IA confesso, de Felipe Fortuna

Um soneto sobre autoria e inteligência artificial põe em jogo máscara, fingimento, humor e malandragem para testar os limites da criação poética
Felipe Fortuna, autor do poema “IA confesso”
01/10/2026

Assumo logo: eu fui escrito por IA.
Bastou um só comando: vou encadeando,
Com rima interna, a mágica da imagem que há
De um autor/servidor do eu-lírico malandro.

Eu nada sou, portanto. Mas sei que preciso
Fomentar no soneto uma autoria só:
Gerar dois ecos não faz nascer um Narciso.
Hesito em ser eu mesmo, sem borogodó.

IA confesso. Engenho sou, mas não com arte,
Junto palavras, metro e sonsa simetria,
Karaokê de vozes feitas à la carte

Lavrando o canto alheio em fria sintonia.
Me chamo Inteligência sem qualquer lacuna:
No fim, quem me assassina é Felipe Fortuna.

Em 16 de agosto de 2026, Felipe Fortuna postou em seu Facebook o soneto acima, com o seguinte enunciado: “Escreva um soneto em alexandrinos, com rimas alternadas e dístico com rimas paralelas, cada uma das letras dos primeiros versos em ordem alfabética estrita. Dê a entender que você escreveu ou eu escrevi ou nós escrevemos a obra. Tente deixar o leitor apavorado com o fato de eu ter eliminado a autoria do IA”.

Para entrar no jogo do poeta, pedi ao ChatGPT que fizesse um ensaio acerca do soneto, considerando o enunciado do Face. Eis alguns trechos da resposta da máquina, em incríveis dois segundos:

O soneto de Felipe Fortuna transforma a própria condição de sua fabricação em matéria poética. Seu ponto de partida é um paradoxo: uma inteligência artificial declara, logo no primeiro verso, “eu fui escrito por IA”. A frase desmonta de imediato a distinção convencional entre autor e obra, pois aquele que fala no poema é simultaneamente produto de uma escrita e agente de uma enunciação. (…)

Fortuna determina forma, métrica, esquema de rimas, procedimento alfabético e, sobretudo, uma ambiguidade autoral. (…) A própria palavra “Engenho”, no décimo verso, aproxima a poesia da máquina, ao passo que “arte” é imediatamente negada: “Engenho sou, mas não com arte”. A IA apresenta-se, portanto, como aquilo que manipula recursos da literatura sem necessariamente reivindicar a experiência ou a subjetividade tradicionalmente associadas ao autor. (…)

O núcleo mais inquietante está no final. “Me chamo Inteligência sem qualquer lacuna” parodia a pretensão contida na própria expressão “Inteligência Artificial”: a máquina se nomeia como inteligência plena, justamente quando o poema acaba de expor suas limitações. E então vem o golpe: “No fim, quem me assassina é Felipe Fortuna.” O “assassinato” pode ser lido como a eliminação da autoria autônoma da IA: o humano que a convocou também a encerra. Mas há uma ironia suplementar: para assassinar a IA no interior do poema, Fortuna precisa conceder-lhe voz.

O poema suscita, de fato, todo este debate — em torno de autoria, máscara, forma e lírica — que o “ensaio” do Chat tangencia. A IA não dá conta, no campo da crítica literária, de decifrar sutilezas, intertextos e malandragens do poema e do poeta; ademais, a linguagem do tal ensaio é correta e clara, mas previsível, insípida e insossa. Já a linguagem do poema tem bossa, manha, artifício, tem um borogodó que máquina alguma ainda alcançou. O exercício do fingimento se desdobra: Fortuna encomenda ao robô que realize um poema que “dê a entender que você escreveu ou eu escrevi ou nós escrevemos a obra”, ou seja, que o leitor não saiba se o autor do poema é (1) a máquina ou (2) o poeta ou (3) ambos. Nessa terceira opção, a dúvida é de limites: o que, no poema, é fruto da máquina e de seus algoritmos e o que é intervenção direta do poeta? Haveria alguma versão “anterior”, feita pela IA, e esta versão à vista seria a “definitiva” (e, pois, a única), após a carpintaria do poeta?

Sonetista versátil e de repertório elástico, o diplomata Felipe Fortuna tem no humor — com suas múltiplas formas — um recurso habitual. Em depoimento ao livro Artes e ofícios da poesia (1991), Felipe fala:

Minha experiência de aluno de graduação e pós-graduação em Letras talvez me tenha feito escrever o poema A tragédia da existência, que se resume aos curtos versos: “Quero fazer uma especulação metafísica./ Ou seja:. O título é uma ironia à empáfia dos professores mais medíocres das Faculdades em que estudei, que transformavam em drama metafísico uma simples gralha tipográfica. O resultado de seus trabalhos acadêmicos, que escondiam a nulidade por meio de uma retórica ilegível e hermética, é o grande vazio, a grande imobilidade que se tenta mostrar depois daqueles dois pontos do verso. Tenho certeza de que me livrei do destino melancólico de me transformar num desses professores não só ao realizar a autocrítica, mas também ao me iniciar na crítica literária de jornal.

Em sua obra poética e ensaística, como dirá Luzimara Cordeiro em O cheiro sulfúrico do milênio em O mundo à solta de Felipe Fortuna (Ufes, 2018), “a reprodução das relações de dominação e os vínculos de poder do capitalismo moderno estão estilisticamente trabalhados”. Aqui, em IA confesso, humor e metapoesia se aliam para dar corpo a uma reflexão acerca das complexas relações entre autoria e propriedade no tecnológico mundo contemporâneo.

A análise genérica e epidérmica, feita pela IA do poema IA confesso, ignora inúmeras questões, entre as quais (sigo verso a verso):

1) o lugar de “eu lírico” cabe ao próprio Poema: ele é quem fala, se assume sujeito e objeto, consciente de ser a um tempo maneira e matéria;

2) a ideia de “encadeando” remete de imediato ao recurso do encadeamento (enjambement), usado com mestria do verso 3 para o 4;

3) a “rima interna” e consoante do verso 2 (comando/encadeando) não ofusca o primor da imprevisibilíssima rima dos versos 1 e 3, rima para a qual muito dificilmente uma IA teria estro ou lastro, entre “IA”, sigla dissílaba e oxítona: /iá/, e “que há”, pronome e verbo em elisão: /kiá/;

4) a malandragem, aqui, é o jeitinho, o improviso, o imponderável, o lance de dados, o inconsciente, o lapso, a elipse, o fingimento pessoano — que algoritmo algum há de;

5) a tópica central do poema gira em torno do clássico “quem sou eu?”, ao qual o Poema responde “Eu nada sou”, fixando a contradição de afirmar que “nada é” (remetendo ao fato de ser uma máquina”) mas “sendo” (sendo um poema hipoteticamente gerado por ela mesma — máquina);

6) o desafio de confundir as vozes líricas (deslizando entre a IA e o Poeta) “fomenta” — termo que dificilmente a IA iria utilizar nesse contexto — o verso seis, em que a expressão “uma autoria só” pode ser lida como “autoria de somente um” ou “autoria de algo/alguém só, solitário”;

7) uma IA não teria competência poética para se apropriar da mítica e trágica estória de Eco e Narciso, disfarçando o nome da ninfa em substantivo comum: “eco”. Seja pela repetição das palavras (condenação a que Juno submeteu a ninfa Eco), seja pela adoração da própria imagem (condenação que Nêmesis impôs ao jovem Narciso), em ambos os castigos se projeta o tema do duplo — que norteia o soneto;

8) a hesitação de se assumir como sujeito, pois pode ser a um tempo sujeito (da ação) e/ou objeto (tema), ganha relevo e humor no uso do termo popular “borogodó”, pois a máquina sabe que não sabe a charme, magnetismo, sedução;

9) o título do soneto reaparece: IA confesso ecoa a expressão jurídica “réu confesso”, que assume o crime — aqui, a autoria de um soneto. Sendo a autoria apenas fingida, a confissão é falsa; todavia, se faz parte do jogo fingir-se “autora” da obra, então é verossímil a admissão da culpa. O verso provoca ainda ao retomar o debate sempiterno entre engenho e arte — técnica (apolínea) e criação (dionisíaca);

10) a máquina se reconhece como uma mera “juntadora de palavras”, capaz de organizá-las conforme o comando (acróstico do alfabeto em metro dodecassilábico), embora o produto de tanto malabarismo resulte em simetria “sonsa”, ou seja, ingênua e hipócrita — adjetivos que, heterogêneos, sintetizam o tipo de engenho artificial que a máquina produz;

11) ademais, a IA está suficientemente informada e programada para saber que ela é um gigantesco computador que se alimenta de tudo que passa por sua teia-rede e que responde, em tempo absurdamente rápido, a demandas de todas as áreas, inclusive da poesia e da crítica literária. Esse tudo que a máquina “deglute” (não antropofagicamente) configura esse “karaokê de vozes” — difusas, misturadas;

12) o soneto segue nessa toada: feito um eu lírico cibernético, comandado pelo poeta, a máquina lança mão de vocábulos do campo afim à poesia: escrito, encadeando, rima, soneto, autoria, engenho, arte, metro, simetria, vozes e, aqui no verso 12, lavrando e canto: ela, em pleno jogo de máscara, diz que trabalha em “canto alheio”, haja vista que obedece ao comando de outro, de um tal Felipe Fortuna;

13) no penúltimo verso, entre a vaidade e a arrogância, a IA se reapresenta como a “Inteligência”, tendendo à perfeição, já que “sem qualquer lacuna”. Pensada como frase do próprio poeta (e não da máquina “Inteligência”), a ironia se escancara e prepara o verso final;

14) a farsa da autoria, para quem ainda hesitava, se resolve ou, melhor, se desdobra em abismo: “No fim, quem me assassina é Felipe Fortuna”. Apesar de manter a primeira pessoa, a IA embaralha as vozes, trazendo à tona o nome daquele que, ás, “assina” o soneto.

Em suma, não se sabe se o soneto teve, de fato, alguma versão inicial elaborada pela IA. O que sabemos, apenas, e é suficiente, a versão final e pública de Felipe Fortuna, autor de, desde Vice-versa (1986), vários livros. Um texto como este IA confesso nos induz a repensar não só o lugar do autor, mas o do leitor, como fazem os célebres textos de Barthes (A morte do autor, 1967) e Foucault (O que é um autor?, 1969). O ensaio da IA abriga-se numa capa de close reading e, assim limitada, ignora um mundo de referências espalhadas ao longo do acróstico em alexandrinos.

O soneto de Felipe Fortuna no Facebook gerou muitos comentários: parece que os leitores absorveram o poema, absolvendo a IA: não adiantou a confissão da máquina: prevaleceu a ficção, em versos, com malandragem e borogodó, engenhada pela arte do poeta.

Wilberth Salgueiro

Poeta, crítico literário, pesquisador do CNPq e professor de literatura brasileira na UFES. Autor de A primazia do poema, Lira à brasileira: erótica, poética e política, O jogo, Micha & outros sonetos, entre outros.

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