Repatriação, romance de estreia da franco-congolesa Ève Guerra, vencedor do Prêmio Goncourt de Primeiro Romance, narra a saga de Annabella Morelli, que vive em Lyon e recebe a notícia da morte do pai, engenheiro italiano que passou a vida entre obras e fantasmas em países africanos. A partir desse acontecimento, desencadeia-se uma jornada marcada pela impossibilidade de retorno: repatriar o corpo é também enfrentar memórias, deslocamentos e feridas históricas.
A frase “Eu matei meu pai”, repetida ao longo da narrativa, funciona como eixo simbólico. Mais do que luto, o enredo revela a tensão entre corpo e espírito, entre a terra perdida e a língua que narra. Annabella descobre que o passado não é apenas lembrança, mas matéria viva que insiste em se impor, seja na memória da infância africana, seja na experiência de exílio que molda sua identidade.
O romance se inscreve na tradição das grandes narrativas afro-atlânticas, ao mesmo tempo íntimas e coletivas. Guerra constrói uma prosa densa e lírica, em que o ato de repatriar ultrapassa o gesto físico de transportar um corpo: é também repensar pertencimento, origem e destino. A travessia entre África e Europa, marcada por deslocamentos coloniais e pós-coloniais, ganha contornos pessoais e universais.
A escrita de Ève Guerra surpreende pela maturidade estilística. Alternando introspecção e crítica social, a autora expõe as fissuras de uma identidade fragmentada, que busca recompor-se diante da ausência. O romance ressalta a complexidade das relações entre memória e esquecimento, entre raízes e desenraizamento. Ao acompanhar Annabella, somos levados a refletir sobre nossas próprias perdas, sobre os corpos e histórias que carregamos, e sobre o que significa, afinal, “voltar para casa”.