preenchendo da dele, numa troca, claro. Lá, no apartamento claro e ventilado, meus livros, minha latinha de coca zero e meus sachês de capuccino invadem as prateleiras e a geladeira, assim como as sacolinhas do Sanville ou do Villefort cruzam a cidade para chegar à sua despensa. Os hábitos vão do queijo sem lactose à água tônica, experimente, você vai gostar. Gin, frutas cítricas e monin nas noites de sábado, se ninguém mais vai dirigir. Onde aprendemos isso? Há coisas que fazemos no compartilhamento das experiências, e elas passam a ser nossas, dão consistência aos dias, à história, à relação. Sem mar de rosas, por favor. Seu bico de choro, o cenho franzido, as horas em que não se quer falar. Ficam sobre a mesa os restos das castanhas compradas no Verdemar, a laranjinha da Lalka, um resto de Lays. Na geladeira, mais amiúde, o pesto para a massa, mas só eu como. Obrigada pela gentileza. Essas palavras que não faziam parte do meu léxico passam a frequentar minha casa — e a dele —, enchem minha vida de sentidos novos, assentam-se na duração dos dias até que formem semanas, meses, quem sabe anos… E isso se constrói de miudezas, presença, grandezas, atitudes, compartilhamentos, companhia, visitas, estadas, dormir e acordar, juntar os fios de cabelo e jogar fora na sacolinha do seu mercado ou do meu.
Com o passar dos meses, também se organiza a vida, um em torno do outro, sem movimentos bruscos, na curadoria da conversa e da alimentação, como foi seu dia?, deu certo aquilo?, funcionou?, gostou das molduras?, obrigada pela indicação, me passa o contato, sabe fulana?, precisa de ajuda?, deixa comigo, te busco, te levo, não precisa, mas eu quero, aceita, recebe, agora é a sua vez, deixa eu te agradar?, hoje é seu dia, lembra?, lembra de quando era ainda o começo? e ainda nem compartilhávamos nada?, não, já esqueci desse momento. Não é mais tão começo assim e já posso adivinhar um pouquinho os seus passos, o que ele sentiu, que risada vai dar, e ainda me surpreender, claro. A sacolinha do Hélène entrou aqui pela primeira vez e não saiu mais, está sempre sendo reposta. Cheiro de uma vida pertinho da outra, sem pressa, sem solidões demoradas, dando corpo e consistência, sem mar de rosas, reduzindo a incerteza, dia após dia juntando fios de futuro.