A resistência pelo choro

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Tanto a lenda quanto a parábola costumam ser subestimadas, relegadas ao universo infantil na maioria das vezes, sem compromisso com a realidade. Operam no terreno da fantasia, do absurdo. Infelizmente, essa é a idéia que vigora. No entanto, um autor chinês, Su Tong, ao reescrever a lenda milenar de Binu, em A mulher que chora, criou uma parábola que nos permite reflexões acerca do amor, do poder, do individualismo e da resistência.

Na história original, as lágrimas de uma mulher fazem desmoronar a Grande Muralha da China, e o otimismo vence a tristeza. O mesmo não acontece em A mulher que chora: tristeza, dor, humilhação e uma pitada de Kafka dão o tom à narrativa de Su Tong. Binu, a protagonista, vive na Aldeia do Pêssego, lugar onde as mulheres são proibidas de chorar. Seu marido, Qiliang, desaparece de repente, recrutado para trabalhar na construção da Muralha, canteiro de obras nada tranqüilo. Consta que a empreitada teria ocupado — e consumido — algo em torno de duzentos e cinqüenta mil pessoas.

Pois é para lá que levam Qiliang. Binu, assustada com os rigores do inverno que se aproxima, resolve levar roupas apropriadas ao marido que trabalha no trecho batizado de Montanha da Grande Andorinha. A montanha dista mil li da Aldeia do Pêssego, e a mulher parte carregando uma trouxa na cabeça.

Se eu tiver um cavalo, irei a cavalo. Se tiver um jumento, irei montada nele. Se não tiver nenhum dos dois, irei a pé. Um animal é capaz de percorrer essa distância. Nós não somos superiores aos animais? Quem disse que eu não posso andar mil li?

Assim que Binu parte, a história se enche de honra, piedade, sentimentalismo, fé, idealismo desmedido e obsessão. São valores eternos, pode-se argumentar, mas todos, numa mesma taça, tornam a bebida ácida em demasia. Um exemplo: o recrutamento para trabalhar na construção da Grande Muralha trazia, implícito, um passaporte para a eternidade. Fugir era praticamente impossível, mas um carroceiro conseguiu fazê-lo. Binu o encontrou e percebeu que lhe faltavam as mãos.

O carroceiro exibiu demoradamente os cotos sem mãos, primeiro o esquerdo, depois o direito. “Por que tanto interesse nisto aqui? Está pensando em se casar comigo?” Riu, ameaçador. “Quem cortou? Adivinhe. Vou lhe dizer uma coisa, pode tentar até o fim dos tempos, mas nunca vai adivinhar. Eu mesmo fiz isso comigo para evitar que me levassem para a Montanha da Grande Andorinha! Primeiro cortei a mão esquerda, mas o convocador disse que não ter a mão esquerda não fazia diferença, já que eu ainda podia carregar pedras com a direita. Então pedi ajuda a meu pai para cortar a direita.”

São personagens perdidos entre a miséria, a opressão, a fome e toda sorte de desgraças. Perdem a guerra da sobrevivência para eles mesmos, sufocam a liberdade em seu interior.

Binu tem um papel bem definido na trama: sofrer. Sofre sozinha. Não encontra a menor solidariedade ao longo das 256 páginas de A mulher que chora. E é justamente esse choro que permitirá a Binu um certo alívio de seu sofrimento. Às mulheres da Aldeia do Pêssego não é permitido chorar pelos olhos; aprenderam a chorar pelos pés, seios, cabelos, mãos. Suas lágrimas não são lágrimas quaisquer. São poderosas, capazes de curar doenças e mexer com a natureza.

Binu não pára, não descansa, decidida a levar as roupas de lã ao marido. Não dá importância aos avisos acerca da estupidez de sua missão. É sabido que o conformismo impede mudanças, mas determinados exageros chegam a beirar o grotesco. Os personagens de A mulher que chora respiram os ares do absurdo e da verdade. Paradoxal? Nem tanto. Os operários são recrutados sem explicações, sabem que trabalharão na construção da Muralha, mas não sabem ao certo onde, nem as razões de tal trabalho. Muitos morrerão. Não resistem, não podem fazê-lo. Uma mulher, porém, resiste. E resiste chorando.

Com uma potente lupa, o leitor perceberá em A mulher que chora uma amostra da mediocridade humana, das condições sociais e políticas da China daquela época, e das atrocidades que o poder costuma perpetrar, independentemente do cenário. Su Tong trabalhou no limite entre a dor e a tragédia.

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