Na dĂ©cada de 1930, em um vilarejo fictĂcio chamado Santa Graça, em Minas Gerais, Nara Vidal constrĂłi a atmosfera do romance Puro. O cenário, embora inventado, carrega marcas reconhecĂveis do interior mineiro e serve como palco para uma narrativa perturbadora, em que a busca pela “virtude” e pela “limpeza” social revela o lado mais sombrio da histĂłria brasileira. Acompanhamos Lázaro, adolescente criado por trĂŞs velhas em um casarĂŁo que concentra tensões e segredos. A aparente tranquilidade da comunidade logo se desfaz diante do avanço de ideias eugenistas, que pretendem separar corpos, silenciar vozes e impor uma ordem baseada na exclusĂŁo.
O romance, breve e incômodo, não se limita a reconstruir um passado. Ele dialoga diretamente com o presente, ao expor como discursos de pureza e moralidade continuam a ecoar em diferentes formas na sociedade contemporânea. Nara Vidal, que integra o time de cronistas do site do Rascunho, demonstra maturidade ao enfrentar temas duros sem suavizar a brutalidade das ações e pensamentos de seus personagens. Sua escrita é precisa, capaz de criar atmosferas densas que prendem o leitor e o obrigam a refletir sobre os mecanismos de poder e exclusão.
Mais do que uma histĂłria localizada em um tempo e espaço especĂficos, Puro Ă© um alerta. Ao revisitar o passado, a autora ilumina as permanĂŞncias de um discurso que insiste em se atualizar, seja na polĂtica, na cultura ou nas relações sociais. Puro se apresenta como um desafio de atravessar zonas de desconforto, reconhecer feridas histĂłricas e compreender que a pureza, quando erigida como valor absoluto, pode se transformar em violĂŞncia.