šŸ”“ Poesia marginal em livro e exposição

12/09/2013

Se a permanência do livro é volta e meia questionada, e hÔ quem diga que a auto-publicação é a nova revolução na Ôrea, olhar para as publicações da Geração Mimeógrafo ou Marginal pode contribuir para se pensar esses movimentos atuais.

A exposiçãoĀ Poesia marginal – Palavra e livro, em cartaz no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro atĆ© 10 de novembro deste ano, Ć© um bom comeƧo. Com curadoria do poeta EucanaĆ£ Ferraz, ela reĆŗne cerca de sessentaĀ publicaƧƵes, sobretudo livros da dĆ©cada de 1970, Ć©poca em que a poesia marginal teve sua grande expressĆ£o.

PƔgina interna de Brasileia desvairada (1979), de Nicolas Behr
PƔgina interna de Brasileia desvairada (1979), de Nicolas Behr

Como a alcunha jÔ sugere, essa poesia ficava à margem das editoras: marcada pela incorporação de elementos que iam desde a cultura pop, o futebol e as artes plÔsticas ao teatro, ela rompia com os limites tradicionais do gênero, usando versos insolentes e a fala cotidiana.

Para fazer circular e viabilizar a edição de sua poesia, Ana Cristina Cesar, Cacaso, Chico Alvim, Chacal, Zuca Sardan e vÔrios outros inventavam e trocavam métodos: mimeógrafo; estêncil; xerox; ofsete; grampos em vez de costura; envelopes e sacos em vez de encadernação; papéis de baixo preço e considerados toscos; impressão em, no mÔximo, duas cores; carimbos.

Mais do que ser a forma possĆ­vel, o livro entĆ£o construĆ­do tinha relação direta com a poesia que se fazia Ć  Ć©poca: ā€œ(…) opunha-se de cara ao livro caro, ao objeto requintado da alta cultura, Ć s soluƧƵes caras do esnobe mercado editorial. O livro barato era um objeto polĆ­tico: antiburguĆŖsā€, explica EucanaĆ£ Ferraz, curador da exposição.

Ilustração de Zuca Sardan para Ximerix
Ilustração de Zuca Sardan para Ximerix

Apesar de seu ā€œaugeā€ ter acontecido nos anos 1970, pode-se pensar em poetas como Zuca Sardan (que recentemente lanƧouĀ XimerixĀ pela Cosac Naify), que jĆ” tinham as principais caracterĆ­sticas da poesia marginal na dĆ©cada de 1950.

Ximerix, aliĆ”s, faz pensar se a poesia marginal ainda nĆ£o estaria aĆ­, ao guardar tanto elementos caros ao autor — como o humor que faz o leitor rir de personagens como condes, freiras e o comunismo, atĆ© se dar conta de que ri de si mesmo — quanto, no aspecto grĆ”fico e plĆ”stico, as caracterĆ­sticas dos panfletos que Sardan produzia hĆ” mais de quarenta anos. TambĆ©mĀ Nicolas Behr, que publicou seus Ćŗltimos livros pela LĆ­ngua Geral, ainda encontra em BrasĆ­lia sua musa/sĆ”tira inspiradora e conserva a verve quase de guerrilha contra determinados valores sociais, como se notou de sua participação na Ćŗltima Flip.

Capa do catÔlogo da exposição Poesia marginal
Capa do catÔlogo da exposição Poesia marginal

A exposição sobre poesia marginal fica registrada tambĆ©m em livro. O catĆ”logo traz artigo deĀ Frederico Coelho; texto do curador EucanaĆ£ Ferraz; portfólio das obras expostas; entrevista ā€œPoesia hojeā€, publicada em 1976, na revistaĀ JosĆ©,Ā com Heloisa Buarque de Hollanda, Ana Cristina Cesar, Geraldo Eduardo Carneiro e Eudoro Augusto; entrevista inĆ©dita com Heloisa Buarque de Hollanda e os poetas Chico Alvim, Chacal e Charles, mediada por EucanaĆ£ Ferraz, com a participação do professor Eduardo Coelho; cronologia; e breve bibliografia.

AlĆ©m de retomar um importante movimento na poesia brasileira, Poesia marginal – Palavra e livroĀ deixa registrado muitos trabalhos que Ć  Ć©poca nĆ£o encontravam a distribuição e as tiragens de hoje, sendo atualmente rarĆ­ssimos; e mostra um posicionamento frente Ć  literatura e ao mundo extremamente atual.

SERVIƇO

Poesia marginal – Palavra e livro
Visitação: de 10 de agosto a 10 de novembro de 2013
De terƧa a domingo, das 11h Ơs 20h
Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro (Rua Marquês de São Vicente, 476, GÔvea)
Tel.: (21) 3284-7400/ (21) 3206-2500
Entrada franca – Classificação livre

Rascunho