O poema acima se lê e se vê em Poememes, de Marcelo Mourão, publicado em 2021. O mundo tentava sobreviver à pandemia de Covid, e o Brasil ao governo de extrema direita de então. A poesia, desde o golpe em 2016 contra Dilma Rousseff, que levou o decorativo e traiçoeiro vice Temer ao poder, reinventou forças e formas na resistência contra autoritarismos, obscurantismos, negacionismos, violências em múltiplas manifestações materiais e simbólicas — tudo isso o poema sintetiza no termo “fascismo”.
O itálico nos três versos iniciais — “A cadela do fascismo/ está sempre/ no cio” — nos recorda que se trata de citação da “célebre frase cunhada por Bertold Brecht”, como adverte o próprio poeta nos Créditos do volume. Tal frase se encontra ao final da peça A resistível ascensão de Arturo Ui (1941) do dramaturgo alemão e ganhou guarida para além da Segunda Guerra Mundial, sendo redimensionada a cada contexto histórico. Há outras traduções da frase, como “o ventre da besta está sempre fértil”, mas esta, “célebre”, parece ter encontrado na língua portuguesa um isomorfismo de som e sentido com a profusão do sibilante fonema /s/ (sc-s-s-s-c) e a rima entre “fascismo” e “cio” (e mais ainda: como se, encenando o teor da frase, o “cio” viesse de dentro do próprio “fascismo”).
Marcelo Mourão percebe a intensidade estética da contundente frase e, não só a fraciona em três versos, faz dela a base rítmica e rímica do poema:
A cadela do fascismo
está sempre
no cio.
Depois que ela começa
a transar livremente,
o problema é fazê-la
parar de parir
tantos filhos.
A escansão métrica nos indica quantas sílabas há em cada um dos oito versos: 7-3-2-6-6-6-5-3. Ou seja, a frase de Brecht, recortada, constitui como que um terceto (acoplado ao todo, contudo) com o metro descendo (7-3-2); tal movimento se repete nos cinco versos seguintes (6-6-6-5-3), indicando que o comentário segue o modelo. De modo semelhante, na frase do alemão transformada em verso as rimas se fazem em i-e-i, vogais que se repetem nos cinco versos vindouros: e-e-e-i-i. Além das assonâncias e das rimas, e além da aliteração em /s/ do terceto inicial, registrem-se as repetições em /p/ e em /f/ (problema, parar, parir; fazê-la, filhos). Essa fricção entre sons e sentidos já está no título — fardo árduo —, em que há quase um trava-línguas na leitura “árdua” dos vocábulos que, praticamente, se espelham.
Com isso, o que se quer ressaltar é o diálogo estreito que, por óbvio, o poema elabora com o texto do dramaturgo. Se, na peça, a frase tem uma função —bem no espírito do também célebre método brechtiano de distanciamento — anticatártica de acentuar que, mesmo vencido, o inimigo continua à espreita, no poema paira um espírito à brasileira, com algum humor que tenta dobrar a indefectível melancolia com que a podridão do poder (travestido de poder político, capitalista e quejandos) contamina os homens.
Tal humor o Prefácio de Luciana Barreto aponta com precisão em Poememes, em que desfilam “sagazes e bem-humorados constructos gráficos”, “humor com inteligência, ironia com malícia”, um humor que se ajusta “ao propósito da mensagem rápida, da comunicação imediata e sintética”. E Marcelo Mourão entende bem desse bordado, que costura humor, poesia e política: sob a capa do ensaísta Marcelo José Ribeiro Vieira, escreveu e defendeu a dissertação Poesia verbalista urbana: poética e política no Rio de Janeiro dos anos 1980, no ano de 2020, e, em 2024, a tese Quem não se comunica se trumbica: o poder comunicacional da poética brasileira dos anos 1970/80, ambas na Uerj e ambas sob a orientação luxuosa de Leonardo Davino. Na tese, Marcelo teve a gentileza de citar um trecho em que abordo o humor (na tese que, por sua vez, defendi em 1996 na UFRJ, tornada livro em 2002 pela Edufes: Forças & formas: aspectos da poesia brasileira contemporânea – dos anos 70 aos 90):
Enfim, seja através da deslavada gaiatice de Chacal, do feeling corrosivo de Cacaso, da feroz elegância de Ana Cristina, da disfarçada erudição de Leminski ou de inúmeras outras formas de ganhar o leitor, importa ressaltar que a presença do humor espalhou-se por praticamente todo o leque de temas e assuntos dos anos 1970, desde a crítica social ao narcisismo solipsista, da dicção erótica aos exemplos metapoéticos, das autodefinições de marginal às descrições do cotidiano mais trivial. De fato, diante das intempéries, fazer poesia com pitadas de humor demonstrou-se uma bela arma contra as bélicas armadilhas.
O trecho acima quer, na verdade, destacar a permanência da força do humor na poesia pós-marginal e contemporânea. Nem tanto em fardo árduo, mas no conjunto de Poememes (e já nos livros anteriores) a verve de Marcelo “vai encaixando temas variados que vão do sexo às dúvidas sobre a vida, da liberdade aos regimes ditatoriais, da natureza à politicagem, do caos à euforia e dela às pedras do caminho, sem contar as intertextualidades que estão em toda parte”, como afirma, certeiro, Joaquim Branco na Apresentação. O poeta-ensaísta de Cataguases destaca alguns poemas de Mourão, como InsPiração (“olho/ no kama sutra/ corpo/ na cama surta”) e Duelo (“minha meta hoje/ eu até prevejo/ é a mesma de sempre:/ não criar confusão comigo mesmo”). Sendo todos os poemas pensados no trânsito entre palavra e imagem, ler o poema sem vê-lo resulta em um gesto de “poemicídio” — e fica desde já o convite para que o leitor conheça o livro integralmente em sua versão impressa ou digital.
Se o conceito de “meme” desfruta já de uma vasta bibliografia, desde a sua “criação” em 1976 pelo biólogo Richard Dawkins, no livro O gene egoísta (e vale conferir o uso que dele faz Arnaldo Antunes no poema Eutro, do livro n.d.a., 2010, e a análise cirúrgica que Douglas Salomão faz do poema na tese A soma incerta do que somos: estudo da poesia visual de Arnaldo Antunes à luz do poema “cromossomos”, 2015, Ufes), o conceito de “poememe” é deveras original, ao juntar, feito uma palavra-valise, dois termos conhecidos, densos, complexos, amplamente debatidos, que escapam a qualquer consenso. Decerto, a noção maior que Marcelo explora é a ideia de meme de internet, que é uma forma em geral com humor (em sentido lato) que se cria e se espalha (às vezes, viraliza) pelas redes sociais entrecruzando textos, falas, imagens, GIFs, vídeos e afins. Na história da arte, e da poesia em particular, o aspecto visual sempre teve uma importância fundamental, desde O ovo, do grego Símias de Rodes (século 3 a. C.) até a Poesia Concreta brasileira dos anos 1950 em diante. Os poememes de Marcelo Mourão se vinculam a essa ancestral tradição, que se renova sem cessar. O novo ainda é — a despeito do suposto fracasso da utopia vanguardista — o fetiche do artista.
Os versos do poema em pauta já impactam. Quando lidos & vistos, a experiência se amplia. No livro, o poema ocupa quase que todo o miolo da página (similar a uma tela de celular, tablet, notebook). A cor vermelha contrasta de imediato com a cor preta. Aqui, o vermelho parece simbolizar a resistência ao fascismo — resistência que se vê emparedada por um retângulo, qual um túmulo, e por uma cerca de arame farpado, pretos; acima, novamente em vermelho, o título — qual um epitáfio? O humor com inteligência e a ironia com malícia, de que fala Luciana Barreto, se desdobram: a triste e mórbida imagem do arame — que no contexto pode remeter a prisões, torturas e aos campos de extermínio — funciona como uma espécie de mise en abîme poético, haja vista que (a) é conhecida a expressão “fardo de arame”, parcialmente antecipada no título-epitáfio, mas também se sabe que (b) a palavra fascismo vem do italiano “fascio” — feixe!
Assim, o fardo árduo se multiplica: se o fardo maior, o “problema” mais árduo é estancar o cio da cadela e impedi-la de “parir/ tantos filhos”, o fato é que há um “feixe” de condições que permitem, sim, que a cadela, a besta, o monstro do fascismo se reproduzam. Este filosofema está explicitado em Educação após Auschwitz (1965), de Theodor Adorno: “a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que têm de fundamental as condições que geram esta regressão”. É também de Adorno, em parceria com outros pesquisadores, a elaboração da “Escala F” — F, de fascismo, que serviria para medir a “personalidade autoritária”, a partir de nove categorias: convencionalismo; submissão autoritária; agressividade autoritária; antissubjetividade; superstição e estereotipia; poder e “dureza/rigidez”; destruição e cinismo; projeção; e obsessão com sexo e sexualidade. (Para o entendimento de tais categorias, ver a tese Jornalismo como antifilosofia e a formação de indivíduos potencialmente fascistas na sociedade excitada: um estudo dos comentários sobre o Golpe de 2016 em Veja e Carta Capital, de Emerson Campos, 2020, Ufes).
O poememe de Marcelo Mourão é de 2021 e, sem dúvida, a truculência selvagem do então presidente (em março de 2026, preso na Papudinha, condenado por tentar um golpe para se manter no poder) estava no “ar do tempo” que, feito uma poeira, se assentou na sensibilidade crítica, ética, política do poeta. Marcelo partiu da frase de Brecht, inserida em contexto de guerra mundial, para pensar também a guerra brasileira. Nesse caso, a metáfora da cadela parindo tantos filhos ganha uma literalidade impressionantemente perigosa. Hoje, enquanto um presidente estadunidense se acha o dono do mundo (e invade, sequestra, mata à vista de todos), um dos filhos do golpista preso se candidata à presidência do nosso país.
De fato, poeta, o fardo é árduo, bem árduo, com “tantos filhos” fascistas soltos por aí. Lutar contra a cadela do fascismo não é fácil. Poemas como este ajudam a fortalecer a coleira, para que ela não se rompa, e essa cadela — ela, sim —reste esquecida e presa num canil cercado por um pesado fardo de arame farpado.