1.
Ninguém lê com inocência este livro. Desde a publicação de 1928, realizada em Florença — em edição quase secreta —, O amante de Lady Chatterley é sinônimo de escândalo. No Reino Unido, sua versão integral surgiu apenas em 1960, após uma vitoriosa batalha na justiça. A obra foi um tremor de terra, nesse aspecto precedendo Lolita, de Vladimir Nabokov, e os romances de Henry Miller. Não se tratava de um dos tantos livrinhos pornográficos, mal impressos, anônimos, concebidos para circularem às escondidas entre o público masculino. Não. D. H. Lawrence já ganhara notoriedade em seu país, como autor de nove romances — enfim: D. H. Lawrence era um escritor. E agora esta: O amante de Lady Chatterley superava qualquer vulgaridade, e sua notável qualidade estética não poderia receber um ocasional olhar de desprezo nem ser relegada à invisibilidade. Daí as tantas peripécias por que passou o romance, que Lawrence, já radicado no exterior, só pôde publicar fora do Reino Unido. Mas o problema não era apenas a imoralidade; havia também duas outras questões perturbadoras: a denúncia da vida miserável dos mineiros sob a tutela do baronete Clifford Chatterley e a atitude de Lady Chatterley ao buscar a independência e a ousadia afetiva, contrastando com o papel das mulheres da época. Uma perigosa granada de mil estilhaços que não poderia explodir.
2.
Críticos e acadêmicos têm explorado, e de maneira abundante, os aspectos sociais e morais da obra, mas esquecem o núcleo humano. Não gostaram do denso e extraordinariamente belo filme de 2022, de Laure de Clermont-Tonnerre, justamente porque a realizadora foi acusada de versar de modo ligeiro sobre a faceta sociológica da obra (penso, contudo, que ela incluiu o assunto quantum satis, e eu não mexeria em nada). Assim, e porque este tema está por demais debatido, prefiro me centrar nas motivações interiores das personagens, que se envolvem num enredo altamente sofisticado e autoralmente difícil de trabalhar, exceto para um escritor do estofo de D. H. Lawrence.
3.
Constance [“Connie” — Lady Chatterley] apresenta certa forma de bovarismo, que dominou a literatura europeia e brasileira (Machado de Assis). Digo “certa forma”, porque D. H. Lawrence quis evitar a fórmula iniciada por Flaubert e que deixou larga descendência (Tolstói, Eça de Queirós) — a ponto de se pensar que, na época, não haveria outro tema a ser tratado. Alexandre Dumas Filho, de bom humor, afirmou que, se instituíssem o divórcio na França, adeus à literatura. Adiante-se um problema. Na visão desses romances, as mulheres adúlteras eram, em geral, um tanto ingênuas, exceto Ana Karênina, que possuía a alta formação das mulheres da elite czarista.
4.
Em O amante de Lady Chatterley temos um quadro diverso. A cultura de Constance, diversamente da ilustração de Ana Karênina, apresentava-se contestatória, ligada aos pensamentos mais avançados do momento. Antes de se casar com Clifford Chatterley, ela e a irmã estudaram em Dresden e não deixaram de aproveitar a extrema juventude em festas acadêmicas; Constance teve várias ligações eróticas, recusando-se a aceitar maiores envolvimentos, pois seu desejo estava num amor acima das imposições meramente sexuais (o que não a impedia de ter amantes de ocasião). Por aí se percebe o quanto Constance é personagem complexa — e a complexidade — não as contradições tout court — é que faz o leitor aceitá-la como ser humano, e isso salva qualquer romance: se reconhecemos a humanidade de uma personagem, iremos segui-la em todas as suas aventuras, mesmo as absurdas — como acontece com Edmond Dantès, de O conde de Monte Cristo.
5.
Personagem curioso é Clifford. De início, dava-se ares blasés, ironizando sua própria classe (nobreza autêntica com propriedade ancestral e tudo o mais), o que possivelmente colaborou para o enamoramento de Constance e posterior casamento. Mas era um casamento especial, em que “…o sexo era um mero acidente, um acessório”, o que não impedia que Connie desejasse ter filhos. Com a passagem do tempo, e especialmente depois da Primeira Guerra, da qual voltou inválido e impotente, passou a adotar uma postura de defensor dos ideais aristocráticos e desejoso de ter descendência. Sendo isso impossível, sugere, nas linhas e entrelinhas, que Constance fique grávida. Ele assumiria a paternidade da criança. A repulsa de Constance a esse grotesco arranjo impede que ela tome qualquer iniciativa nesse sentido. Mas aí entra o acaso. Constance engravida, sim, mas não de outro aristocrata, e sim do guarda-caça [gamekeeper] Oliver Mellors, um rapaz forte, “quase bonito”, atencioso e de poucas palavras — e casado. Ambos se entregam a uma paixão com intensos encontros de sexo, impressionantes pela vivacidade descritiva e por quebrarem os clichês literários de cenas congêneres. Cria-se, então, um foco de conflito no qual se opõem a dignidade de classe e o desejo. A máquina literária move as ações daí por diante, e o ritmo da tensão se acelera e se agrava — tal como se espera de um romance bem conseguido.
6.
Problema posto e intricado, nosso autor não cede a uma solução simples, que implicaria tomar um partido; em outras palavras: qualquer saída pecaria por privilegiar ou o amor ou as instituições sociais. Em literatura, a vida humana e a vida social, dada a extrema diversidade e fragilidade de seus componentes, não suportam soluções binárias. Assim, o final deixa uma saudável dúvida. [Já o filme, como referido no parágrafo 2, adota o conceito do The end by resolution, tal como acontece em Orgulho e preconceito, de Jane Austen, ou O senhor dos anéis, de J. R. R. Tolkien. Uma licença poética, defensável como tal.]
7.
O amante de Lady Chatterley permanece há quase um século porque, antes de mais nada, é uma estupenda obra literária, com todos os componentes que a singularizam: personagens verossímeis, enredo caprichoso e cheio de novidades, conflito nítido que em nenhum momento decai em sua evolução e, ainda, a capacidade de escapar de compromissos definidores da localização do “mal”. Dessa forma, é uma obra literária que atinge leitores de nossos dias, que não se escandalizam com as cenas sexuais, bem mais refinadas e sensíveis do que as que são vistas nas atuais séries de TV. Estamos perante um romance que, por todas essas qualidades, sim, merece ir para nossa mochila.