O ladrão de histórias

O trajeto lembrava um João malfeitor a jogar migalhas de pão pelo caminho, até que no escritório encontrou o pote a transbordar anéis
Ilustração: Denise Gonçalves
01/05/2021

Os dedos magros não buscavam ornamentos. Eu vagava pelas vielas à espera do fim do dia. Na manhã seguinte, tomaríamos a barca; em poucas horas estaríamos em casa. Após dez dias, a África não nos parecia uma imagem de cartão-postal, uma terra a ser desbravada. Não chegamos ao deserto. Toda a idealização romântica fora massacrada pelo cansaço impregnado em cada músculo, em cada dobra do corpo. Atravessamos cidades coloridas e ruidosas — hoje, apenas pontos desbotados no mapa —, dormimos em hotéis em cujas janelas um cântico, um lamento de fé ecoava, perdemo-nos em bairros cercados por muros. Cabeças de animais e peixes eram vendidos em baldes no calor das ruas. As moscas voejavam com olhos esfomeados ao nosso redor. Nada disso nos tirava o ímpeto de seguir para dentro daquele país estranho aos nossos olhos estrangeiros.

O mexicano baixinho, mãos pequenas e gestos afetados, nos seduziu para a aventura. A fala rápida, num espanhol às vezes incompreensível, soltava entre frases entusiasmadas um de puta madre. A expressão soava deslocada na boca latino-americana, como se forçasse a entrada numa civilização que nos rechaçava o tempo todo. Nós, os sudacas.

Era um país cercado de mistérios para nós — à época, jovens desprovidos de grandes preocupações. Alertados, deveríamos dizer não a qualquer investida dos comerciantes. Um não firme, decidido, mas com educação. Ouvíamos histórias (até hoje não tenho certeza se verdadeiras) de pessoas que ficaram retidas durante horas em determinada loja até que comprassem um tapete. Passamos incólumes: regressamos a casa sem um tapete mágico na bagagem. Ou um gênio numa lâmpada a nos dever desejos.

Logo na chegada, após uma breve viagem na barca que dividia os continentes, o haxixe roçou minhas mãos assustadas. Disse o primeiro não de uma coleção que me acompanharia país adentro. Fomos perseguidos por crianças, velhos, homens, mulheres. Todos ao mesmo tempo tentando nos vender algo. Não sabiam que não nos sobrava o que tanto desejavam: dinheiro. Negociando com a destreza de tuaregues à espreita, passamos os dias até chegarmos novamente ao porto que nos levaria para casa.

A tarde abafada intensifica o cansaço. No mercado ao ar livre, os corredores apertados expelem ruído e odores no calor desértico. O menino aproxima-se com penduricalhos agarrados às mãos, ao corpo. Sem me dar qualquer chance, desfila uma lista atropelada de países, supostas nacionalidades. Os erros seguidos me fazem sorrir. O timbre da voz fina arranha algumas palavras conhecidas. Mas quando seus ouvidos absorvem a palavra Brasil, a boca fecha-se em silêncio por segundos intermináveis. A modorrenta tarde paralisa-se no tempo. O sorriso tímido em câmera lenta transforma-se em um som quase indefinível, como se da escuridão da garganta despertasse um animal furioso: Romário. O menino saltita ao meu redor, talvez a imaginar que eu fosse íntimo amigo do atacante baixinho e atarracado que ganhara havia poucos anos uma Copa praticamente sozinho.

A cena espalhafatosa chama a atenção do homem sentado a um canto. Como se espantasse moscas do lombo de um camelo, expulsou o menino para longe. Ao agradecê-lo, noto que seus olhos me puxam para a loja. Numa bancada improvisada, vários anéis simetricamente perfilados. Começava ali uma longa e divertida negociação por um anel em cujo dorso letras esculpidas eram um mistério.

Quando nos trancafiaram em casa, não me preocupei: o casulo doméstico sempre foi meu mundo protegido por estantes ao redor. Com o tempo, as incertezas aumentaram a angústia. Nunca imaginei que ficaria tanto tempo afastado dos abraços mínimos, das conversas eventuais, dos sorrisos desavisados. O espaço urbano transformou-se em terra inóspita. Privilegiado, envolto numa bolha de vantagens, saio apenas para o essencial. A vida encurtou os movimentos. Mas me movo com destreza na casa-biblioteca construída sem jamais prever que se transformaria num bunker em plena pandemia.

Naquele dia, ao fechar a porta e ganhar a rua, o pote ficou ao lado do relógio, encostado nos dois volumes do Quixote.

A língua simulava diversas palavras para tentar explicar o significado incrustado no anel de prata. Alguns sons próximos ao português, raspando no espanhol e no italiano, teciam sentidos no inusitado pergaminho a tremular entre nós dois. As mãos se movimentavam em quase desespero. Eu precisava comprar o anel antes que o sol tombasse no horizonte. Pelo menos era isso que entendi quando uma improvisada expressão em espanhol se interpôs entre a boca de hálito forte e meus ouvidos atentos: la noche no es buena.

Estava decidido a levar o anel com o pouco dinheiro que me sobrara. O comerciante árabe parecia desacreditar da minha pobreza. O embate tomava o caminho do infinito. Quando a noite se preparava para cobrir aquele pedaço do mundo, ele cedeu. Saí com o anel a brilhar na noite abafada, sem nunca entender o que os símbolos significavam. Apenas uma meia-lua fincada na prata me dizia algo.

Chego pela manhã. Estaciono o carro lentamente na garagem. Ao pisar no deck, vejo o pó espalhado pela madeira. A estrutura da porta lembra um garrancho enviesado de criança. Grito pelos demônios ancestrais que nos habitam. Entro na casa violada. O pó espalha-se sobre os livros, a mesa, os jornais. O ladrão entrara na noite de sombras, sem lua, protegido pela escuridão ao redor. Entrou na casa de muitos livros, andou por ali a soltar terra pelo piso. O trajeto lembrava um João malfeitor a jogar migalhas de pão pelo caminho. Percorreu a sala, a cozinha. No quarto, escancarou o guarda-roupa e levou todas as camisetas. No escritório, encontrou o pote a transbordar anéis — cada um com uma história diferente. Os sons das narrativas afetivas aprisionadas no metal.

Sumiu na noite escura a meia-lua cuja falta de sentido ainda me pertence.

Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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