Em As margens e o ditado, a misteriosa escritora italiana Elena Ferrante fala sobre a própria jornada como leitora e escritora, além de oferecer um olhar sobre as origens de seus caminhos literários. O livro reúne três palestras, interpretadas pela atriz Manuela Mandracchia, por ocasião das Umberto Eco Lectures, e um ensaio composto para o encerramento da Conferência de Italianistas sobre Dante, lido pela estudiosa e crítica Tiziana de Rogatis.
É dos antigos cadernos de escola primária que a best-seller da “série napolitana” resgata suas primeiras lembranças de escrita. Naquele período, como toda criança, ela foi ensinada a escrever respeitando o espaço delimitado pelas linhas pretas horizontais e pelas duas margens vermelhas verticais ─ uma à esquerda e outra à direita ─ de cada página.
Não demorou para o seu gosto por organização ser desafiado pelo ímpeto de dissolver as margens que aprisionam a escrita e a própria natureza feminina. Nos textos, não faltam menções a algumas das principais referências literárias de Ferrante, em especial mulheres, como Virginia Woolf, Emily Dickinson e Gertrude Stein. Ela também cita livros que a inspiraram na hora de criar algumas das protagonistas que marcaram sua obra, além de contar como criou e quais as motivações de suas emblemáticas personagens Lenù e Lila, deixando pistas do quanto as duas incorporam o próprio dilema da literatura para a autora.
Além de discorrer sobre suas lutas e sua formação intelectual, Ferrante descreve os perigos do que ela chama de “língua ruim” e sugere maneiras pelas quais a tradição há muito excluiu a voz das mulheres. Partindo de suas brilhantes reflexões a respeito dos trabalhos de autoras notáveis, ela propõe, então, uma fusão do talento feminino.