Um conto como O sorriso de brinquedo, do cearense Carlos Gildemar Pontes, situa-se plenamente na “escola da literatura da violência”, cujas características, como apontou Marcelo Coelho, são: a) brutalidade ou “realismo mais cru, mais puro e duro”; b) narrativas situadas em espaço urbano; c) narrativas que não sentimentalizam a vida dos despossuídos; e d) narrativas bastante “frias e cínicas”. Vejamos o conto, que é breve: “Os mendigos assaltaram o depósito do lixão. Puseram nos sacos sobejos de valor. Foram pelas ladeiras alegres, mas sem abrir a boca, o vento era frio e os dentes de sorrir doíam. Lá nos viadutos fizeram a partilha. Quero a boneca pra minha neta. Que nada, ela é minha! Sem conversa o chefe saltou sobre o da boneca e dividiu sua cara ao meio com uma giletada. O sangue quente nos dentes… Todos sacaram suas giletes e retocaram uns aos outros. O velho barrigudo segurava a torneira da jugular. A netinha aproveitou para tomar a boneca e correr, os cabelos espetando o vento, um olho aberto e outro fechado, o sorriso de brinquedo. Sãs e salvas, as duas moram no sinal. A boneca, olho fechado, olho aberto, mão estendida recebe as moedas. O sujeito do outro lado da rua tem planos para a menina”. O conto integra a coletânea Contos cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea (Geração Editorial, 2006).