ūüĒď Patr√≠cia Melo

‚ÄúLiteratura e lugar de fala s√£o duas coisas incompat√≠veis.‚ÄĚ
Patricia Melo Foto: Adriano Heitmann
01/12/2021
A romancista Patr√≠cia Melo foi a sexta convidada da 10¬™ temporada do Paiol Liter√°rio ‚ÄĒ projeto realizado pelo Rascunho, com patroc√≠nio do Ita√ļ, por meio da Lei Federal de Incentivo √† Cultura. Neste ano, os encontros acontecem online, com transmiss√£o pelo Youtube, e todo conte√ļdo tamb√©m fica dispon√≠vel no site do projeto (paiolliterario.com.br).Patr√≠cia nasceu em Assis (SP), em 1962. Entre romances e um livro de contos, publicou 12 t√≠tulos. Mulheres empilhadas (2019), Gog Magog (2017), O matador (1995), adaptado para o cinema com roteiro de Rubem Fonseca, e Inferno (2000), vencedor do Pr√™mio Jabuti, s√£o alguns de seus trabalhos de f√īlego. Na narrativa breve, lan√ßou Escrevendo no escuro (2011).Realizado desde 2006, o Paiol Liter√°rio j√° recebeu 77 escritores. O pr√≥ximo e √ļltimo bate-papo da temporada acontece no dia 7 de dezembro, √†s 19h30, com participa√ß√£o da poeta pernambucana Cida Pedrosa. A media√ß√£o dos encontros √© do jornalista e escritor Rog√©rio Pereira, editor do Rascunho.‚ÄĘ Literatura enriquece H√° v√°rias raz√Ķes pelas quais devemos nos dedicar √† literatura. Primeiro, porque ela √© sempre uma hip√≥tese. Hip√≥tese de uma vida. √Č uma maneira de voc√™ vivenciar uma vida diferente da sua. De ter uma experi√™ncia diferente e aprender. A maneira mais f√°cil de ver a import√Ęncia da literatura na vida de um ser humano √© pensar nos livros que mudaram sua vida. H√° livros que mudam nossa vida. Mudam nossa cabe√ßa de tal forma que a gente passa a ter uma conduta diferente. Passa a ter uma perspectiva diferente. A literatura n√£o √© s√≥ sonho, entretenimento, embora tamb√©m possa ser, mas √© tamb√©m autoconhecimento. Ela √© a viv√™ncia de uma experi√™ncia poss√≠vel. Ou de uma experi√™ncia imposs√≠vel. √Č um mergulho na linguagem. Uma possibilidade de aprender, de maneira muito agrad√°vel, a estrutura da sua l√≠ngua. De aprender novos voc√°bulos. De melhorar sua maneira de falar. As vantagens de ser um leitor s√£o tantas. √Č at√© dif√≠cil elencar. A vida, sem literatura, √© como a vida sem o sonho. √Č pobre. Uma vida reduzida. Sempre brinco: a gente deveria ter duas vidas, uma para viver e outra s√≥ para ler. Por mais que me dedique √† literatura, estou sempre correndo atr√°s. Sempre achando que minha forma√ß√£o est√° cheia de buracos. Que h√° livros e mais livros que quero ler. Para mim, n√£o h√° prazer maior do que sentar em uma poltrona, pegar um livro e mergulhar na hist√≥ria.‚ÄĘ Brechas para ler N√£o tenho todo tempo do mundo para leitura. Sempre no intervalo entre escrever um livro e outro √© que fa√ßo um bom mergulho na fic√ß√£o. Quando estou escrevendo, evito ler livros. Mesmo de autores de que gosto. Fico t√£o sens√≠vel. √Č como se evitasse qualquer tipo de influ√™ncia. Geralmente, na fase que estou escrevendo, leio s√≥ material de pesquisa, livros de refer√™ncia. Vou acompanhando resenhas no Rascunho ou cadernos liter√°rios ‚ÄĒ h√° t√£o poucos cadernos liter√°rios no Brasil, n√©? E estou sempre com uma pilha de livros para comprar e ler.‚ÄĘ Expectativa N√£o tenho ambi√ß√£o de causar uma transforma√ß√£o no leitor da minha literatura. Acho que a leitura pode engatilhar uma s√©rie de questionamentos que v√° fazer com que o leitor acabe mudando. Agora, n√£o √© uma coisa autom√°tica. Provavelmente n√£o √© s√≥ um livro que vai mud√°-lo totalmente. √Č sempre um processo. Esse processo de transforma√ß√£o √© lento e cont√≠nuo. N√£o tenho muita expectativa de que meu livro mude o leitor. Mas tenho expectativa de que o leitor, ao ler meu livro, tenha abertura para alguma mudan√ßa. Por exemplo, no que diz respeito ao Mulheres empilhadas, meu √ļltimo romance, no qual falo sobre feminic√≠dio: minha expectativa era, sobretudo, que abrisse os olhos de muitos homens que acham, por exemplo, que a quest√£o do feminismo ou da viol√™ncia contra a mulher n√£o diz respeito aos homens. Que eles n√£o t√™m que participar desse debate. Queria que meu livro despertasse essa urg√™ncia no leitor. Agora, n√£o √© nem uma ambi√ß√£o. Quando estou escrevendo, n√£o chego nem a formular isso. Depois que o livro ganha vida, e que come√ßa a chegar o feedback dos leitores, √© que voc√™ vai organizando isso na cabe√ßa. Do que o livro est√° conseguindo realizar. Porque o livro, sozinho, se movimenta e est√° descolado do autor. √Č muito mais uma constata√ß√£o, quando vejo a performance do livro e entendo onde √© que estou conseguindo chegar. √Č mais isso do que uma pretens√£o, uma ambi√ß√£o de conseguir essa mudan√ßa na cabe√ßa do leitor.
Patricia Melo Foto: Adriano Heitmann
‚ÄúA vida, sem literatura, √© como a vida sem o sonho.‚ÄĚ
‚ÄĘ Constela√ß√£o de leituras Daria para fazer uma entrevista inteira s√≥ sobre os livros que mudaram minha vida. Um deles foi O estrangeiro, do Camus. Esse absurdo da viv√™ncia, esse vazio sobre o qual Camus sempre fala na literatura dele, ecoou de uma forma t√£o profunda em mim… Acho que j√° o li umas dez vezes. Outro que teve um impacto profundo foi Crime e castigo, do Dostoi√©vski. Quando falo em transforma√ß√£o do leitor, n√£o √© s√≥ na sua maneira de pensar. Ela tamb√©m tem a ver com uma quest√£o est√©tica. Alguns livros me marcam profundamente pelo estilo. Pela maneira como aquela hist√≥ria √© contada. Outros livros me marcam pela densidade dos personagens, s√£o personagens que voc√™ passa a carregar a vida toda. Quem leu Lolita, do Nabokov, por exemplo? Lolita √© uma personagem que tem carne. Voc√™ sabe perfeitamente quem ela √©. Ela √© t√£o presente na vida do leitor quanto um familiar, um parente. √Äs vezes at√© √© muito mais pr√≥xima de voc√™ como figura humana do que um primo, um tio. O que a literatura nos d√° √© uma gama de possibilidades ‚ÄĒ est√©tica, experimental, no sentido de viv√™ncia. H√° livros que marcam especificamente porque h√° algo neles que ecoa em n√≥s de maneira direta. Mas, no fundo, o que vai transformar o leitor √© essa constela√ß√£o de leituras. Em um livro h√° o apelo est√©tico, no outro h√° um personagem no qual o leitor se reconhece, e √†s vezes at√© de maneira negativa, como um espelho assustador, no outro √© um espelho inspirador. √Č nessa din√Ęmica, na leitura de v√°rios autores, que voc√™ tem a perspectiva de se enriquecer como pensador. Como ser humano. Como pessoa.‚ÄĘ Sorte grande Tenho a sorte de vir de uma fam√≠lia de leitores. Meu pai era um leitor, minha m√£e tamb√©m. Havia uma biblioteca boa na nossa casa. Falava-se muito sobre literatura. Lembro de almo√ßos de domingo, ou jantares no s√°bado √† noite: todo mundo falava o que estava lendo. Todo mundo estava lendo algum livro. Isso foi uma coisa muito importante. Eu admirava meus irm√£os mais velhos e queria conhecer o que eles estavam lendo. Li Dez dias que abalaram o mundo, do John Reed, quando tinha uns 13 anos. N√£o entendi nada na primeira vez. O pr√≥prio Macuna√≠ma… Tudo porque meus irm√£os mais velhos estavam lendo. Tinha esse incentivo grande em casa. Era uma fam√≠lia que lia muito.‚ÄĘ Desafios modernos N√≥s, leitores j√° formados, temos a sensa√ß√£o de que ler √© f√°cil. Ou seja, de que √© f√°cil abrir um livro e transcender. Mas n√£o √© f√°cil. A leitura exige um espa√ßo de introspec√ß√£o, de concentra√ß√£o ‚ÄĒ tudo que a vida moderna retira dos jovens. S√£o tantas as possibilidades que se tem para usufruir o tempo, seja na internet, nos v√≠deos, nas s√©ries. Esse espa√ßo, o da introspec√ß√£o, da concentra√ß√£o, precisa ser exercitado para ser aprendido. Voc√™ n√£o aprende a ficar sozinho com um livro na m√£o, duas horas lendo, se n√£o se dedicar a isso e exercitar a leitura, at√© o momento em que ela se transforme num grande prazer. Falta, para a forma√ß√£o dos leitores hoje, exatamente esse aprendizado da solid√£o. Da introspec√ß√£o. Da concentra√ß√£o. S√£o viv√™ncias que a vida moderna praticamente retirou de cartaz. Tudo acontece num ritmo muito violento. Tudo muito cheio de imagens, sons. Isso √© muito triste. Quando n√£o se aprende a ter o prazer pela leitura, voc√™ tamb√©m abre m√£o da fabula√ß√£o. Do sonho. Da imagina√ß√£o. Voc√™ fica recebendo coisas prontas. Essa f√ļria de s√©ries que existe hoje em dia, por exemplo. Acho que ela tira muito do jovem o sonho, a possibilidade de ele fabular. √Č um exerc√≠cio que est√° embutido no exerc√≠cio da leitura. Quando voc√™ est√° lendo, est√° criando. Voc√™ cria junto com o autor. Mas √© preciso aprender a fazer isso. √Č preciso ter um espa√ßo na vida para exercitar a leitura, at√© se tornar um leitor.‚ÄĘ Forma√ß√£o prec√°ria Se a pessoa n√£o for bem alfabetizada, n√£o vai se transformar numa leitora. Porque n√£o vai conseguir nem ler e compreender um artigo de jornal. O que se vive no Brasil √© tr√°gico. A gente est√° comprometendo completamente essas gera√ß√Ķes futuras. A qualidade de ensino do pa√≠s est√° comprometendo a qualidade de vida dos cidad√£os. S√£o pessoas que n√£o ter√£o esse instrumento important√≠ssimo na forma√ß√£o de um cidad√£o que √© a literatura. Porque, n√£o sendo bem alfabetizado, voc√™ jamais vai se transformar num leitor. √Č muito dif√≠cil. √Č quase imposs√≠vel superar o efeito colateral da m√° alfabetiza√ß√£o e conseguir, por meio do esfor√ßo individual, se transformar num leitor.‚ÄĘ Cinema e TV Meu sonho, na juventude, era trabalhar com cinema. O cinema foi muito importante na minha forma√ß√£o, n√£o foi s√≥ a literatura. De fato, comecei minha vida profissional como roteirista. Trabalhei bastante com cinema e televis√£o. Agora, √© muito dif√≠cil voc√™ trabalhar com cinema no Brasil. Era dif√≠cil naquela √©poca, hoje acho que √© mais dif√≠cil ainda ‚ÄĒ com esse desmonte todo do atual governo, que acabou completamente com a produ√ß√£o do audiovisual. √Č praticamente imposs√≠vel voc√™ trabalhar com cinema. Naquela √©poca, voc√™ come√ßava um projeto e o acabava quase dez anos depois. Tinha uma coisa muito frustrante. A televis√£o n√£o era o produto art√≠stico que voc√™ sonhava em fazer, era quase que ‚Äúenquanto n√£o consigo fazer meu trabalho autoral no cinema, deixa eu fazer televis√£o‚ÄĚ. N√£o havia uma ind√ļstria de produ√ß√£o de cinema no Brasil. Trabalhei muito tempo com televis√£o e me senti completamente esgotada. O trabalho de roteiro √© muito dial√≥gico, depende muito de uma equipe de produ√ß√£o. Houve um momento em que eu estava esgotada, a√≠ decidi que iria parar de trabalhar com televis√£o.‚ÄĘ Epifania Foi quando escrevi Acqua Toffana [livro de estreia, publicado em 1994]. A liberdade que a literatura me proporcionou… Lembro que escrevi em um jorro, acho que em tr√™s meses. O que provocou esse jorro foi perceber a liberdade que √© o espa√ßo da literatura. Tive uma epifania mesmo, de vislumbrar e experimentar a liberdade como artista. Perceber que naquele espa√ßo eu poderia fazer o que quisesse. Da forma que quisesse. No meu pr√≥prio tempo. N√£o h√° limite para o que voc√™ pode fazer dentro de um romance. Foi realmente uma epifania. Dali pra frente, foi muito dif√≠cil voltar pro roteiro, pro cinema, televis√£o. Perdi completamente o prazer de escrever para o cinema e para a televis√£o, porque acho que falta nesses espa√ßos exatamente a liberdade que a literatura me proporciona.‚ÄĘ Momento certo O momento em que lancei Acqua Toffana [1994] era curioso. As editoras estavam come√ßando a se abrir para autores nacionais. At√© ent√£o, a gente tinha muita publica√ß√£o estrangeira traduzida. As editoras experimentavam pouco. Foi exatamente no come√ßo da abertura dessas editoras que publiquei. Foi um momento muito rico dessa reformata√ß√£o do mercado. As editoras estavam interessadas em autores nacionais jovens. Acho que talvez estivessem at√© mais abertas do que hoje. O que aconteceu foi isto: Acqua Toffana foi muito bem recebido. Eu estava um pouco com a vida de ponta-cabe√ßa. Tinha acabado de ter filho, tive essa experi√™ncia maravilhosa com meu primeiro romance, e estava muito entusiasmada em continuar escrevendo.‚ÄĘ Experi√™ncias √ļnicas Nunca consegui fazer um plano liter√°rio. Sempre fa√ßo um mergulho no livro que me proponho a escrever, sem pensar muito no que vai ser na sequ√™ncia. Sem tentar responder √†s expectativas que s√£o criadas em cima da minha pr√≥pria literatura. Tem sido isto: a cada livro, um novo desafio. Sempre encaro assim o in√≠cio de um novo projeto. Um desafio que nem sei se vai dar certo. De repente, n√£o d√° certo. Um desafio em termos de estilo, narrativa, tem√°tica. Sempre √© um tiro no escuro. Procuro escrever sem planejar muito, sem ter muita expectativa, para tamb√©m n√£o me frustrar demais.‚ÄĘ Liberdade O que acho interessante, na vida do escritor, √© justamente a liberdade. Por exemplo, senti uma certa press√£o quando escrevi O matador. Foi um grande sucesso ‚ÄĒ n√£o s√≥ no Brasil, mas fora dele. Havia uma expectativa dos meus editores. Como se meu pr√≥ximo livro tivesse que ter a for√ßa d‚ÄôO matador. Acho que √© muito frustrante pro escritor repetir uma experi√™ncia que ele acabou de realizar no livro anterior. N√£o sei o que √© ter um estilo, mas imagino que significa exatamente isto: retomar experi√™ncias de projetos anteriores em projetos em constru√ß√£o. Acho que isso √©, no m√≠nimo, tedioso. Voc√™ n√£o se imp√Ķe nenhum desafio, fica repetindo a f√≥rmula que deu certo. Tenho tentado, ao longo da minha carreira, a cada novo projeto, esquecer o livro anterior. Esquecer aquela experi√™ncia.‚ÄĘ Prazer do riscoLembro do poeta Joseph Brodsky falando que literatura e poesia s√£o espa√ßos nos quais os profissionais que est√£o envolvidos s√£o quase obrigados a abrir m√£o de suas experi√™ncias se n√£o quiserem se frustrar. √Č diferente dos outros profissionais que se beneficiam das experi√™ncias que ganharam ao longo da realiza√ß√£o de projetos. √Č exatamente essa a minha sensa√ß√£o. Quando come√ßo um projeto, falo: ‚ÄúBom, isso aqui n√£o quero. J√° sei exatamente o que n√£o quero, que √© o que sei fazer‚ÄĚ. O que sei fazer √© o que n√£o quero. Quero algo arriscado. Sentir que estou fazendo pela primeira vez.‚Äʬ†Projeto gr√°fico Gosto muito de acompanhar o projeto gr√°fico. Gosto muito dos processos de revis√£o, da capa, da escolha do capista. Nunca interfiro, mas gosto de estar presente nesses momentos. Acho importante, inclusive, porque a capa define muito o destino do livro. A capa deve ser sempre o fruto do di√°logo entre um profissional que entende muito dessa quest√£o do estilo, de como √© fazer um projeto gr√°fico, e tamb√©m do conte√ļdo do livro. Tem que ter um bate-bola entre autor e capista. √Č uma fase que acho bastante emocionante na produ√ß√£o do livro.‚ÄĘ Efici√™ncia da narrativa O que aprendi como roteirista de cinema e TV √© o que chamo ‚Äúefici√™ncia da narrativa‚ÄĚ. No cinema e na TV voc√™ tem pouco tempo para contar uma hist√≥ria, ent√£o √© preciso ser muito eficiente, saber exatamente como contar a hist√≥ria. O que eu trouxe dessas m√≠dias foi isso, essa preocupa√ß√£o com a efici√™ncia. Com conseguir articular uma narrativa, que √© um arco. Ela tem desenvolvimento, √°pice, tem que se resolver. Isso vem muito da preocupa√ß√£o como roteirista. Acho isso muito ben√©fico para minha literatura. Porque eu, como leitora, sou muito cr√≠tica no que diz respeito √† efici√™ncia das narrativas dos autores. √Äs vezes, me incomoda: estou lendo e percebo que o livro est√° cheio de gordura. Pra que isso? Sinto que √© quando falta a m√£o do editor cortando. √Č dif√≠cil para o pr√≥prio autor cortar. N√£o consegue cortar, o livro fica com barriga, sem ritmo. S√£o essas preocupa√ß√Ķes que eu trouxe do cinema e da televis√£o: ritmo, efici√™ncia. Foi muito positiva essa temporada no audiovisual.‚ÄĘ Processo criativo 1 Acabei um livro novo, e esse processo sempre se repete. Cada livro tem uma escritura, uma pesquisa, at√© uma rotina de trabalho diferentes. Mas o que se mant√©m sempre √© o nascimento do livro. √Č sempre da mesma maneira. Estou no branco, sem saber o que vou fazer, n√£o sei o que quero fazer no pr√≥ximo projeto, a√≠ come√ßo a me interessar por alguma coisa espec√≠fica. Geralmente √© um tema. Sempre que estou lendo o jornal, escolhendo novos livros que vou ler, estou sempre privilegiando uma tem√°tica. Come√ßo a mergulhar numa tem√°tica. Antes ainda de perceber que aquilo vai se transformar num livro. Na verdade, come√ßo a pesquisar sem saber que estou pesquisando. E, de repente, penso: ‚ÄúEsse √© um material que posso usar em um romance‚ÄĚ. Assim que tenho um tema, a primeira coisa que penso √© em quem vai contar a hist√≥ria. Quem s√£o os personagens que podem incorporar a tem√°tica. √Č sempre nessa sequ√™ncia: primeiro a tem√°tica, depois personagens, a√≠ come√ßo a pensar em uma hist√≥ria mesmo. Come√ßo a fabular. Mas em uma fase muito experimental, sem saber at√© se vou seguir adiante com isso.‚Äʬ†Processo criativo 2 De repente, tenho um ovo. Tenho esses personagens de que gosto, essa tem√°tica, a√≠ come√ßo a fase de pesquisa. Vou atr√°s de amigos que sei que podem me dar uma bibliografia, vou atr√°s de profissionais que trabalham com essa tem√°tica que quero conhecer. Geralmente √© um assunto que desconhe√ßo totalmente. Isso dura uma m√©dia de um ano, mais ou menos. S√≥ de leituras, anota√ß√Ķes. Vou preenchendo um monte de caderninhos, at√© de conversas que tenho com pessoas que me interessam. Muita anota√ß√£o de coisas que vejo, pessoas que conhe√ßo, trejeitos delas, frases que me falam. Vai tudo pra esse caderninho.‚Äʬ†Ladr√£o e espi√£o Todo escritor √© um bom ladr√£o. Mais do que ladr√£o, todo escritor √© um espi√£o. Ele est√° sempre olhando pelo buraco de fechadura. √Č imposs√≠vel voc√™ deixar de ser espi√£o sendo escritor. O tempo todo voc√™ fica com a maquininha de espi√£o ligada.
Patricia Melo Foto: Adriano Heitmann
‚ÄúMais do que ladr√£o, todo escritor √© um espi√£o.‚ÄĚ
‚Äʬ†Sopro das musas Tem muita ang√ļstia na escritura. O que √© a escritura? Um momento de busca. Voc√™ est√° buscando uma s√©rie de coisas. Uma estrutura, um personagem. Parte da cria√ß√£o acontece fora da mesa de trabalho. Mas uma parte muito importante acontece quando se est√° escrevendo. √Č importante que aconte√ßa quando se est√° escrevendo. Se voc√™ decide tudo antes, sobra muito pouco espa√ßo para a improvisa√ß√£o. Para as musas. √Č na hora que voc√™ senta para escrever que h√° a possibilidade de se relacionar com as musas, receber um sopro delas.‚ÄĘ Viv√™ncia inteira Tem ang√ļstia na hora que voc√™ est√° escrevendo, √† procura de algo que n√£o se sabe o que √© ainda. Voc√™ vai achando, perdendo. Acha e perde de novo, tenta e d√° errado. Mas h√° momentos de muito prazer. Momentos que dou risada com achados para os personagens, com di√°logos. √Č realmente uma viv√™ncia inteira. Tem prazer. Tem tormenta. Dificuldade. Facilidade. Alegria. Tristeza. Desespero. Momentos de largar o livro, ‚Äútalvez eu n√£o v√° conseguir fazer isso‚ÄĚ. Tem tudo isso, em todos os livros. Sempre sinto que √© o primeiro. As dificuldades s√£o sempre as mesmas.‚ÄĘ Brasil e viol√™ncia √Č muito dif√≠cil voc√™ entender o Brasil de hoje sem entender a viol√™ncia. O Brasil √© um pa√≠s muito violento. Na Europa, quando voc√™ fala que o Brasil tem 60 mil homic√≠dios por ano as pessoas n√£o acreditam. √Č uma guerra civil. A gente mata mais do que determinados pa√≠ses em guerra. Essa sempre foi uma quest√£o estrutural na minha literatura. Sempre me interessei pelo fen√īmeno da viol√™ncia. Sempre tentei entender por que o Brasil se transformou em um pa√≠s t√£o violento. H√° muitas respostas para isso. Essas respostas n√£o s√£o conclusivas, s√£o muito abertas e est√£o em todos os livros que tenho escrito.‚ÄĘ Resist√™ncia Cada vez mais, n√£o sei se pelo fato de eu estar vivendo fora do Brasil, ou se pelo fato de o Brasil viver um momento t√£o triste, t√£o infeliz da nossa hist√≥ria, com esse governo t√£o desacreditado, com essa desestrutura√ß√£o em todo sistema de educa√ß√£o, esse desmonte da cultura… N√£o sei se √© por conta de tudo isso, por conta dessa tristeza que √© hoje ver o Brasil, ler sobre o Brasil, mas estou cada vez mais conectada ao pa√≠s. Cada vez mais direcionando minha literatura para quest√Ķes que acho importantes no Brasil de hoje. N√£o tinha isso muito articulado dentro de mim nos livros anteriores. Hoje, o Brasil √© uma quest√£o importante na minha literatura. Quero me reportar a esse Brasil. Talvez porque neste momento t√£o desesperador a arte possa ser uma resist√™ncia. Uma esp√©cie de nega√ß√£o disso, algo como ‚Äún√£o √© poss√≠vel que seja assim‚ÄĚ. Me sinto muito motivada a usar minha literatura como resist√™ncia. Como uma forma de dizer: ‚ÄúChega disso. N√£o aguento mais esse Brasil violento, esse Brasil homof√≥bico, esse Brasil mis√≥gino, esse Brasil com um presidente genocida, com esse projeto fascista‚ÄĚ. Imagino que muitos escritores est√£o sentindo essa barra pesada e usando a literatura como espa√ßo de resist√™ncia. O Brasil √© cada vez mais importante na minha literatura.‚ÄĘ Percep√ß√£o de fora Morar fora do Brasil agu√ßou minha capacidade de enxergar os problemas do pa√≠s. Sabe por qu√™? O volume de viol√™ncia que se √© obrigado a engolir diariamente no Brasil √© t√£o grande que, se voc√™ n√£o encontra uma maneira de se defender, enlouquece. Voc√™ acaba ficando anestesiado para essa viol√™ncia. Em um lugar como a Su√≠√ßa, que tem uma estrutura social muito equilibrada, muito mais justa que a do Brasil, voc√™ n√£o v√™ pessoas morando na rua. Morrendo de fome. N√£o se veem essas cenas que a gente v√™ no Brasil, como um caminh√£o cheio de ossos e as pessoas se jogando dentro desse caminh√£o… Isso √© impens√°vel. Essa viol√™ncia t√£o acachapante √© intoler√°vel. Dentro da realidade do Brasil, voc√™ acaba se anestesiando para tolerar o grau de sofrimento. Voc√™ v√™ a multid√£o de pessoas que foram jogadas na rua, com fome, que ficam mexendo no lixo pra conseguir comer… Isso fica intoler√°vel quando voc√™ salta fora dessa realidade e passa a olh√°-la de fora. O ser humano n√£o √© para morrer de fome. Para ser abatido em experi√™ncias m√©dicas. A raz√£o da vida √© o ser humano conseguir viver plenamente, ter a possibilidade de viver dignamente.‚ÄĘ Governo atual O Brasil ficou mais violento com esse governo. No quesito viol√™ncia contra a mulher, no que diz respeito √† viol√™ncia dom√©stica e aos casos de feminic√≠dio, houve um aumento de quase 10%. √Č um aumento consider√°vel. Foi esse Brasil violento, onde h√° t√£o pouca justi√ßa e h√° tanta impunidade, que acabou elegendo uma figura com esse discurso de ‚Äúvamos fazer justi√ßa com as pr√≥prias m√£os‚ÄĚ, com esse discurso de intoler√Ęncia.‚ÄĘ Bolsonarismo Quando escrevi Gog Magog, em 2016-17, era como se percebesse que o brasileiro tinha uma esp√©cie de grande prazer em ver os linchamentos que aconteciam, por exemplo, no espa√ßo da web. Esses linchamentos morais que come√ßaram a ser muito frequentes na internet. Era como se isso fosse uma forma de voc√™ compensar um pa√≠s onde h√° tanta impunidade. Como se a ideia de puni√ß√£o fosse uma esp√©cie de desejo de consumo. Objeto de desejo. A impunidade √© t√£o grande que, quando voc√™ pensa em puni√ß√£o, seja ela com as pr√≥prias m√£os ou a que acontece na web, ela acaba dando √†quela pessoa que est√° cansada de ver viol√™ncia, cansada de ver impunidade, uma sensa√ß√£o de al√≠vio. O Bolsonaro funcionou um pouco como isso. Em um pa√≠s muito violento, o cara vem e fala: ‚ÄúOlha, vamos ser intolerantes? A gente √© racista mesmo, √© homof√≥bico mesmo‚ÄĚ. Como se ele acirrasse essas situa√ß√Ķes. As pessoas achavam at√© engra√ßado, n√©? Ele era meio que um palha√ßo, com esse discurso despropositado. Foi exatamente essa viol√™ncia do pa√≠s que fez uma figura como o Bolsonaro ‚ÄĒ despreparada, mis√≥gina, racista, com discurso de viol√™ncia ‚ÄĒ chegar √† presid√™ncia. Ele √© esse ‚Äúvingador‚ÄĚ. Tem essa coisa de justiceiro, sabe? Com figuras da mil√≠cia. A gente sabe que tem ali toda essa cultura da mil√≠cia, dos matadores de Marielle. √Č assim.
‚Äú√Č muito dif√≠cil voc√™ entender o Brasil de hoje sem entender a viol√™ncia.‚ÄĚ
‚ÄĘ Mulheres empilhadas 1 Quando comecei a pensar em fazer o Mulheres empilhadas, tinha um projeto est√©tico. Queria que o livro fosse uma amplia√ß√£o dessa experi√™ncia que a gente tem fragmentada: voc√™ abre o jornal e l√™ ‚Äúmulher √© atirada da janela pelo namorado‚ÄĚ, ‚Äúmulher √© encontrada queimada dentro do carro; suspeito √© o noivo‚ÄĚ. Existem essas p√≠lulas de feminic√≠dio na leitura de jornal, nos momentos que se assiste ao telejornal, na viv√™ncia, na comunidade, uma amiga que apanhou do namorado. Queria juntar essas not√≠cias que est√£o todas fragmentadas e fazer uma coisa que fosse como uma punhalada, uma facada. Tinha esse projeto est√©tico. Pensava em como iria espetar o leitor. At√© na busca das palavras, queria palavras pontudas. Queria um estilo meio facada.‚ÄĘ Mulheres empilhadas 2 Ao mesmo tempo em que ele √© um projeto est√©tico, √© claro que se tornou pol√≠tico ‚ÄĒ conforme fui pesquisando e vendo a dimens√£o do nosso problema. Quando comecei a escrever o livro, o Brasil tinha 10 mil casos de feminic√≠dio estacionados nas diferentes cortes. Voc√™ come√ßa a ver o drama social, o drama humano, porque quando a gente fala de feminic√≠dio, sempre pensa nas v√≠timas, nas mulheres que morreram, nessas mulheres empilhadas. Mas, na hora que voc√™ come√ßa a pesquisar, percebe que esse n√ļmero √© muito maior, porque cada caso de feminic√≠dio tem um n√ļcleo de v√≠timas enorme. S√£o gera√ß√Ķes de v√≠timas. O n√ļmero de v√≠timas, na √≥rbita de um feminic√≠dio, √© enorme. √Č uma dor que se prolonga por gera√ß√Ķes. Voc√™ come√ßa a ter toda essa informa√ß√£o nas pesquisas, ent√£o √© claro que isso te pega racionalmente, emocionalmente, e se transforma em um projeto pol√≠tico. Em um ato de resist√™ncia. N√£o quis em nenhum momento ser panflet√°ria, mas quis sim ser pol√≠tica. Quis berrar um problema na cara das pessoas. N√£o sei se consegui, mas minha inten√ß√£o foi essa.‚Äʬ†Tabu Sinto que as pessoas me confirmam um tabu: ‚ÄúResisti para ler o livro [Mulheres empilhadas] porque, no fundo, n√£o quero falar sobre isso. N√£o quero discutir essa tem√°tica‚ÄĚ. √Č uma situa√ß√£o meio paradoxal. Tem sempre muito sil√™ncio em volta da morte de uma mulher. Primeiro, ela pr√≥pria n√£o pode falar sobre a morte dela. J√° foi. Depois, a fam√≠lia n√£o quer falar. Porque √© um tabu. √Č, tamb√©m, um monstro que est√° dormindo. Falar sobre esse assunto √© trazer √† tona uma dor que voc√™ n√£o aguenta sentir. Depois, a sociedade n√£o fala porque √© um assunto desconfort√°vel. Cheio de pontas desagrad√°veis. Senti, quando publiquei o livro, que mexi a√≠. As pessoas n√£o querem falar sobre o assunto, √© desagrad√°vel. Resolver um problema dessa dimens√£o passa, sobretudo, por debater profundamente essa quest√£o da viol√™ncia contra a mulher.‚ÄĘ Certezas iniciais S√≥ come√ßo um livro quando sei como vai acabar. Sei o come√ßo e sei o fim. Nunca mudei. Pode ser que no futuro aconte√ßa. Em todos os livros que escrevi at√© agora, a partida e a chegada eu sabia. O resto pode ficar um pouco sem saber, vai se desenvolvendo. Mas esses dois pontos acho importante de o ficcionista dominar, acho que isso d√° um norte. No meu caso, pelo menos.‚ÄĘ Vingan√ßa No Mulheres empilhadas, tinha a quest√£o da realidade que eu queria trabalhar. Mas queria, tamb√©m, que houvesse espa√ßo para a vingan√ßa. A vingan√ßa n√£o poderia ser no plano da realidade, porque achava que, dessa forma, se a protagonista tomasse consci√™ncia da viol√™ncia e fosse como um matador de saias, como a personagem da Uma Thurman no filme do Tarantino [Kill Bill], a√≠ estaria transformando essa mulher em um assassino do mesmo tipo que mata as mulheres. Ent√£o, queria que a viol√™ncia fosse uma f√°bula. Quase que um canal para extravasar, uma sublima√ß√£o dessa viol√™ncia. Desse desejo de vingan√ßa. Uma sublima√ß√£o do desejo de vingan√ßa. A√≠, as coisas foram se juntando na pesquisa. Queria que acontecesse no Acre, porque o Acre me dava v√°rios tipos de mulheres: a da floresta, dos povos ribeirinhos, das comunidades ind√≠genas, da comunidade rural. Uma coisa foi levando a outra, a√≠ consegui criar ‚ÄĒ buscando nas pr√≥prias lendas amaz√īnicas ‚ÄĒ uma realidade imagin√°ria de guerreiras vingadoras que saem atr√°s dos homens que escapam impunes dos tribunais e fazem rituais de canibalismo com eles. Elas se vingam, matam, se divertem muito com os atos. Era uma estrutura que permitia, tamb√©m, uma esp√©cie de contrapeso √† viol√™ncia. Um olhar mais bem-humorado. O contrapeso da realidade. Fiquei muito feliz de conseguir. Foi uma matem√°tica. No come√ßo, estava com muita dificuldade de estruturar o romance. Precisei de uma estrutura tripartida para dar conta de tudo isso.
¬†‚ÄúO que acho interessante, na vida do escritor, √© justamente a liberdade.‚ÄĚ
‚ÄĘ Lugar de fala Lugar de fala significa empobrecer a literatura. A literatura √© um espa√ßo de liberdade, n√£o pode haver esse tipo de preocupa√ß√£o. O que significa ter lugar de fala na literatura? Que s√≥ posso escrever sobre o que vivo? S√≥ sobre a minha experi√™ncia? Isso √© de uma pobreza… √Č como se voc√™ colocasse toda sua imagina√ß√£o numa caixinha. ‚ÄúTem que ser assim agora, porque tem que ter o lugar de fala. Voc√™ n√£o tem autoridade pra falar isso…‚ÄĚ Eu, como ficcionista, tenho autoridade para falar sobre o que quiser. Assim como os cr√≠ticos t√™m liberdade para odiar meu livro e achar que fiz muito mal. Que n√£o conven√ßo. Que os personagens que escrevi n√£o t√™m densidade. Mas tenho que ter essa liberdade. Literatura e lugar de fala s√£o duas coisas incompat√≠veis. N√£o dou a menor bola para essa discuss√£o no √Ęmbito da literatura. N√£o gasto nem tempo pensando nisso.‚ÄĘ Leitora experiente Com o tempo, as exig√™ncias enquanto leitora mudam. Vou fazer 60 anos, n√£o tenho mais todo tempo do mundo. Sempre gostei muito de jovens autores, gosto ainda, mas hoje tento correr atr√°s dos cl√°ssicos que ainda n√£o li. Neste momento, estou lendo Berlin Alexanderplatz, do Alfred D√∂blin. √Č um livro, na minha opini√£o, t√£o importante quanto Ulysses, do James Joyce. Ele desestrutura e reinventa o estilo na l√≠ngua alem√£ da mesma maneira que C√©line fez no franc√™s e o Joyce, no ingl√™s. Hoje, minha preocupa√ß√£o √© esta: o que ainda n√£o li, que √© c√Ęnone? N√£o quero morrer sem ler essas coisas. N√£o quero ir embora sem ter lido esses livros. H√° dez anos, ou 20, evidentemente estava muito mais interessada em novidades. Agora, tem uns escritores que n√£o consigo deixar de ler nunca. Toda vez que sai um Don DeLillo, leio. Toda vez que sai um Coetzee, leio. Tem autores que acompanho. Na √©poca em que o Philip Roth estava vivo, tamb√©m acompanhava. Ent√£o tem os escritores que acompanho, os c√Ęnones que n√£o li e fico indo atr√°s. Por exemplo, n√£o tinha lido Guerra e paz. Fui ler no ano passado. Depois de ler, voc√™ diz: ‚ÄúBom, passar por essa vida sem ler Guerra e paz √© s√≥ deixar de lado o principal‚ÄĚ. Hoje em dia, ent√£o, minha preocupa√ß√£o tem sido ir atr√°s desses buracos na minha forma√ß√£o.
Paiol Liter√°rio

O projeto Paiol Liter√°rio, realizado pelo Rascunho desde 2006 em Curitiba, j√° contou com a participa√ß√£o de mais de 70 autores brasileiros. √Č um grande acervo sobre a literatura brasileira contempor√Ęnea. Os encontros s√£o iniciados sempre com a pergunta: ‚ÄúQual a import√Ęncia da literatura na vida cotidiana das pessoas? E por que ler?‚ÄĚ.

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