No meio de um atalho da floresta, o senhor Cortázar encontrou, estranha e absurdamente, no centro de uma clareira, um sofá.
Olhou em redor, afastou os pequenos arbustos que o rodeavam, e nada: nenhum outro vestígio humano a não ser aquele: um sofá.
Tratava-se de um pormenor, de uma pequena dádiva para quem há horas perdera o trilho principal, mas sim era o momento de aproveitar. Estava exausto, sentou-se.
O sofá não era mau. A cor, num outro contexto, poderia contestar-se, mas caramba, o senhor Cortázar não poderia ser exigente. A cor era de evidente mau gosto, mas as molas trabalhavam na perfeição, permitindo o descanso; em poucos minutos o senhor Cortázar ficou sonolento e adormeceu.
Esqueceu então que estava perdido num atalho da floresta, com medo de ser atacado por uma fera e com medo de não mais reencontrar o caminho de volta. Sonhou, pelo contrário, que estava ainda na confortável casa de onde saíra de manhã em direcção à floresta para um pequeno passeio.
Acordou, uma hora mais tarde, olhou em volta e percebeu, felizmente, que não estava em casa, que não estava no seu lar, quentinho e rodeado de pessoas que o amavam. Não, o senhor Cortázar estava perdido, completamente perdido no meio da floresta e, à sua frente, para a situação ser ainda mais perigosa, estava agora um tigre prestes a atacá-lo.
O senhor Cortázar sentiu-se aliviado. Encontrara o que procurava. Estava pronto para lutar pela sua vida até ao último esforço. O tigre, pois, que avançasse.
Nota
Neste conto, manteve-se a ortografia vigente em Portugal.