Em Coisas presentes demais, Flávia Péret constrói uma narrativa em mosaicos para acompanhar a relação entre uma neta e sua avó, figura exuberante que agora enfrenta o apagamento provocado pelo Alzheimer. Entre visitas à casa de repouso e lembranças de infância, a narradora busca recompor a essência dessa mulher que, em sua juventude, desafiou o patriarcado para escapar do destino de ser apenas dona de casa. A obra se organiza em fragmentos de memória, imagens, gestos e silêncios, revelando tanto o olhar da avó sobre a neta quanto o da neta sobre a avó — e, sobretudo, o da mulher que a narradora se torna ao revisitar essa relação. Fantasmas, fotografias, separações e desejos atravessam o texto, que se abre como reflexão sobre memória, esquecimento, herança e amor. Com delicadeza e força poética, Péret transforma o processo de apagamento em matéria literária, criando um livro que fala da fragilidade e da permanência dos vínculos, e da potência da escrita como forma de preservar aquilo que insiste em desaparecer.