Para John apresenta ao público uma dimensão inédita da escrita de Joan Didion. O livro reúne os registros que a autora fez durante suas sessões com o psiquiatra Roger MacKinnon, entre 1999 e 2001, anotados em forma de diário para o marido, John Gregory Dunne, que não podia acompanhá-la. Nessas páginas, Didion descreve com minúcia suas conversas, abordando temas delicados como alcoolismo, adoção, ansiedade, depressão, culpa e as complexidades do relacionamento com a filha, Quintana. Em meio a tudo isso, reflete sobre o trabalho literário e sobre o legado que desejava deixar, transformando o espaço íntimo da terapia em matéria literária.
A publicação, organizada após sua morte em 2021, reacendeu debates sobre privacidade e sobre os limites da exposição autobiográfica. Críticos norte-americanos destacaram o caráter fascinante e perturbador do livro: ao abrir suas notas mais íntimas, Didion oferece ao leitor não apenas um retrato de sua vulnerabilidade, mas também uma chave para compreender sua obra.
Mais do que um documento pessoal, o livro se inscreve na tradição da autora de transformar experiências individuais em reflexão crítica sobre a sociedade. Assim como em O ano do pensamento mágico e Noites azuis, aqui se percebe a precisão estilística e a consciência aguda da linguagem, marcas que fizeram de Didion uma cronista singular da intimidade e da cultura norte-americana.
O resultado é uma obra que exige entrega: ao acompanhar Didion em sua jornada de autoinvestigação, somos levados a refletir sobre perdas, fragilidades e sobre o que significa narrar a própria vida. Para John reafirma a atualidade da autora e sua capacidade de provocar desconforto, reconhecimento e reflexão, consolidando-a como uma das vozes mais importantes da literatura contemporânea.