I. Eu nasci num tempo antigo, muito velho,
muito velhinho, velhíssimo.
II. Fui menina de cabelos compridos trançados, repuxados, amarrados com tiras de pano.
Minha mãe não podia comprar fita.
Tinha vestidos compridos de babado e barra redobrada (não fosse eu crescer e o vestido ficar perdido).
Minha bisavó, setenta anos mais velha do que eu, costurava meus vestidos.
Vestido “pregado”.
Sabe lá o que era isso?
A humilhação da menina botando seios, vestindo vestido pregado…
Tinha outros: os mandriões, figurinos da minha bisavó.
III. Fui menina do tempo antigo.
Comandado pelos velhos: barbados, bigodudos, dogmáticos — botavam cerco na mocidade.
Vigilantes fiscalizavam, louvavam, censuravam.
Censores acatados. Ouvidos.
Conspícuos.
Felizmente, palavra morta.
IV. A gente era tão original e os velhos não deixavam.
Não davam trégua.
Havia um gabarito estatuído decimal e certa régua reguladora de medidas exatas:
a rotina, o bom comportamento, parecer com os velhos, ter atitudes de ancião.
V. Fui moça desse tempo.
Tive meus muitos censores intra e extralar.
Botaram-me o cerco.
Juntavam-se, revelavam-se incansáveis. Boa gente.
Queriam me salvar.
VI. Revendo o passado,
balanceando a vida…
No acervo do perdido, no tanto do ganhado
está escriturado:
— Perdas e danos, meus acertos.
— Lucros, meus erros.
Daí a falta de sinceridade nos meus versos.
A trajetória de Cora Coralina é, de fato, surpreendente: nascida em 1889, somente aos 75 anos (em 1965), teve seu primeiro livro publicado. Falecida em 1985, aos 95 anos, hoje é considerada um dos principais nomes da poesia brasileira (aliás, um pseudônimo — musical, belíssimo), e sobre sua obra se multiplicam os estudos. Nestes, há quase um consenso acerca da simplicidade de sua poesia. Aqui, em Lucros e perdas, há vários conflitos em convívio, desde o título, até o enigmático derradeiro verso — “Daí a falta de sinceridade nos meus versos” —, que confirmam que, nessas estrofes de Meu livro de cordel (1976), a decantada simplicidade ficou em suspenso.
O poema se estrutura em seis estâncias, com versos predominantemente livres e polimétricos, em que a sintaxe e seu tom de prosa vêm do balanço da memória: ora há um verso curtíssimo, uma espécie de reminiscência sob a forma de palavra impactante, como “Conspícuos”, ora há versos longuíssimos, que atravessam a margem de uma linha a outra, costurando o difuso. Do lugar da velhice, a poeta rememora o “tempo antigo”, em que o patriarcalismo ditava com ferocidade e violência como as meninas, moças, mulheres deviam se comportar. Num contexto interiorano, como a cidade de Goiás Velho e seus becos e ruelas, a dimensão de tal vigilância alcançava patamares insuportáveis, a ponto de — veja-se a biografia da escritora — Cora Coralina, aliás Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, ter de sair da cidade goiana para uma outra, no estado de São Paulo, só voltando à terra natal décadas depois, para retomar, à beira do rio Vermelho, a histórica Casa Velha da Ponte, hoje um Museu com intensa visitação.
No dístico de abertura — “Eu nasci num tempo antigo, muito velho,/ muito velhinho, velhíssimo” — se destaca a superlativa gradação que explicita que a vida desse “Eu” se origina em uma época indubitavelmente arcaica. A estrofe três vai esclarecer que não é somente a uma época que a poeta se refere, mas também a pessoas, no caso, uns “velhos” homens assemelhados a conservadores e autoritários coronéis “barbados, bigodudos, dogmáticos”. Noutras palavras, velhos (idosos) de um período velho (antigo), com mentalidade velha (ultrapassada). Essa abertura também dá a ver o traço autobiográfico recorrente na obra de Cora Coralina, considerando esses traços como biografemas, cujo conceito, no sentido barthesiano, reúne vida/bio e escrita/grafema, ou seja, como a vida — irrepresentável em si mesma — se transforma em signos, com todas as iniludíveis ambivalências, máscaras e metamorfoses
Quando a poeta diz, nas estrofes 2 e 3, “Fui menina”, e na estrofe 5, “Fui moça”, ela antecipa o lugar da mulher que fala de um presente que relembra a infância, a adolescência e o despertar da vida adulta. A memória recupera, em modo fragmentado, cenas e imagens que se fixaram em trauma: se a “mãe não podia comprar fita” é porque os recursos financeiros praticamente inexistiam, e a pobreza imperava. Assim, os cabelos “amarrados com tiras de pano” e os vestidos costurados pela bisavó permaneceram para a “menina botando seios” como “humilhação”. Os vestidos e mandriões com pregas e babados parecem ilustrar um visual demodê, cafona, indesejado. A bisavó, “setenta anos mais velha”, reforça o “tempo velhíssimo” em que a poeta começa a se constituir como sujeito-mulher: tempo e costumes e “figurinos” dos quais demonstra inequívoca aversão — “Sabe lá o que era isso?” — e pulsante desejo de se libertar.
A lembrança de pertencer ao tal “tempo antigo” se reitera na estrofe três. Mas agora se evidencia a causa principal dessa mácula, em versos que desenham como funcionava a vida social daquele “velhíssimo” tempo: “Comandado pelos velhos: barbados, bigodudos, dogmáticos — botavam cerco na mocidade./ Vigilantes fiscalizavam, louvavam, censuravam./ Censores acatados. Ouvidos”. O retrato fisionômico deslinda um perfil austero, impositivo, inflexível, obsessivamente dedicado a controlar, cercar, fiscalizar, censurar o outro, o diferente, o não idêntico, a “mocidade”. Para isso, contavam com o apoio da moral vigente, e o verbo “louvavam” sugere o tipo de apoio que acatava esses guardiões da ordem (da própria ordem, por óbvio). A ironia mordaz da poeta se assina no menor verso do poema, uma palavra apenas: “Conspícuos”. O uso do vocábulo deveras inusual, significando “notáveis, ilustres”, provoca efeito de riso, de ridículo, desmontando a sisudez, a vetustez e a desfaçatez de tais vigilantes da vida alheia. O arremate da estrofe não deixa dúvida: “Felizmente, palavra morta”, isto é, para alegria da mocidade não só a palavra “conspícuos” está esquecida, mas sobretudo feneceram aqueles “dogmáticos” aos quais ela se refere. O retrato no poema ainda dói, e a feitura do poema é um exercício de exorcismo.
A propósito, a fotografia da cidade natal no poema de Drummond também dói, com “oitenta por cento de ferro nas almas”. O poeta itabirano soube, assim como Cora Coralina, lidar com essa herança e reinventá-la. Drummond se manifestou várias vezes sobre a poesia de Cora, deslumbrado com sua (tardia) descoberta. Em carta de julho de 1979, registrou: “Ah, você me dá saudades de Minas, tão irmã do teu Goiás!”. Se é fato que o poeta colaborou bastante para a divulgação do nome e da obra da “irmã”, também se pode afirmar que a fortuna crítica em torno da produção da poeta & doceira cada vez mais se amplia. Entre importantes estudos, é imprescindível a consulta a textos de Clovis Britto, Goiandira Camargo e Solange Fiuza. Esta, por exemplo, diz em Confissões de Aninha e memória dos becos que “a escritora [Cora Coralina] tanto transfigura em arte vivências individuais, notadamente a infância da menina mal amada Aninha, quanto recria histórias, lendas, resgata memórias subterrâneas que não constam dos autos oficiais do passado, de modo a promover um rearranjo da história canônica”. É exatamente isto o que acontece em Lucros e perdas: vivência e recriação por meio da memória.
As estrofes 4 e 5 reiteram os conflitos centrais: mocidade vs. velhice, originalidade vs. rotina, resistência vs. opressão, feminino vs. machismo, liberdade vs. controle. Tal controle obsessivo, patriarcal, doentio encontra expressão tão precisa quanto irônica em “gabarito estatuído decimal”, valendo-se de imagem das exatas para ilustrar o implacável sistema panóptico de vigilância e punição (recorde-se da saída forçada da cidade). Nessa lida cotidiana, o cerco dos velhos censores incansáveis vem de todo o canto: “intra e extralar”. Com o humor que a sabedoria da experiência traz, a poeta não se avexa: “Boa gente./ Queriam me salvar”. Ela percebe que salvar-se significa, na verdade, tornar-se o que se é, e não o que os outros — esses “cidadãos de bem” — querem impor.
No balanço da estrofe derradeira, os conflitos se concentram, e novamente o poema explora uma imagem do campo matemático, mas invertendo a lógica da equação: as perdas e danos se contabilizam como saldo positivo; os lucros, como algo negativo. O contexto sugere que aquilo que a menina moça recusou — sem se deixar cooptar pelo poder masculino e autoritário — constitui seu mais valioso acervo. Onde, pontualmente, compactuou com o famigerado sistema reside o que considera erros. Tal situação, em que se transita sutilmente da resistência à resiliência, produz um sentimento de falsidade, já que perda é acerto e lucro é erro. A poeta elabora uma conclusão que, aparentemente, destoa do que de sua poética tanto se diz: se é autobiográfica, como não ser sincera? O dito “eu lírico” nada mais é, contudo, do que uma máscara que o poeta cria a cada poema (qual um prosador cria seu narrador).
Em mais uma dobra, à maneira dos babados e barras dos vestidos de criança, este verso final — “Daí a falta de sinceridade nos meus versos” — sabe a máxima sinceridade, lembrando a célebre lição pessoana do poeta fingidor (que o texto de Solange Fiuza também aciona). O verso “balanceando a vida…” expressa bem essa indecidibilidade, que as reticências amplificam, haja vista que balancear incorpora os sentidos de [a] ir de um lado a outro (feito um balanço de brinquedo) mas também [b] equilibrar prós e contras (feito a conta de uma empresa). No poema de Cora Coralina, a vida é a rosiana “matéria vertente” de um intrincado balanço: lúdica, brinquedo que a memória reconstrói; escriturada, conta que se tenta entender.
Na poesia, “nos meus versos”, esse aparente paradoxo de conviverem sinceridade e mentira é algo trivial, nada contraditório. Tal como convivem Anna, Aninha e Cora Coralina: o saldo desse convívio — por vezes conflituoso — se vê em toda a obra dessas três pessoas, para sempre inseparáveis.