IV. Carta de Pero Vaz, de Murilo Mendes

Poema revela ironia modernista e desmonta o mito heroico do “descobrimento” do Brasil
O poeta Murilo Mendes
01/03/2026

A terra é mui graciosa,
Tão fértil eu nunca vi.
A gente vai passear,
No chão espeta um caniço,
No dia seguinte nasce
Bengala de castão de oiro.
Tem goiabas, melancias.
Banana que nem chuchu.
Quanto aos bichos, tem-nos muitos.
De plumagens mui vistosas.
Tem macaco até demais.
Diamantes tem à vontade,
Esmeralda é para os trouxas.
Reforçai, Senhor, a arca.
Cruzados não faltarão,
Vossa perna encanareis,
Salvo o devido respeito.
Ficarei muito saudoso
Se for embora d’aqui.

Murilo Mendes pertence a um quinteto modernista de peso na poesia: Bandeira, Drummond, Cabral, Cecília — e ele. Tendo estreado em 1930, com Poemas, já em 1932 dá a lume História do Brasil, livro que, com capa de Di Cavalcanti, o poeta vem a excluir da reunião de sua obra, em 1959, sob a alegação de que estas “poesias satíricas e humorísticas destoam da minha obra”. A maioria dos murilianos discorda dele. É certo que seus livros posteriores “mostram um abandono da dicção modernista e vão conformando um estilo pessoal, com predomínio de um tipo de analogia, harmonizador de dissonâncias, em que o cotidiano confronta-se com o sublime, produzindo uma atmosfera surreal para a renovação da herança católica, pelo caminho do erotismo”, como afirmam, com precisão, Eneida Maria de Souza e Marília Rothier Cardoso em Modernidade toda prosa.

Mas é certo também, com Luciana Stegagno Picchio, que na obra de 1932 “história e mitologia, tradição e folclore, realidade e fantasia se misturam e convergem (…) é história para ser lida com o sorriso com que o poeta a escreveu”. Tal sorriso, que vem desde o célebre primeiro poema do primeiro livro — Canção do exílio —, percorre os 19 heptassílabos brancos de Carta de Pero Vaz. Exceto nos versos 5 e 18, nos demais há pontuação (vírgula ou ponto final), exigindo uma pausa que, somada ao ritmo da redondilha maior, dá uma cadência harmoniosa à leitura. Ademais, a pausa induz o leitor a uma breve reflexão, verso a verso, em meio a aspectos estranhos e familiares.

O poema se traveste de uma determinada voz: a do escrivão da frota do “descobrimento do Brasil”, Pero Vaz de Caminha (“eu nunca vi”; “ficarei”). Essa máscara se elabora a partir da Carta enviada ao Rei de Portugal, que, para Alfredo Bosi, em História concisa da literatura brasileira, constitui-se em uma “autêntica certidão de nascimento”. Na Carta, se lê: “Águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem. Porém, o melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente”. Capital, esse trecho explicita um projeto colonizador, que quer semear, na terra e nas mentes dos indígenas, a ultramarina ideologia religiosa e mercantilista. Os versos de abertura — “A terra é mui graciosa,/ Tão fértil eu nunca vi.” — sabem de tal projeto e o denunciam sem reservas. O que vem a seguir é inventário da decantada graça e fertilidade, que, para os belicosos colonizadores, ali estão à disposição de quem lance mão.

No espírito iconoclástico e bem-humorado da primeira geração modernista, que chega aos Poemas de 1930 e se estende à História de 1932, as imagens se sucedem — surreais e irônicas: “A gente vai passear,/ No chão espeta um caniço,/ No dia seguinte nasce/ Bengala de castão de oiro”. O ato banal de passear e “plantar” (espetar) qualquer coisa insignificante (caniço) se transforma em algo surpreendente, haja vista que se gera do nada um objeto bem valioso. Na verdade, sem mágica alguma, o que se vê é a cobiça e expropriação de produtos preciosos — como o ouro/oiro —, levados para a metrópole portuguesa. Para manter certa lógica na metamorfose poética, caniço e bengala se assemelham no formato vertical.

Vegetais, animais e minerais são listados como luminosos objetos de desejo: goiabas, melancias, banana, chuchu, bichos, macaco, diamantes, esmeralda. A terra é tão pródiga e farta que o cronista solicita reforço na “arca”, nos navios que hão de levar tais riquezas. As frutas tropicais abundam, daí a expressão “que nem chuchu”: tudo é muito fácil, de graça. O sentimento de propriedade de que os invasores se investem se liga à perplexidade diante do exótico: há muitos animais nessa terra “virginal” e tantos se prestam à exibição (“plumagens mui vistosas”), mas o estrangeiro quer domesticar o não idêntico e teme o excesso, figurado em verso que pode estar — em 1932 — apontando para o preconceito em país que discutia o totalmente problemático conceito de democracia racial: “Tem macaco até demais”.

O cronista relata as riquezas abundantes da terra da qual, sem cerimônia, se apropriam e expropriam: “Diamantes tem à vontade,/ Esmeralda é para os trouxas”. O lucro fala mais alto. Para dar conta de tanto, Pero Vaz adverte, cínico: “Reforçai, Senhor, a arca”, e aqui “arca” designa tanto uma grande caixa para guardar tesouros, quanto remete, bíblico, à arca de Noé, e a ideia de salvação se reforça sutilmente, enquanto se amplia, metonímico, o sentido de arca, como quem diz: enviai, venturoso D. Manuel, muitos e muitos navios, pois o que há a explorar é imenso e tende ao infinito: de 1500 a 1822, Portugal “roupilhou” (para usar neologismo rosiano) centenas de toneladas de ouro, entre tantos outros produtos, o que equivale a centenas de bilhões de dólares.

Em artigo no Rascunho de novembro de 2014, Marcos Pasche diz que “História do Brasil é um conjunto de textos profundamente irônicos, inclinados a retirar a maquiagem dos discursos que fazem o ‘histórico’ rimar obrigatoriamente com ‘heroico’”. O poema confirma: blagues, piadas e boutades se acumulam, considerando que o poema, feito uma mise en abyme, justapõe a voz de um escrivão a serviço do poder colonizador (voz que vem “recortada” de um texto historiográfico fundador, datado de 1500) à voz de um poeta modernista da dita “segunda geração” (voz que herda o espírito alegre e mordaz de Oswald). No livro Pau-Brasil, de 1925, há a seção História do Brasil, com a qual o poema de Murilo dialoga abertamente. Na seção, há poemas que se subdividem. O oswaldiano poema Pero Vaz de Caminha se compõe de quatro partes: a descoberta, os selvagens, primeiro chá e as meninas da gare. Ambos — Oswald e Murilo — tomam a carta de Caminha como base para a feitura antropofágica de suas paródias.

A História de Murilo se inicia no “descobrimento”, atravessa séculos e chega ao seu tempo, na década de 1930. O tom contundentemente crítico da releitura do país se vê em todo o livro. Os dois versos de abertura do poema anterior a este em pauta, por exemplo, III. O farrista, são certeiros: “Quando o almirante Cabral/ Pôs as patas no Brasil (…)”, isto é, quando o representante de um então país poderoso e imperial aqui chega ele põe as patas, se intromete, indesejado, e se apropria do que não é dele. Tal tom está em toda a obra, e História do Brasil não destoa. Os versos finais de IV. Carta de Pero Vaz seguem na toada:

Cruzados não faltarão,
Vossa perna encanareis,
Salvo o devido respeito.
Ficarei muito saudoso
Se for embora d’aqui.

O cruzado era a moeda de ouro portuguesa da época de D. Manuel I, cujo reverso trazia exatamente uma cruz, em apoio às cruzadas contra os otomanos. Fé, lucro e exploração do outro se imiscuem. A sequência — “Vossa perna encanareis” —é comentada por Fernando Triques em sua dissertação Desleituras de História do Brasil (1932), de Murilo Mendes (UFSCar, 2016): “‘encanar a perna’ é uma expressão popular e se aplica nos casos em que alguém protela a execução de uma tarefa geralmente difícil (…) e pode representar também o consequente imobilismo na postergação de tarefas”. Se tal comentário insinua que urge que o “Senhor” não protele as ações (reforçar a arca etc.), o contexto permite também supor de modo mais objetivo que, sendo o cruzado de ouro, o poeta Murilo se vale da voz do escrivão para aconselhar ao Rei uma espécie de prótese (“Vossa perna encanareis”). Tamanha ousadia se reconhece no verso que arremata a sequência: “Salvo o devido respeito” (respeito que não é um aspecto notável do missivista, e por isso mesmo vem depois de dado o conselho).

Os dois versos finais — “Ficarei muito saudoso/ Se for embora d’aqui” — soam como um pedido, repetindo estratégia da Carta ao Rei, quando Caminha solicita a D. Manuel I o perdão ao genro então exilado (por ter cometido crimes): “Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que d’Ela receberei em muita mercê”. O escrivão declara desejo de permanência na terra paradisíaca. Porta-voz de tantas notícias boas para o Reino, o favor que requer é apenas se perpetuar na terra graciosa e fértil, e assim ajudar na missão catequética de “salvar esta gente”.

Como a história já mostrou, e a História do Brasil de Murilo Mendes ratifica, a aparente boa ação de “salvar” evidentemente é um pretexto para a imposição de valores a “semear”. O indígena era tido como uma tabula rasa, sem alma, sem cultura, sem Fé nem Lei nem Rei, e Portugal chegava ali para “exterminar” essa situação, impondo aos indígenas sua própria cultura em gesto de poder eurocêntrico. A resistência — do indígena, do escravizado —será vigiada e punida a ferro e fogo, pelos séculos seguintes. O que Caminha e Portugal sempre quiseram — e assim são todos os imperialistas: de outrora e agora — era salvar a si mesmos.

Ao longo dos 60 poemas, Murilo Mendes, seguindo a mesma toada de humor crítico de IV. Carta de Pero Vaz, fala de Caramuru, Anchieta, Pombal, Tiradentes, Aleijadinho, Frei Caneca, Pedro II, Deodoro, Antônio Conselheiro, João Cândido, Prestes. No menor dos poemas do livro, sua verve satírica se condensa num murilograma ao país: LVI. Homo brasiliensis: “O homem/ é o único animal que joga no bicho”. É preciso, repetindo a frase da amiga Luciana e recordando Sísifo, ler e imaginar a História de Murilo “com o sorriso com que o poeta a escreveu”. Poucas obras são tão graciosas e férteis.

Wilberth Salgueiro

Poeta, crítico literário, pesquisador do CNPq e professor de literatura brasileira na UFES. Autor de A primazia do poema, Lira à brasileira: erótica, poética e política, O jogo, Micha & outros sonetos, entre outros.

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