A serviço da história

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A vida cotidiana está repleta de casos e acontecimentos que, bem tratados, dariam ótimos romances. Se tais fatos estão quase no esquecimento e são resgatados por algum escritor de talento, eles voltam à vida com ainda mais força, tornando-se obras que iluminam um pedaço de nossa história. Assim é Tragédia da Rua da Praia, do jornalista gaúcho Rafael Guimaraens. Mesmo que não fosse o relato de um fato real, já seria um grande livro.

A história é verídica. Em setembro de 1911 um grupo de quatro estrangeiros roubam uma casa de câmbio na Rua da Praia, no centro de Porto Alegre. Armados, os bandidos atiram sem querer no atendente da loja, o que dá início a uma verdadeira confusão. Na fuga, os bandidos não encontram resistência, pois a polícia de Porto Alegre à época não estava preparada para lidar com assaltos à mão armada. A população segue à distância os bandidos, até que eles conseguem desaparecer perto de Gravataí, cidade vizinha. Arma-se então uma perseguição gigantesca, com cerca de 200 policiais e soldados, que devem resgatar a honra da polícia porto-alegrense. Os bandidos são encontrados praticamente fuzilados com uma carga de artilharia desproporcional à sua capacidade de reação, e seus cadáveres são expostos em praça pública. Um italiano, dono do teatro Colyseu, tem a idéia de fazer um filme sobre o roubo, e o produz em dez dias, misturando cenas verdadeiras com imagens feitas por atores. Sucesso de bilheteria.

O grande mérito de Guimaraens é contar a história com todos os detalhes da época. O roubo é apenas o ponto de partida para uma reconstrução minuciosa da Porto Alegre de 1911. Para ilustrar a cena política, Guimaraens mostra os positivistas herdeiros de Júlio de Castilhos governando o estado, com sua crença na ordem e no progresso, mas com todos os vícios dos políticos brasileiros: o compadrio, o favorecimento aos seus, as tentativas de controlar a imprensa e a ineficiência na prestação de serviços. Em oposição a eles, os federalistas, sequiosos de explorar as falhas do governo usando o crime para mostrar que a polícia não funciona, que o governo é inepto e que só os amigos dos dirigentes é quem tem as benesses do poder.

Para ilustrar a sociedade da época, Guimaraens mostra como eram os encontros sociais, como as pessoas faziam o footing pelas ruas do centro, a divisão entre a aristocracia e a burguesia dominante e os operários, então sob grande influência anarquista, vinda sobretudo dos estrangeiros que encontravam guarida no Brasil. Em especial, Guimaraens mostra como a polícia já era sectarista ao eleger os judeus como alvo principal de suas investigações. Muitos foram presos sem justificativa legal, e esses judeus temiam que um novo pogrom estivesse acontecendo, dessa vez na terra que eles haviam escolhido para reconstruir suas vidas. Há também menções à economia da época, e várias abordagens da imprensa politicamente ativa daqueles tempos.

Guimaraens tem um texto fluido e a trama é cativante. Mesmo que os bandidos sejam capturados à altura da página 200 do livro, não conseguimos parar de ler até o desfecho final do crime, que como o próprio autor diz, foi esquecido por todos, como se nunca tivesse existido. Talvez apenas o autor tenha exagerado na reconstrução um pouco rebuscada de alguns diálogos, mas esse é um detalhe que não compromete em nada o livro. Até porque os diálogos da elite daquela época deviam ser rebuscados mesmo, cheios de rococós e adereços desnecessários. Esse cuidado torna o trabalho ainda mais consistente, e faz desaparecer a linha entre ficção e realidade. No fim, pouco importa também o que é verdade ou não, a história é sedutora.

Tragédia da Rua da Praia foi lançado originalmente em 2005, quando ganhou o prêmio O Sul, Nacional e os Livros como melhor livro de ficção. Nessa nova edição da Libretos, além da capa renovada e da revisão de acordo com a reforma ortográfica, há a inclusão de diversas imagens da época, como reproduções das capas dos jornais relatando o roubo, reclames de lojas e fotos dos principais personagens. É um livro delicioso, que pode ser ainda melhor aproveitado por aqueles que conhecem Porto Alegre e podem imaginar as cenas do romance se desenrolando nas ruas atuais.

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