A alegria me tomou por inteiro enquanto eu caminhava entre os jovens que faziam pulsar a Avenida Paulista, e por um instante o peso dos anos se dissolveu naquela maré de vozes e bandeiras. Havia muito que eu esperava e ansiava por essa imagem: a presença majoritária da juventude nos atos políticos pela equidade, pela democracia e pelos direitos fundamentais. Para um corpo cansado ao fim da longa caminhada de um septuagenário, restava a doce certeza de que, mais uma vez, os moços e as moças se faziam presentes em um momento decisivo para o Brasil. Eu me vi jovem na vibração vital dos gritos por Lula, pela democracia e contra os muitos fascismos representados pela ultradireita que tenta matar a democracia pelo caminho das urnas.
Escrevo entre o primeiro e o segundo turno de uma eleição presidencial que definirá, para além de quatro anos, o lugar do Brasil no mundo e o destino da sua democracia. O autoritarismo opera, essencialmente, pelo expurgo do tempo: ao impor a ditadura do presente, tenta decapitar a memória coletiva e cortar o fio que transmite saberes entre gerações. Por isso mesmo, a disputa que se trava agora nas urnas e nas ruas é também uma disputa pelo tempo — pela memória do que fomos e pela esperança do que podemos vir a ser. Na marcha contínua da história, a literatura e a práxis política revelam que a defesa dos direitos humanos não é um heroísmo isolado, mas um bastão de relé passado de mão em mão sob a sombra dos mesmos horrores reconfigurados. Quando os jovens que ocupam as ruas e as redes do presente encontram os rastros e os corpos velhos que carregam as cicatrizes do nazifascismo e das ditaduras sul-americanas — como se vê na prosa de Isabel Allende, de Bernardo Kucinski e nas distopias de George Orwell —, a criação estética e a ação civil deixam de ser meros registros do passado para se tornarem o ponto de confluência onde a coragem da juventude e a dor da velhice se abraçam na salvaguarda da dignidade humana.
Em A casa dos espíritos, de Isabel Allende, essa confluência geracional ganha contornos de tragédia familiar e redenção política. A fratura social promovida pelo golpe militar de 1973 no Chile espelha-se no arco de Esteban Trueba, o patriarca conservador que personifica a conivência das elites com o autoritarismo, e sua neta Alba, a jovem universitária cuja atuação em defesa dos perseguidos a lança nas engrenagens da tortura e do desaparecimento. O clímax ético da narrativa se dá no encontro do velho decrépito com a jovem sobrevivente: diante das feridas no corpo de Alba, a cegueira ideológica do idoso desmorona. Allende não apenas expõe o choque entre gerações, mas demonstra como a memória e a dor do presente são capazes de curar o passado, transformando a casa patriarcal na trincheira final onde a sabedoria da velhice e o ímpeto da juventude finalmente se alinham contra a barbárie estatal.
No cenário brasileiro, Bernardo Kucinski conduz, em K. – Relato de uma busca, uma das mais dolorosas sobreposições de regimes autoritários na literatura contemporânea. A busca incansável do pai idoso — um imigrante judeu que carrega no corpo e na alma o fantasma da exclusão e do totalitarismo europeu — pela filha jovem, docente universitária transformada em “desaparecida política” durante a ditadura civil-militar (1964–1985), expõe o cruzamento trágico de dois tempos históricos. O autoritário, ao roubar o corpo da jovem militante, força o velho pai a refazer os passos do terror que acreditava ter deixado no Velho Mundo. Na prosa contida e cortante de Kucinski, a luta pelos direitos humanos deixa de ser uma abstração jurídica para se tornar um elo filial e existencial: o direito ao luto, à verdade e à memória torna-se a última ponte entre um pai que sobreviveu à história e uma filha que por ela foi tragada.
Por fim, ao projetar a violência política no plano da distopia, George Orwell demonstra em 1984 que o projeto de dominação totalitária exige, antes de tudo, o aniquilamento do elo entre velhos e jovens. Na Oceânia dominada pelo Partido, o regime busca ativamente erradicar a memória dos idosos — detentores dos últimos fragmentos da vida pré-autocrática — enquanto doutrina a juventude por meio de organizações infantis para atuar como espiã e denunciante dos pais. A tentativa de resistência de Winston Smith, ao lado de Julia, é essencialmente um esforço de reconexão histórica e recuperação da humanidade expropriada. Orwell antecipa o terror supremo de qualquer ditadura: a interrupção deliberada do fluxo temporal, em que, sem os relatos dos velhos e sem a rebeldia consciente dos jovens, a marcha dos direitos humanos é interrompida, reduzindo a sociedade a um eterno e dócil presente.
Essa tessitura literária ganha vida concreta no cenário contemporâneo do Brasil. O resultado do segundo turno de 25 de outubro ainda não se conhece, e o país divide-se entre dois projetos antagônicos. De um lado, a candidatura de Lula, que reúne a preservação da democracia e um projeto político de inclusão e desenvolvimento voltado para a maioria da população. De outro, Flávio Bolsonaro, que tenta implantar a submissão à ultradireita trumpista: a perda da soberania nacional, a exclusão do desenvolvimento para todos e o favorecimento de uma economia voltada para o rentismo e a exclusão social, ao estilo de Javier Milei, na Argentina, invocando ainda o terror da segurança de Bukele, em El Salvador, hoje quintal das arbitrariedades norte-americanas.
Para além das pesquisas, a diferença está sendo pautada pela vigorosa retomada da militância política liderada por jovens, ativistas e criadores de conteúdo nas redes sociais que extrapolaram as telas para ocupar o espaço público em defesa do projeto democrático representado pela candidatura de Lula. Em um momento histórico marcado pelo sequestro da verdade e pela proliferação sistemática de fake news, essa juventude articulada reintroduz a força da democracia direta nas ruas. Longe de ser um mero movimento eleitoral passageiro, a presença desses jovens atua como um antídoto vital contra a apatia e o extremismo, conectando a justa revolta e as aspirações do presente com a memória ancestral daqueles que resistiram ao arbítrio nas décadas passadas.
Independentemente do resultado das urnas, a manutenção dessa mobilização jovem é um imperativo ético e político. É na permanência dessa vigilância ativa que se fundamenta a continuidade democrática, unindo a energia transformadora de quem começa a vida pública ao compromisso inegociável de não permitir o retrocesso às sombras autoritárias. Se tivermos a desgraça de ver o bolsonarismo voltar ao poder, essa mobilização deverá converter-se em resistência organizada ao desmanche do Estado, das políticas sociais e das conquistas civilizatórias. Se a vitória de Lula se firmar, as mobilizações serão o apoio popular de que ele precisará para tomar atitudes de governo fortes e inclusivas — atitudes que certamente serão bombardeadas por um legislativo de maioria reacionária já eleito no primeiro turno.
Em qualquer cenário, a atuação da juventude hoje configura um verdadeiro “ato de esperançar” — no sentido freiriano do termo —, capaz de contagiar e mover o que há de melhor na sociedade, servindo de farol para a América Latina e para o mundo, mas, acima de tudo, lembrando a nós mesmos de que a liberdade é um exercício cotidiano e intergeracional.
Ao entrecruzar a vivência de jovens e velhos sob a sombra do poder e na luminosidade das praças, a literatura e a vida pública cumprem a mesma vocação urgente: a de atuar como guardiãs da memória e da utopia. Das estepes europeias aos porões sul-americanos, e destes para as avenidas e redes do nosso tempo, o imperativo da dignidade humana se transmite pelo diálogo contínuo entre épocas. A luta pelos direitos fundamentais permanece viva porque, enquanto o autoritarismo tenta reescrever o passado, haverá sempre uma nova geração disposta a honrar as cicatrizes dos que vieram antes e a erguer, com coragem e esperança, o punho e a palavra. Que o encontro entre essas gerações não se dissolva após a apuração das urnas: ele é, agora e sempre, a matéria mesma da democracia.
NOTA
Texto escrito antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2026.