Nesta quinta-feira (3) foram apresentados os resultados da pesquisa O Brasil que LĂŞ, dedicada a mapear iniciativas em benefĂcio da leitura em todo o paĂs e a traçar o perfil dos mediadores de leitura, sustentabilidade, tecnologias empregadas e pĂşblico.
O levantamento foi desenhado em 2019 e aplicado em 2020, de forma remota — em consequência dos protocolos sanitários impostos pela Covid-19 —, pelo Instituto Interdisciplinar de Leitura e pela Cátedra Unesco de Leitura da PUC-Rio em conjunto com o Itaú Cultural, com consultoria da JCastilho.
Com raros casos de apoio pĂşblico de alguns estados e municĂpios e nenhuma atenção federal do Plano Nacional de Livro e da Leitura (PNLL), a maioria dos projetos procuram se manter por articulações em rede.
Atendem 220 mil pessoas entre mulheres, pessoas com deficiĂŞncia, afrodescendentes, indĂgenas, refugiados, encarcerados e outros grupos. Em pelo menos 39% dos casos, as iniciativas sĂŁo conduzidas por voluntários que utilizam recursos prĂłprios para garantir a sua existĂŞncia.
Perfil
O estudo teve como objetivo mapear os projetos de formação de leitores no paĂs. No total, foram registradas 382 iniciativas com respostas completas em um universo de cerca de mil recebidas.
Os pesquisadores estranharam que projetos conhecidos e de vários anos de execução não haviam respondido o questionário. Telefonemas aos responsáveis esclareceram que acabaram desistindo por não ter recursos para continuar sem apoio.
“Muitos chegaram ao limite da resiliĂŞncia, desanimados e sufocados pela contundĂŞncia cruel de um governo que nĂŁo apenas abandonou as polĂticas pĂşblicas de formação de leitores desde 2016, mas que deliberadamente as sufocava, as destruĂa desde janeiro de 2019”, diz JosĂ© Castilho, colunista do Rascunho, professor, consultor de livro e leitura que colaborou na pesquisa.
Os projetos registrados sĂŁo oriundos de todos os estados brasileiros, com exceção de Acre, Alagoas e Sergipe, se distribuem pelas capitais e interiores e atendem Ă s mais diversas pessoas. Estes mediadores atuam em lugares e com pĂşblicos diversos, em um esforço contĂnuo para criar e desenvolver planos de leitura no paĂs.
Pelo menos 74% desses empreendimentos são liderados por mulheres na busca de transpor barreiras socioeconômicas e contemplar, principalmente, população desassistida.
Em sua maioria, as atividades sĂŁo desenvolvidas por pessoas fĂsicas, em um total de 42,15%, e por bibliotecas, 34,03%. Destes mediadores, 60,21% sĂŁo professores; 53,14% contadores de histĂłrias; 42,41% fazem mediação em eventos culturais, e 31,41% sĂŁo bibliotecários.
Quase a metade, 44,76%, atuam voluntariamente e 39% utilizam recursos prĂłprios para levar adiante os seus projetos. Por um lado, 50,79% deles tĂŞm qualificação para a tarefa que desempenham, por outro, 9,42% nĂŁo tĂŞm formação especĂfica.
Boa parte dos projetos se estabeleceu em instituições — 44,2% em bibliotecas, 42,75% em escolas públicas. Porém, uma significativa parcela atua em espaços não-formais de educação como ruas, praças e hospitais.
Tecnologia
Já o uso da tecnologia digital por esses projetos foi impulsionado pela necessidade de vencer o isolamento social adotado durante a pandemia de Covid-19. O Brasil que LĂŞ detectou que 79% dos projetos analisados trabalham com, pelo menos, uma mĂdia social.
Divulgação de atividades e/ou obras literárias, videoconferências e eventos virtuais estão entre as atividades mais realizadas. O Facebook é a rede com maior popularidade entre os projetos de leitura, com cerca de 62% presentes nessa plataforma. Em seguida, o Instagram, com, aproximadamente 60% de projetos, e o YouTube, com 37%.
Populariza-se, também, o uso de Whatsapp: 57% dos projetos utilizam a plataforma, sendo que destes, 30% são projetos totalmente desenvolvidos no próprio aplicativo.
Alcance
Se 37,08% deles atingem todos os estados do paĂs, o maior percentual de atuação se dá nas regiões Sul e Sudeste, confirmando a hipĂłtese de que as condições de acesso a plataformas virtuais e Ă prĂłpria internet, sĂŁo mais favoráveis nessas regiões: 38,20% chegam ao Rio de Janeiro e a SĂŁo Paulo; 25,84% a Minas Gerais; 15,73% ao Rio Grande do Sul; 10,11% ao EspĂrito Santo; 7,87% a Santa Catarina e 6,74% ao Paraná.
O Sudeste concentra 47,81% deles. O Sul representa 19,84% dos projetos. O estado com maior percentual é Santa Catarina (10,32%). Na sequência está o Nordeste, com 13,49% das iniciativas, destacando-se o estado da Bahia com 7,14%.
Em quarto lugar, o Norte agrega 10,04% e o estado com maior visibilidade é Tocantins — 3,17%. O Centro-Oeste aparece em quinto lugar com 3,7%, destaque para Goiás com 2,12%.
Nos dias 8 e 9 de março (terça-feira e quarta-feira), das 14h30 às 16h, o Itaú Cultural promove o webnário Balanços e Perspectivas da Pesquisa O Brasil que Lê, baseado nos resultados da pesquisa. A transmissão será feita pela página da instituição no YouTube.