Ser invisível quando não se quer ser
é ser mágico nato.
Não se ensina, não se pratica, mas se aprende.
No primeiro dia de aula aprende-se
que é uma ciência exata.
O invisível exercita o ser “zero à esquerda”
o invisível não exercita a cidadania.
As aulas de emprego, casa e comida
são excluídas do currículo da vida.
Ser invisível quando não se quer ser
é ser um fantasma que não assusta ninguém.
Quando se é invisível sem querer
ninguém conta até dez
ninguém tapa ou fecha os olhos
a brincadeira agora é outra
os outros brincam de não nos ver.
Saiba que nos tornamos invisíveis
sem truques, sem mágicas.
Ser invisível é uma ciência exata.
Mas o invisível é visto no mundo financeiro
é visto para apanhar da polícia
é visto na época das eleições
é visto para acertar as contas com o Leão
para pagar prestações e mais prestações.
É tanto zero à esquerda que o invisível
na levada da vida soma-se
a outros tantos zeros à esquerda
para assim construir-se humano.
As seis estrofes desse poema de Esmeralda Ribeiro parecem desenhar a trajetória de um grande grupo reunido sob o nome de “invisível”: (1) de imediato, fala-se de uma certa condição de pertencimento que é imposta desde sempre, daí o “nato”; (2) essa condição é entendida como explícita, sem ambivalência, rotineira, por isso a imagem de “ciência exata”; (3) as pessoas invisíveis sobrevivem em meio à marginalidade e ao desprezo, conforme a expressão “zero à esquerda”; (4) diante de tal quadro, as demais pessoas adotam uma hipócrita postura de naturalização da invisibilidade do grupo marginalizado — “brincam”; (5) tal hipocrisia é suspensa, contudo, quando interessa explorar o outrora invisível, tornado concreto para “apanhar da polícia”; (6) apesar da precariedade da condição (de) invisível, o poema aposta na transformação pelo coletivo, quando os desprezados se unirem, “na levada da vida”. É como se cada estrofe concentrasse um ensinamento, uma lição que, a despeito da situação revoltante, há de resultar em algo maior, até então negado aos invisíveis: a própria humanidade.
O tom de todo o poema poderia ser confundido com resiliência e conformismo, mas na verdade é da ordem da ironia e da denúncia. A difícil e doída rotina de ser (quase) incessantemente invisível se incorpora aos versos a partir de variadas formas de repetição, feito um mantra aos ouvidos dos invisíveis: o primeiro verso — “Ser invisível quando não se quer ser” — já traz reiterado o verbo estruturante do poema, que se estende ao verso seguinte do dístico: “é ser mágico nato”. (“Ser” e “é”, juntos, somam 17 ocorrências.) O termo-conceito “invisível” aparece ao todo nove vezes, afora as ocorrências de “ver” e “visto” (este, quatro vezes). Na segunda estrofe, repetem-se as estruturas “Não se ensina, não se pratica” e “se aprende/ aprende-se”. A metáfora da “ciência exata” retorna na estrofe cinco, enquanto a expressão “zero à esquerda” aparece em três momentos. A figura de linguagem típica da repetição, a anáfora, se faz ver em “O invisível/ o invisível”, “ninguém/ ninguém”, “é visto/ é visto/ é visto”. O conjunto dessas e outras reiterações promove no corpo do poema um movimento que é, a um tempo, o da repetição da rotina da invisibilidade e o tom da experiência professoral de quem — tendo vivido na pele o que a máscara do eu lírico expressa — sabe do que fala.
Não surpreende, pois, que, definido o “ser invisível”, no verso final da estrofe quatro se revele a voz — particular — que vem se juntar ao universal: “os outros brincam de não NOS ver”, voz logo reafirmada no verso primeiro da estrofe seguinte: “Saiba que NOS tornamos invisíveis”. A primeira pessoa do plural (nós) liga a poeta ao coletivo, a ele se irmanando. Embora o coletivo dos invisíveis seja imenso (miseráveis, mendigos, velhos e tantos outros), não há como relevar o fato de a autora de Ensinamentos, Esmeralda Gabriel, ser uma das principais ativistas e estudiosas do movimento negro no Brasil: jornalista, escritora, integrante do Quilombhoje e coordenadora do Cadernos Negros, com intensa atuação em múltiplas frentes que pensam as articulações entre raça, gênero e classe. (Para entender essa atuação, ver a excelente tese de Maria Clara Martins Cavalcanti, defendida em 2025 na UERJ, com o título Eco literário ressoando na História: Esmeralda Ribeiro, escritas e encruzilhadas). O poema — este poema — não especifica que os ensinamentos são dirigidos aos negros, mas sim aos invisíveis, um coletivo que, dado o contexto, inclui numerosos contingentes de oprimidos e subalternizados como, além dos negros, as mulheres, os indígenas, as crianças, a comunidade LGBT+ e tantos mais.
Porque o invisível não é o que não se vê, haja vista que está bem — ou mal — ao nosso lado, mas aquele que se ignora, se explora, se humilha. Lélia Gonzalez, em Racismo por omissão, publicado na Folha de S. Paulo em 13/08/1983, faz uma severa crítica a um programa de TV do Partido dos Trabalhadores (PT, ao qual pertencia; três anos depois, se filiou ao PDT): “No registro que o Brasil tem de si mesmo o negro tende à condição de invisibilidade. Para não fugir à regra, o PT na TV não deixou por menos: tratou dos mais graves problemas do País, exceto um, que foi ‘esquecido’, ‘tirado de cena’, ‘invisibilizado’, recalcado. É a isto, justamente, que se chama de racismo por omissão”. Há décadas, Esmeralda Ribeiro não se omite: ela se engaja em atividades políticas, participa de eventos e elabora uma obra múltipla a partir da qual se posiciona frente a problemas afins a estes do poema. Publicou alguns livros, mas nenhum ainda de poemas — esparsos aqui e ali. Ensinamentos, por exemplo, saiu em 2008 no volume nº 31, Poemas afro-brasileiros, de Cadernos Negros — um marco, desde 1978, da luta preta no Brasil.
Na estrofe cinco, todavia, o invisível aparece: “Mas o invisível é visto no mundo financeiro/ é visto para apanhar da polícia/ é visto na época das eleições/ é visto para acertar as contas com o Leão/ para pagar prestações e mais prestações”. Em paralelo à indiferença e mesmo ao desprezo, quando oportuno certos invisíveis ganham concretude, corpo, retornam magicamente ao status de objeto de violência e de interesse (da polícia, dos políticos e do Estado). Nessa direção, coincidem dois dos estudos mais importantes acerca da obra de Esmeralda Ribeiro: “Os sujeitos invisíveis são vistos somente como engrenagem do sistema de opressão, não desfrutam de nenhum estatuto humano, são relegados aos números, sem rosto e sem voz”, diz Mariana Barbosa em sua dissertação O periférico é um centro: a contribuição da poesia negra para a perspectiva decolonial, defendida na UFPE em 2020; na já citada tese da UERJ, Maria Cavalcanti afirma que, em Ensinamentos, “o par visibilidade/invisibilidade é mobilizado para elaborar uma crítica social: os ‘invisíveis’ parecem se referir a um grupo marginalizado que, excluído quando se trata de direitos e cidadania, se converte visível no exato momento em que há a possibilidade de ser explorado pelo sistema capitalista e/ou se tornar alvo de violência”. Negros, pobres, velhos, mulheres, os (in)visíveis suportam o sistema que os classifica como “zeros à esquerda”, como sujeitos irrelevantes e sem valor.
Todo o poema cifra signos do impasse — que é existir, sobreviver, ser feliz e manter-se dialeticamente consciente dessa problemática existência. Em sua epiderme, o poema parece a descrição conformada de um estado historicamente naturalizado de submissão e alienação. Lido com atenção (“Saiba”, alerta-se ao leitor), camadas de denúncia se multiplicam, a partir de uma ironia que não diz o contrário do que afirma: antes, ilumina, às escâncaras. O primeiro verso da estrofe três é exemplar: “O invisível exercita o ser ‘zero à esquerda’”: enquanto se afirma, literalmente, a própria irrelevância, o verso com muita sutileza “exercita” o ofício sonoro da poesia, quando, num alexandrino perfeito, mescla (a) uma sequência do fonema /z/, com vogais distintas: inviSível, eXercita, Zero; e (b) outra sequência do fonema /s/ nas palavras: exerCita, Ser, eSquerda. Quem quer que seja esse “invisível”, na contramão do estado de invisibilidade, o exercício poético, como forma de resistência, é bastante evidente, original e valoroso.
Por sua vez, o singelo sintagma “na levada da vida” evidencia manhas do poema e da poeta: o sentido da expressão diz que o lance possível é seguir o fluxo, adaptar-se, dançar conforme a música, mas nela mesma, a música, com seus ritmos, pode estar o lance da novidade, da reinvenção, pensando que em “na levada da vida”, além das encantatórias sequências sonoras de vogais e consoantes (em 14 letras, há 5a, 3d e 2v), tem a ambivalência de “levada” como substantivo (“movimento”) e adjetivo (“danada”).
Resta, por fim, rever o termo derradeiro e audacioso: “É tanto zero à esquerda que o invisível/ na levada da vida soma-se/ a outros tantos zeros à esquerda/ para assim construir-se humano”. Da primeira à última estrofe, testemunhamos um trajeto, por meio de ensinamentos, que vai do invisível ao humano, ou seja, o poema denuncia que o chamado “invisível” — demasiadamente humano — não é, contudo, considerado humano pelos demais humanos, “visíveis”. Assim, escutar e ler em “humano” “um mano”, considerando o sentido consolidado, desde décadas, de “mano” como um(a) camarada que compartilha ideais de resistência ao racismo e à exclusão, pode ser o derradeiro e (de)cifrado ensinamento do poema.
Apesar do belíssimo nome e da trajetória em tantas frentes, Esmeralda Ribeiro não tem brilhado nos estudos literários: sua obra tem sido ainda um pequeno rio, vereda que não se descobriu. Como disse Antoine Compagnon, em O demônio da teoria, “a originalidade, a riqueza, a complexidade podem ser exigidas também do ponto de vista semântico, e não apenas formal. A tensão entre sentido e forma torna-se então o critério dos critérios”. Nessa tensão o poema se equilibra: do “invisível” ao “humano” e ao “um mano”. Vamos de mãos dadas, o poema de Esmeralda, maneira, nos convida.