(…) entender é a menor de todas as coisas/
a que menos importa (…)
Pego carona no primeiro poema do livro me enterre na terra fresca, de Paula Poc. Estou com um pequeno grupo de pessoas que se dirige para um passeio à cachoeira. É o programa do dia, e os amigos são o programa da vida, e a memória está agarrada aos amigos, ao tempo que passa e que não volta. Leio o poema rio vermelho e os que se seguem, com compulsão, os meus olhos precisam chegar ao fim e, de novo, voltar ao começo. Há alguém que se prepara para tirar uma fotografia analógica. Tudo preparado, e a pose do alto da cachoeira parece que vai sair. A fotógrafa quer muito registrar aquele momento, mas ela não sabe que irá escrever pela lente maior da vida, um triste dia. Será? Ainda desconfio, ou não quero acreditar nos meus olhos de porvir? Como nos filmes de Acapulco, o homem salta do cimo da arriba para a água. A autora escreve… o baque, o estampido, o som do encontro com a água tão dura… e eu não consigo conter um outro rio que insiste em molhar as páginas do livro; pressinto o futuro, mas que no livro é passado, pois já aconteceu na escrita da poeta. Volto ao início, e, de repente, eu entendo que o rio é um caudal de lágrimas e sangue, que não param de emergir das páginas, das veias de Paula para o papel, e o livro segue o seu curso de mortos, outros mortos, que colecionamos. Terei entendido bem? É importante que eu entenda, ou é importante que esteja escrito? Questiono a escritora, que diz num verso de um outro livro seu: “que se foda o entendimento”. E ela responde de viva voz; e responde no poema do livro; e o poema não me responde; responde a página; e a página diz que o espaço tem que fazer parte daquilo que está escrito. Então a violência não é contra a língua, diz a escritora; é contra a expectativa de que tudo precisa ser compreendido. E eu penso que talvez o seu livro seja uma dessas coisas: muitas ou nenhumas, não sei dizer. Mas não é importante entender, mas sim que as coisas aconteçam… o baque, o estampido, o som do encontro com a água tão dura… e a lágrima que molha a página, e a página que respira, e o branco que é silêncio, e a quebra que é corte, e o corte que é abertura. Já não me serve de nada o entendimento; é o menor de todas as coisas, e agora aproprio-me de um outro poema de Paula… o buraco, o tico de luz, a estrela que já morreu, o corpo que se alonga, o dedo mínimo que se estica para começar a passagem… a passagem é isto: escrever sem saber; e ler é isto: sem saber se entendi, se entendi tudo errado, se entendi tudo certo, se não entendi nada. A poeta não reivindica uma escrita difícil como prova de domínio da língua; o que procura é conexão, e uma palavra erudita será usada quando for necessária. E eu penso nisso, na escrita, na linguagem, nas muitas possibilidades, e eu penso no todo, e o todo é este rio, a cachoeira, é a fotografia analógica que parece arqueologia, é o salto, é a lágrima, é o que resta quando a palavra não dá conta de tudo, e é aí que a literatura começa; não quando eu entendo, mas quando eu paro de tentar entender e me deixo atravessar pela eletricidade que corre no corpo dela, no corpo de Paula, no meu corpo e no corpo da fotógrafa, no corpo do rio e no corpo do homem que salta, e que só volta ao início do salto quando leio o poema pela enésima vez, mas ele não voltará, é impossível parar este rio vermelho, impossível reescrever um poema que não me pertence, mesmo que eu deseje um outro final. Penso nos amigos que são o programa da vida, penso nos mortos que colecionamos. Fecho o livro e não sei se entendi, mas sei que fui atravessado, e isso me basta. A água segue o seu fluxo para a página, e da página para mim, e de mim para não sei onde; e não importa onde, porque entre aquilo que se sente e aquilo que se consegue dizer existe sempre uma distância, e a literatura não elimina esse intervalo, trabalha dentro dele, e é dentro dele que estou eu agora escrevendo isto, comendo a pontuação, os parágrafos, sem piscar os olhos, sem pausa, sem respiração, sem que a lágrima volte ao rio, à página de sangue, sem entendimento — ou com ele —, só com… o baque, o estampido, o som do encontro com a água tão dura… e a certeza de que, se a língua foi violentada, foi como se violenta um contrato, para que algo mais justo possa ser dito; não o mais claro, não o mais belo, o mais necessário.

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