Vieira romano

Nova edição dos sermões italianos de Antônio Vieira revela aspectos de sua trajetória em Roma e das traduções e circulação de seus textos
Padre Antônio Vieira por Thiago Lucas
01/11/2026

Sonia Netto Salomão, professora da Universidade Sapienza, de Roma, acaba de lançar no Brasil, pela PUC-Rio, uma edição revista e ampliada de Antônio Vieira – Os sermões italianos. De imediato, o livro já tem a virtude de transformar um conjunto disperso de sermões num objeto histórico e filológico coerente, que podemos ler e estudar com interesse. São reunidos, assim, os sete sermões pronunciados por Vieira em italiano, mais a célebre disputa acadêmica em que o jesuíta tomou parte, Le lacrime di Eraclito [As lágrimas de Heráclito], no palácio da Rainha Cristina da Suécia, em Roma.

O material não é raro, mas o que importa aqui é o esforço de reconstrução das ocasiões da pregação, bem como da identificação de impressores, censores e tradutores envolvidos no caso. Disso se evidencia que um sermão de Vieira, lido hoje, é o resultado histórico de várias operações, como a performance oral da época, a cópia feita na hora da pregação, a tradução para outras línguas, as revisões do próprio padre e, enfim, a versão final para impressão, a que Vieira é obrigado pelo Geral dos jesuítas de então, o cardeal Gianpaolo Oliva.

Como método geral, o corpus vieiriano é estudado em correspondência com o seu contexto histórico. É sabido que Vieira residiu em Roma de 1669 a 1675, logo após sofrer o processo da Inquisição portuguesa, que entre 1663 e 1667 o proibira de pregar e o condenara por várias proposições associadas à sua profecia de uma futura ressurreição do finado Rei D. João IV. Na realidade, por baixo daquelas acusações, estava o troco da Inquisição portuguesa, controlada pelos dominicanos, aos esforços de Vieira em favor de uma “mudança dos estilos” do Tribunal, incluindo a suspensão do confisco de bens dos réus, o que obviamente dificultava a permanência dos judeus ricos no Reino.

Quando Vieira segue para Roma, a sua missão oficial era promover a canonização de quarenta jesuítas martirizados por piratas em pleno mar; mas a finalidade que o movia era outra, ou também outra: obter a revisão da sentença inquisitorial contra ele. Uma vez lá, Vieira não demorou a encontrar o apoio do Geral Oliva, impressionado com a sua oratória. Em pouco tempo, Vieira ingressou nos altos círculos romanos de Clemente X e de Cristina da Suécia. Enquanto acompanhava a diplomacia europeia e retomava os seus escritos ditos proféticos, Vieira foi então obrigado pelo Geral a pregar em italiano, o que lhe ampliou muito a fama. Um breve de Clemente X, datado de abril de 1675, livrou-o definitivamente das acusações da Inquisição portuguesa.

O primeiro sermão italiano recolhido no volume é o Sermone delle stimmate di S. Francesco [Sermão das chagas de S. Francisco], pregado em 17 de setembro de 1672 na Arquiconfraria das Chagas. Aí, a partir da imagem das chagas, Vieira articula a sua teologia sacramental com o próprio ato de imprimir o sermão. Em seguida, o Sermone del beato Stanislao Kostka [Sermão do beato Estanislau Kostka], proferido em 13 de novembro de 1674 em Sant’Andrea al Quirinale para os noviços jesuítas, estabelece vínculos surpreendentes entre a vitória polonesa de Khotin, em 1673, a eleição do Rei João III Sobieski daquele Reino e o temor cada vez maior da Europa diante da expansão otomana.

Segue-se então a série de cinco sermões chamada de Le cinque pietre della fionda di David [As cinco pedras da funda de Davi], que foram pregados sucessivamente nas cinco terças-feiras da Quaresma de 1674, no Oratório dos Picenos, junto a San Salvatore in Lauro. A presença no auditório da Rainha Cristina, de dezenas de cardeais e de boa parte da elite romana do tempo testemunhava a consagração de Vieira como orador. Por fim, Le lacrime di Eraclito foi apresentado em 6 de dezembro de 1674 na Academia Real de Cristina, como parte de uma disputa acadêmica com o jesuíta italiano Girolamo Cattaneo.

Para mim, que já conheço bem os sermões, o capítulo dedicado às traduções é o mais interessante do livro. Nele, Sonia mostra que o Sermão das Chagas (1699) e o do Beato Estanislau (1696) são autotraduções que também implicam reescritas autorais: Vieira amplia as justificações bíblicas e teológicas, adapta o sermão ao novo leitor e é feliz na tarefa de converter a energia oral do italiano em fluência escrita no português. Nos sermões das Cinco Pedras, o percurso é ainda mais complexo: o ciclo italiano foi vertido para o castelhano, e a versão portuguesa póstuma, de 1710, foi feita tendo o espanhol como base. Pela correspondência de Vieira, é possível atribuir o primeiro discurso da série ao cônego Francisco Barreto e os quatro restantes a dois outros colaboradores não identificados. Por fim, a tradução das Lágrimas para o português, também em 1710, foi atribuída por André de Barros, o primeiro biógrafo de Vieira, ao quarto Conde da Ericeira, um dos seus mais assíduos correspondentes. O cotejo com o italiano, como mostra Sonia, revela perdas conceituais, lexicais, rítmicas e mesmo algum erro nas referências clássicas.

A meu ver, a atual edição traz vários ganhos, dos quais anoto os mais óbvios: primeiro, o ajuste da cronologia dos eventos associados aos sermões e suas traduções; segundo, a evidência de que a editio princeps portuguesa não é uma transcrição transparente do que Vieira dissera no púlpito. Terceiro, a distinção entre autoria, tradução e recepção, o que permite evitar que se tomem como sendo de Vieira escolhas feitas por seus tradutores. Quarto, a demonstração da habilidade de Vieira como orador que ajusta o seu arsenal argumentativo a uma língua nova, a novos públicos que encontrou na Europa (sejam cardeais, cortesãos, noviços ou acadêmicos), bem como a modalidades discursivas diferentes, sejam orais ou impressas.

A edição também apresenta limites, mesmo sem ter a pretensão de uma edição crítica. Por exemplo, a disposição sucessiva das traduções, e não lado a lado, dificulta o cotejo; também a exclusão do discurso de Cattaneo dificulta conceber a estrutura dialógica da disputa. Penso ainda que o uso que Salomão faz de Austin, Searle, Heidegger, Derrida, Foucault e até do cineasta Martin Scorsese, por vezes, arrisca projetar categorias contemporâneas sobre o século 17.

Dois detalhes a serem checados para uma futura reedição: salvo engano, as cinco terças-feiras de 1674 começam no dia 13 de fevereiro, não no dia 14; o livro Verità, publicado em 2002, na Itália, é de autoria de Pascal Engel, não de Georg Wilhelm Friedrich Engel, como está. Ainda como ideia para uma próxima edição, sugiro a feitura de índices de nomes, lugares, passagens bíblicas e datação das primeiras edições, o que enriqueceria o aparato crítico.

Nada disso, porém, reduz o mérito da edição. Ao reunir documentos, evidenciar as diferenças de línguas, de público e de regimes de circulação dos sermões, substituindo a imagem do texto acabado do sermão pela de uma espécie de oficina transnacional, fica claro que o Vieira romano é uma chave capaz de abrir nexos relevantes da sua sermonística.

Alcir Pécora

Crítico literário, é autor de Teatro do Sacramento (1994); Máquina de gêneros (2001) e Rudimentos da vida coletiva (2002). É organizador de A arte de morrer (1994), Escritos históricos e políticos do Padre Vieira (1995), Sermões I e II (2000-2001); As excelências do governador (2002); Lembranças do presente (2006); Índice das coisas mais notáveis (2010); Por que ler Hilda Hilst (2010). Editou as obras completas de Hilda Hilst (2001-2008), Roberto Piva (2005-2008) e Plínio Marcos (2017).

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