Concluindo a abordagem dos campos de sentido mais relevantes do poema O operário em construção, de Vinicius de Moraes: 6) A traição de classe: a 8ª e 9ª estrofes mostram a traição do oprimido pelo oprimido: o operário, já consciente de sua condição, firme em sua decisão de dizer “Não!” à exploração, é denunciado e agredido por outros operários, bajuladores do patrão: “Como era de se esperar/ As bocas da delação/ Começaram a dizer coisas/ Aos ouvidos do patrão./ Mas o patrão não queria/ Nenhuma preocupação/ — ‘Convençam-no’ do contrário —/ Disse ele sobre o operário/ E ao dizer isso sorria.// Dia seguinte, o operário/ Ao sair da construção/ Viu-se súbito cercado/ Dos homens da delação/ E sofreu, por destinado/ Sua primeira agressão./ Teve seu rosto cuspido/ Teve seu braço quebrado/ Mas quando foi perguntado/ O operário disse: Não!”. 7) O caráter trans-histórico da consciência de classe: o protagonista do poema, por fim, no desfecho da 14ª estrofe, já se encontra edificado, ou seja, de “operário em construção” tornou-se “operário construído”. E é movido pelo entendimento de que a consciência de classe não pode se limitar a uma etapa específica da História, não pode ser transitória, mas trans-histórica: “E o operário ouviu a voz/ De todos os seus irmãos/ Os seus irmãos que morreram/ Por outros que viverão”. No caso, “ouvir a voz” remete a “compreender”, “acolher” — caminhar junto com os seus iguais de classe.