O pastor de porcos

Nos arredores de Siqueira Campos, o encontro inesperado com um pintor de porcos provoca reflexões sobre a realidade, a repetição e os limites da existência
Ilustração: Thiago Thomé Marques
01/11/2026

Caminhando à deriva por Siqueira Campos, quase na fronteira com São Paulo, cumpro, abnegado, a minha sina de cronista. Estou cansado e impaciente. Avanço por desgosto e teimosia. Uma rua de casas baixas, espremidas entre muros. Cachorros nervosos, carros antigos, falatório. É tudo estreito e desolador. Tudo lento, esfumaçado, nem sei por que sigo. “O cronista deve andar”, os melhores manuais literários recomendam. “Andar é seu destino.” Então, a contragosto, eu ando. Até que, já sem saber bem onde estou, dou de cara com uma vaca. Ela me olha pensativa. Olha e, por certo, pensa. Tira suas conclusões a meu respeito. Como serão os pensamentos de uma vaca? Está sozinha. Sem referências. O calçamento desapareceu. Estamos em um prado muito verde, que se estende até um cercado.

Ignoro a vaca, enquanto ela se distrai com um pássaro negro — talvez um anu-preto. Deixo-a para trás. Pisando uma relva coberta de trevos, desvio-me de pequenas abelhas e abano os mosquitos. Não desisto. Por que não desisto? Sou um homem urbano, toda essa exuberância natural me molesta. Dizem que sou ecologista. Eu mesmo assim me defino. Mas será? Temo pisar em falso, derrapar em alguma poça ou tropeçar em pedras. Pode chover e um raio me fulminaria. Receio ser confundido com um invasor e que me enxotem a tiros. Virá a vaca pensante em meu encalço? Não tenho coragem de olhar para trás, agora é o medo que me faz seguir.

Até que ouço um som abafado, um grunhido. Parece mais um resmungo, ou um lamento muito antigo, como na Bíblia. Alguém usa uma enxada pesada, ou uma marreta, porque as batidas na terra são fortes. Venta e lonas estendidas sobre as cercas fazem um barulho ritmado. Então, das trevas, surge um homem. “O senhor procura por alguém!?” — ele me pergunta. Tem uma voz pausada e solene, como se viesse de um alto-falante. Será uma gravação e o homem faz só uma mímica? “Estou perdido”, admito. Tento ser natural, mas não posso esconder minha afetação. “Então vamos entrando”, ele me diz, em uma modulação agora mais humana.

Abre uma porta estreita e, sem pensar, eu o sigo. Podia ter voltado — ao longe, avisto a vaca que, virtuosa e plácida como os filósofos antigos, me espera. Como Heráclito, que, paciente, espera pelo inesperado. Não voltei, e agora estou aqui, sujo entre porcos. Só pode ser um chiqueiro, embora abrigue também galinhas e, ao fundo, com o longo pescoço entortado pelo teto, me olhe um avestruz. Para escapar — tenho o mau hábito de me apegar às referências cultas e inúteis —, penso em Pocilga, o filme de Pasolini que vi ainda menino. Beleza, impacto, elevação, de que me serve tudo isso agora? De que me adianta Pasolini, quando os porcos lambem meus pés?

Abandono meu passado de cinéfilo e de mau aluno de filosofia e retorno à realidade. “É aqui que eu trabalho”, o homem me diz. Não perguntei nada, não quero saber de nada, mas ele não se importa. A iluminação se torna mais forte. A luz do sol escorre dos basculantes abertos ao longo do telhado. Folhas de jornal amassadas e borradas de negro cobrem o chão. Os porcos exalam um perfume de amônia e podridão. Até que o homem se senta a um canto e me pergunta: “Quem lhe falou a meu respeito? Por que veio?”.

Não sei se é melhor mentir ou admitir que o acaso me trouxe até ele. Não imaginava que Siqueira Campos acabasse assim, de repente, como uma cidade que, desiludida, se joga em um abismo. Só que, no lugar do abismo, há a imensidão verde. Não podia prever que, logo depois de uma casa e seus cachorros, haveria uma vaca que pasta entre pássaros. Sempre fui lerdo, penso muito devagar. Manipulam-me com facilidade. A impressão é de que não escolho ou não tenho escolha. Como um mendigo, o que me é oferecido, eu aceito. Continuo a ser assim, um inepto. E agora me vejo aqui, sem saber por que estou aqui. Depois da vaca. Entre porcos. E diante de um avestruz.

“Quer conhecer meus trabalhos?” — o homem me pergunta. De novo, não escolho, aceito. No fundo do chiqueiro, há outra porta, ainda mais estreita. Depois dela, um barracão escuro, com as paredes cobertas de baratas. Há muitas telas encostadas pelos cantos. Ao que parece, o homem só pinta porcos. “Antes eu fazia retratos, mas desisti dos humanos.” Há muito entulho espalhado pelo chão. Ando aos tropeções. A luz fraca, que escorre entre as telhas, não ajuda. “É meu acervo, não trabalho aqui. Trabalho no campo”, explica. “Para pintar, preciso de luz.” Então, escolhe alguns porcos e os pastoreia pela relva. Senta-se diante da tela branca e espera. O que espera? “Espero que os porcos sejam porcos. Que nada queiram de mim, que se bastem.” Só então, diante de porcos que são apenas porcos, ele começa a pintar.

Explica o homem que só através dos porcos consegue capturar a realidade. “Meus antigos modelos eram todos fingidores”, desabafa. Faziam poses, maquiavam-se, simulavam sentimentos. Falsificavam a existência. “Eram farsantes. Nós, humanos, vivemos da mentira.” Já os porcos podem ser sujos e asquerosos, mas não simulam. Desconhecem as metáforas, as máscaras e a maquiagem. São o que são. “E a realidade é isso”, ele diz, “a realidade é o que é”. Não disfarça o entusiasmo com as próprias palavras. Enquanto fala, desenrola telas guardadas em grandes barris. Todas se parecem. Os mesmos porcos, a mesma várzea, o mesmo céu. “Só os esnobes acreditam que a realidade muda. Um porco do século 16 é igual a esse porco que está diante de nós.”

Passo um tempo admirando as telas. Até que me canso e entendo que nada mais devo esperar, que ele pinta sempre o mesmo animal. “Para que tantos porcos, se lhe basta um porco? Para que uma pocilga, se lhe basta ver um porco para ver todos os porcos?” — eu pergunto. Primeiro me encara em silêncio. Parece que vai me xingar ou me esmurrar. Até que, com os caninos arreganhados, para fora da boca, como um suíno, ele diz: “Para que a realidade exista, é preciso haver a repetição”. Despeço-me sem encará-lo. Saio às pressas. Atravesso a longa campina aos saltos. Quando chego ao limite da cidade, lá está a vaca que me encara melancólica. Será a mesma vaca? Isso, de fato, importa?

José Castello

É escritor e jornalista. Autor do romance Ribamar, entre outros livros.

Rascunho