A literatura entre escombros

Vivemos em um mundo fluido, raso e fragmentado, que se pulveriza e se desmancha
O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman
01/06/2012

Vivemos em um mundo fluido, raso e fragmentado, que se pulveriza e se desmancha. O mundo das imagens feéricas, do noticiário em “tempo real”, das grandes (e ilimitadas) redes virtuais. O mundo da simulação, do duplo e do etéreo. Nesse mundo disperso e desprovido de limites, a literatura parece perder o sentido. Para que serve, então, a literatura hoje? A literatura está morrendo? Será ela devorada pelos blogs, pelo Facebook e por outros artefatos do mundo virtual? Chegando à pergunta que mais nos atormenta: a literatura tem futuro? Podem os jovens ainda acreditar na potência da literatura?

Aposto, com ênfase, no futuro da literatura. Mais ainda: aposto em sua força no presente. Em um mundo entre escombros, em que tudo se parte e se dispersa, a literatura, na contramão, oferece coesão e sentido. Em um mundo no qual tudo nos joga para fora, ela nos joga para dentro. Em um mundo extrovertido, dominado pelas imagens, pelos índices e pelas superfícies, ela nos conduz a um precioso exercício de introspecção. Quanto mais o mundo se fragmenta e se liquefaz (para pensar nas idéias de Zygmunt Bauman), mais a literatura se oferece como um posto de resistência. Quanto mais o sujeito e seu corpo se vêem presos — como tristes aranhas — às redes virtuais e às jogadas comerciais, mais a literatura se oferece como um território de liberdade interior e de subjetivação.

Volto à pergunta que mais nos inquieta: como levar os jovens a entender isso? Cegos pelas luzes do contemporâneo, eles vivem em uma espécie de presente perpétuo, no qual tudo se equivale e tudo se repete. Tornaram-se prisioneiros do instante. Através do Facebook, do Twitter, dos blogs e de outros recursos virtuais, eles vivem perseguidos por um presente onipotente, no qual o passado se torna um resto insuportável e o futuro é só uma miragem.

Arrastados pela web, detidos em uma sucessão de janelas (“Windows”) que se desenrolam em abismo, eles têm, cada vez mais, uma imensa dificuldade de parar. E portanto: dificuldade de pensar. Sem pensamento, sem introspecção e meditação, ninguém se torna um leitor. O leitor é aquele que pára e — como um nadador perfilado em seu trampolim — prepara seu salto sobre (ou dentro de) um livro. Sem silêncio, contenção e divagação, não há literatura (leitor) possível.

Como levar os jovens a entender que, na contramão do mundo veloz que os arrasta, existe um lugar onde é possível voltar a si (como alguém que acorda depois de um desmaio) e se aproximar de si mesmo? Infelizmente — e a culpa não é deles —, os jovens costumam ter uma visão “morta” de literatura. Quando pensam em um poeta como Castro Alves, por exemplo, vêem apenas os velhos bustos de bronze, roídos pelo tempo e sujos pelos pombos, que se erguem em tantas praças “Castro Alves” existentes no Brasil. Esquecem-se (ou ignoram) que Castro Alves foi um jovem romântico, apaixonado pela vida e de espírito rebelde, cheio de vigor e de desejo, para quem a poesia era não só uma máquina de fazer sonhar, mas um instrumento de sedução e de afirmação. Morreu aos 24 anos — em pleno fogo da juventude — e deixou-nos uma obra corajosa e radical. Por que — nas escolas, nos colégios, nas universidades — insistimos em lhes dar só a primeira imagem do poeta, cheia de ferrugem e cheirando à morte? Por que insistimos em assassinar Castro Alves e sua poesia?

Para atrair os jovens para a leitura e a literatura, precisamos, primeiro, convencê-los de que a literatura está viva. Mais que isso: que ela tem o poder de interferir e dar sentido às suas vidas. A leitura é uma espécie imóvel de viagem interior. Considero que a literatura, mais que um trabalho ou um ofício, é um ato e uma travessia — uma viagem para dentro. Na literatura não há certo ou errado: há o singular. Para cada leitor, um mesmo livro será, sempre, um livro diferente. O Madame Bovary que leio não é o mesmo romance Madame Bovary que você lê. A minha A metamorfose não é a sua A metamorfose. O escritor paraguaio Augusto Roa Bastos sintetizou isso assim: “Cada livro é um livro diferente na cabeça de cada leitor”. Dizia mais: que, a rigor, os livros não existem, existem apenas aqueles que os lêem.

Por quê? Porque para ler não é necessário — e é até perigoso — seguir regras, modelos, “leituras autorizadas”, prescrições de especialistas. Ao contrário: quando um leitor lê um livro, ele o reinventa. Podemos dizer até: ele o reescreve dentro de si. Apostilas, exercícios, correção de provas, receituários só separam o leitor de seu livro. A imagem mais perfeita do leitor é a daquele menino que, trancado em seu quarto, escondido sob seu cobertor e munido apenas de uma lanterna, refugia-se do mundo para ler. Para viajar através de seu livro. Só há literatura, portanto, em silêncio e solidão. Quando abre um livro, o leitor faz isso sempre por sua conta e risco.

É, de fato, muito perigoso ler. A leitura pode provocar fortes impactos interiores, danificar clichês e superstições, e instaurar novas (e inesperadas) maneiras de observar o mundo. Mas, como nas grandes aventuras a mundos desconhecidos e remotos, a viagem através dos livros também promete surpresas e maravilhas. Promete algo ainda mais precioso: em meio a um mundo fragmentado, veloz e superficial, a leitura (a literatura) promete um reencontro consigo mesmo. Uma “queda em si”, como prefiro dizer. Ao ler, o sujeito volta a ser dono de si mesmo. Ao ler, ele se reencontra. Ao ler, ele se conecta, outra vez, a um sentido. A literatura oferece uma multiplicidade de sentidos — em um mundo que, em geral, nos parece reto e indiferente. Em meio ao uníssono do contemporâneo, no qual todas as coisas se equivalem, a literatura nos apresenta à diversidade e à dissonância. Entre escombros e em meio ao vazio, ela pode nos salvar. Não é fácil, porém, convencer os jovens disso. Não existe outra maneira de conhecer o prazer da leitura senão lendo. Aqui é inevitável recorrer ao velho clichê: é como andar de bicicleta, ou como surfar, só se aprende andando, ou surfando.

A melhor maneira de aproximar os jovens da literatura não é, portanto, submetê-los a compêndios, a apostilas e a cânones. Mas levá-los, desde os primeiros momentos, a se defrontar com os próprios livros. Não existe outro caminho para a experiência da leitura senão a própria leitura. A literatura é a própria salvação da literatura.

*Palestra apresentada no III Congresso Internacional de Literatura Infanto-Juvenil, realizado em maio de 2012, na PUC de Porto Alegre, sob direção da professora Vera Aguiar.

NOTA
O texto A literatura entre escombros foi publicado no blog A literatura na poltrona, mantido por José Castello, colunista do caderno Prosa & Verso, no site do jornal O Globo. A republicação no Rascunho faz parte de um acordo entre os dois veículos.

José Castello

É escritor e jornalista. Autor do romance Ribamar, entre outros livros.

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