Presente, de Antonio Cicero

O poema é a prova do conflito existencial do poeta
O poeta Antonio Cicero, autor de Presente
29/10/2016

Por que não me deitar sobre este
gramado, se o consente o tempo,
e há um cheiro de flores e verde
e um céu azul por firmamento
e a brisa displicentemente
acaricia-me os cabelos?
E por que não, por um momento,
nem me lembrar que há sofrimento
de um lado e de outro e atrás e à frente
e, ouvindo os pássaros ao vento
sem mais nem menos, de repente,
antes que a idade breve leve
cabelos sonhos devaneios,
dar a mim mesmo este presente?

No início do imprescindível livro Na sala de aula, Antonio Candido oferece um simples e, ao que parece, esquecido conselho: “Ler infatigavelmente o texto analisado é a regra de ouro do analista. A multiplicação das leituras suscita intuições, que são o combustível neste ofício”. Theodor Adorno chamaria a isso de primazia do objeto: é a dedicação concentrada àquilo que nos ocupa, envolve, seduz. Seguindo a regra, o leitor do poema Presente de Antonio Cicero, após idas e vindas, perceberia tratar-se de um soneto (sem as divisões estróficas tradicionais), de versos octossilábicos, com todas as catorze rimas em /e/, composto por apenas dois períodos, ambos interrogativos, e em que o título coincide com a ambivalente palavra final: presente. Tendo tal estrutura em vista, o leitor aventura-se além.

Porventura, a propósito, é o nome do livro (indicado ao Portugal Telecom), de 2012, onde se abriga o poema Presente. Em vez da previsível distribuição em estâncias de 4/4/3/3 versos, Cicero prefere o soneto compacto, de modo a não dispersar no trânsito entre quadras e tercetos o pensamento que se forja à medida que a leitura avança. Aqui, a despeito da inexistência da separação espacial, pode-se, sim, visualizar dois blocos (versos 1-6 e 7-14), demarcados nitidamente pela frase-pergunta que sustentam. O poema e seu teor representam bem a dicção filosófica que acompanha a obra do autor de O mundo desde o fim (1995).

Tanto Antonio Carlos Secchin, na orelha de Porventura, quanto Alberto Pucheu, no volume da coleção Ciranda da Poesia (Eduerj, 2010) dedicado a Cicero, apontam o gosto e a afinidade deste com a cultura clássica. Não será por acaso, assim, que a tópica do carpe diem destaque-se do corpo de Presente — desde o título, aliás. Em síntese, o que deseja o personagem ali projetado? Que ele possa, plenamente, usufruir de si mesmo, neste momento de comunhão com a natureza, sem nada exterior obstruir essa intensa fruição. Os signos da natureza transbordam: gramado, flores, céu, brisa, pássaros, vento compõem um cenário bucólico, idílico, que não se quer conspurcado. A regularidade rítmica e rímica colabora sobremaneira para esse enleio a que o poema aspira: o movimento assonante de todas as catorze rimas externas em /e/ se reforça com outras tantas rimas internas também em /e/ e encontra eco no êxtase do penúltimo verso — “cabelos sonhos devaneios” — em que a ausência de pontuação sugere que o sujeito parece estar mesmo imerso em si.

Mas todo o clima, todo o desejo, todo o (diria Freud) princípio de prazer se choca com o princípio de realidade, esse inimigo da libido, de sonhos e devaneios. O poeta pressente que algo pode estragar o dêitico momento, “este presente” — desde sempre desdobrado na simultaneidade de uma “dádiva” e de um “agora”: como um fantasma ou uma culpa, a sombra do “sofrimento” paira sobre tudo, incontornável, “de um lado e de outro e atrás e à frente”. Cético, bem que o poeta tenta, retórico, desvencilhar-se do incômodo de ter de “lembrar que há sofrimento”, mas a lembrança insiste, atrapalha, se fixa, constrangedora, iniludível, nos versos 8 e 9. Na verdade, todo o poema, erguido em torno de duas perguntas, afirma a dúvida: é possível escrever poemas assim, tão abnegadamente líricos e subjetivos, enquanto permanece, ubíquo e monstruoso, o sofrimento humano? A existência concreta do poema dirime a suspeita: sim, é possível. A resposta, no entanto, está longe de resolver o impasse que a arte tem diante da história, o artista diante da vida, o valor estético diante do compromisso ético.

Na célebre Palestra sobre lírica e sociedade (1957), posterior ao texto Crítica cultural e sociedade (1949) em que se registrou o imperativo de que “escrever um poema após Auschwitz é um ato bárbaro”, Adorno dirá que “as mais altas composições líricas são, por isso, aquelas nas quais o sujeito, sem qualquer resíduo da mera matéria, soa na linguagem, até que a própria linguagem ganha voz”. Aqui me parece residir o nó górdio e a glória dos versos de Antonio Cicero: o poema faz duas longas e densas perguntas, mas não as responde. Não as responde porque ele, o poema, seria já a única resposta possível. O poeta deixa claro que não desconhece a existência soberana do sofrimento, que está “de um lado e de outro e atrás e à frente”, mas alimenta a hipótese de — diante de uma brisa que lhe acaricia os cabelos e diante de uma idade que, supostamente avançada, em breve levará estes mesmos cabelos — deixar-se curtir, quase epifanicamente, aquele momento: singular e anônimo, pessoal e intransferível.

Mas toda epifania, quando se transforma em arte, passa a obedecer a diverso modus faciendi. A abstração vira enigma formal, que o poeta cifra. A experiência do sujeito, sempre histórica, ganha corpo no poema, feito uma poeira incrustada numa ranhura de um móvel antigo. O desejo abstrato não é representável; escapa. Ao poeta, compete tentar deixar-se soar na linguagem, “até que a própria linguagem ganhe voz”. O poema Presente de Cicero encena tal movimento: em disfarce de soneto, elabora duas perguntas, com métrica e rimas planejadas, indagando se é possível, ainda que “por um momento”, deixar o sofrimento do mundo de lado e, aproveitando (carpe diem) o que a natureza lhe oferta, dedicar-se inteiramente a si mesmo; em suma, “por que não (…) dar a mim mesmo este presente?”. A resposta está na pergunta: se “este presente” é o tempo real da experiência vivida e é também a dádiva, o mimo que se ganha em ocasião especial, então este presente (tempo e dádiva) só pode ganhar forma em um único lugar: na linguagem. Ou, no caso, no poema que temos à vista. O presente – este – que o poeta sempre quer é o poema.

E o sofrimento? Ora, o poema é a prova do conflito existencial do poeta. Seduzido pelo êxtase epifânico e introspectivo, que de algum modo o afastaria da dor mundana, o sujeito só pode, no entanto, optar pela razão do poema, que exige dele cálculos internos (métrica, rimas, pontuação, elipses, etc.) e que o aproxima de reflexões que incorporam aquele mesmo sofrimento que não quer, pelo menos “por um momento”, lembrar. Talvez por, exatamente, tanto se “lembrar que há sofrimento/ de um lado e de outro e atrás e à frente” é que tenha se agigantado tamanha vontade de esquecimento, hedonismo e alienação, traduzida em carícia, sonho e devaneio. Em Presente, Antonio Cicero insinua, com delicadeza, que, se na vida real prazer e sofrimento se conflitam, no espaço fictício do poema se entrelaçam — como se a dor do sujeito, virando poema, fosse a própria delícia da trama da linguagem. E por que, se presente (em forma de tempo, dádiva e poema), não seria?

Wilberth Salgueiro

Poeta, crítico literário, pesquisador do CNPq e professor de literatura brasileira na UFES. Autor de A primazia do poema, Lira à brasileira: erótica, poética e política, O jogo, Micha & outros sonetos, entre outros.

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