O amante de Lady Chatterley

O romance de D. H. Lawrence ultrapassa o escândalo sexual e revela a complexidade das relações humanas, do desejo e das convenções sociais
D. H. Lawrence, autor de “O amante de Lady Chatterley”
01/11/2026

1.
Ninguém lê com inocência este livro. Desde a publicação de 1928, realizada em Florença — em edição quase secreta —, O amante de Lady Chatterley é sinônimo de escândalo. No Reino Unido, sua versão integral surgiu apenas em 1960, após uma vitoriosa batalha na justiça. A obra foi um tremor de terra, nesse aspecto precedendo Lolita, de Vladimir Nabokov, e os romances de Henry Miller. Não se tratava de um dos tantos livrinhos pornográficos, mal impressos, anônimos, concebidos para circularem às escondidas entre o público masculino. Não. D. H. Lawrence já ganhara notoriedade em seu país, como autor de nove romances — enfim: D. H. Lawrence era um escritor. E agora esta: O amante de Lady Chatterley superava qualquer vulgaridade, e sua notável qualidade estética não poderia receber um ocasional olhar de desprezo nem ser relegada à invisibilidade. Daí as tantas peripécias por que passou o romance, que Lawrence, já radicado no exterior, só pôde publicar fora do Reino Unido. Mas o problema não era apenas a imoralidade; havia também duas outras questões perturbadoras: a denúncia da vida miserável dos mineiros sob a tutela do baronete Clifford Chatterley e a atitude de Lady Chatterley ao buscar a independência e a ousadia afetiva, contrastando com o papel das mulheres da época. Uma perigosa granada de mil estilhaços que não poderia explodir.

2.
Críticos e acadêmicos têm explorado, e de maneira abundante, os aspectos sociais e morais da obra, mas esquecem o núcleo humano. Não gostaram do denso e extraordinariamente belo filme de 2022, de Laure de Clermont-Tonnerre, justamente porque a realizadora foi acusada de versar de modo ligeiro sobre a faceta sociológica da obra (penso, contudo, que ela incluiu o assunto quantum satis, e eu não mexeria em nada). Assim, e porque este tema está por demais debatido, prefiro me centrar nas motivações interiores das personagens, que se envolvem num enredo altamente sofisticado e autoralmente difícil de trabalhar, exceto para um escritor do estofo de D. H. Lawrence.

3.
Constance [“Connie” — Lady Chatterley] apresenta certa forma de bovarismo, que dominou a literatura europeia e brasileira (Machado de Assis). Digo “certa forma”, porque D. H. Lawrence quis evitar a fórmula iniciada por Flaubert e que deixou larga descendência (Tolstói, Eça de Queirós) — a ponto de se pensar que, na época, não haveria outro tema a ser tratado. Alexandre Dumas Filho, de bom humor, afirmou que, se instituíssem o divórcio na França, adeus à literatura. Adiante-se um problema. Na visão desses romances, as mulheres adúlteras eram, em geral, um tanto ingênuas, exceto Ana Karênina, que possuía a alta formação das mulheres da elite czarista.

4.
Em O amante de Lady Chatterley temos um quadro diverso. A cultura de Constance, diversamente da ilustração de Ana Karênina, apresentava-se contestatória, ligada aos pensamentos mais avançados do momento. Antes de se casar com Clifford Chatterley, ela e a irmã estudaram em Dresden e não deixaram de aproveitar a extrema juventude em festas acadêmicas; Constance teve várias ligações eróticas, recusando-se a aceitar maiores envolvimentos, pois seu desejo estava num amor acima das imposições meramente sexuais (o que não a impedia de ter amantes de ocasião). Por aí se percebe o quanto Constance é personagem complexa — e a complexidade — não as contradições tout court — é que faz o leitor aceitá-la como ser humano, e isso salva qualquer romance: se reconhecemos a humanidade de uma personagem, iremos segui-la em todas as suas aventuras, mesmo as absurdas — como acontece com Edmond Dantès, de O conde de Monte Cristo.

5.
Personagem curioso é Clifford. De início, dava-se ares blasés, ironizando sua própria classe (nobreza autêntica com propriedade ancestral e tudo o mais), o que possivelmente colaborou para o enamoramento de Constance e posterior casamento. Mas era um casamento especial, em que “…o sexo era um mero acidente, um acessório”, o que não impedia que Connie desejasse ter filhos. Com a passagem do tempo, e especialmente depois da Primeira Guerra, da qual voltou inválido e impotente, passou a adotar uma postura de defensor dos ideais aristocráticos e desejoso de ter descendência. Sendo isso impossível, sugere, nas linhas e entrelinhas, que Constance fique grávida. Ele assumiria a paternidade da criança. A repulsa de Constance a esse grotesco arranjo impede que ela tome qualquer iniciativa nesse sentido. Mas aí entra o acaso. Constance engravida, sim, mas não de outro aristocrata, e sim do guarda-caça [gamekeeper] Oliver Mellors, um rapaz forte, “quase bonito”, atencioso e de poucas palavras — e casado. Ambos se entregam a uma paixão com intensos encontros de sexo, impressionantes pela vivacidade descritiva e por quebrarem os clichês literários de cenas congêneres. Cria-se, então, um foco de conflito no qual se opõem a dignidade de classe e o desejo. A máquina literária move as ações daí por diante, e o ritmo da tensão se acelera e se agrava — tal como se espera de um romance bem conseguido.

6.
Problema posto e intricado, nosso autor não cede a uma solução simples, que implicaria tomar um partido; em outras palavras: qualquer saída pecaria por privilegiar ou o amor ou as instituições sociais. Em literatura, a vida humana e a vida social, dada a extrema diversidade e fragilidade de seus componentes, não suportam soluções binárias. Assim, o final deixa uma saudável dúvida. [Já o filme, como referido no parágrafo 2, adota o conceito do The end by resolution, tal como acontece em Orgulho e preconceito, de Jane Austen, ou O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien. Uma licença poética, defensável como tal.]

7.
O amante de Lady Chatterley permanece há quase um século porque, antes de mais nada, é uma estupenda obra literária, com todos os componentes que a singularizam: personagens verossímeis, enredo caprichoso e cheio de novidades, conflito nítido que em nenhum momento decai em sua evolução e, ainda, a capacidade de escapar de compromissos definidores da localização do “mal”. Dessa forma, é uma obra literária que atinge leitores de nossos dias, que não se escandalizam com as cenas sexuais, bem mais refinadas e sensíveis do que as que são vistas nas atuais séries de TV. Estamos perante um romance que, por todas essas qualidades, sim, merece ir para nossa mochila.

Luiz Antonio de Assis Brasil

É romancista. Professor há 35 anos da Oficina de Criação Literária da PUC-RS. Autor de Escrever ficção (Companhia das Letras, 2019), entre outros.

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