A condição e o exercício que transtornaram a vida do Sr. Quijada

Conto de Ronaldo Monte
Ronaldo Monte, autor de “Memória do fogo”
01/08/2008

En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo vivía un hidalgo de los de lanza en astilero, adarga antigua, rocín flaco e galgo corredor. (….) En resolución, él se enfrascó tanto en su lectura, que se pasaban las noches leyendo de claro en claro, y los días de turbio en turbio, y así, del poco dormir e del mucho leer, se le secó el cerebro, de manera que vino a perder el juicio.

Herdara o sobrenome do pai espanhol que cansou de viver na pobreza fora das muralhas da cidade de Toledo e veio morrer de pobreza numa casa de vila no bairro de Jaguaribe. Foi a única herança que seu pai lhe deixou: o sobrenome de Quijada. Odiava que o chamassem pelo nome de Miguel, pois ninguém o pronunciava como gostava, com o “ele” final acentuado, como seu pai o chamava. Também não gostava quando abrasileiravam seu sobrenome, esquecendo de pronunciar o “rê” no lugar do “jota”. Antigamente reclamava, mas ninguém ligava. Afinal, quem iria saber como se pronunciava o nome de um contínuo de repartição pública estadual, de paletó puído e a barba sempre por fazer?

Pelo menos aqui, nestas páginas, vamos chamá-lo do jeito que gosta: Miguéll Quirrada. Mas vamos também respeitar a grafia original do seu nome, pois ele a preza muito: Miguel Quijada. É a única coisa na vida que o torna diferente da massa de contínuos que vagam invisíveis pelas repartições públicas municipais, estaduais e federais de qualquer lugar do mundo.

Miguel Quijada tinha um sonho. Possuir uma grande biblioteca, daquelas que as pessoas vêm de longe visitar, que os professores do bairro vêm pedir livros emprestados, que os vizinhos desdenham de pura inveja ou ignorância. Vivia à míngua, guardando cada centavo para gastar nos sebos ou nas prateleiras modestas reservadas nas livrarias às edições de bolso. Mas não se pense que comprava livros por vaidade. Lia cada um antes de acomodá-los na estante.

Quando a mãe morreu, ocupou o quarto dela com seus livros. Sem ninguém mais com quem se preocupar, passou a torrar com livros o que antes gastava com remédios. Sua biblioteca crescia a olhos vistos, agora acrescida de livros de edições recentes das grandes editoras, alguns até de encadernação em couro. Miguel Quijada amava sua biblioteca.

Acontece que livros não fazem café, não varrem a casa, não forram cama nem se deitam nela. Miguel Quijada quis uma mulher e a teve. Chamou para morar com ele uma vizinha solteirona, de nome Dulcinéia, que um dia ficou impressionada com sua biblioteca. Se gosta de livros, há de gostar de mim.

Dizem que algumas pessoas têm os olhos maiores que a boca. Não era o caso de Dulcinéia. Por mais que gostasse de livros, por mais que os devorasse com os olhos, seu estômago roncava, atrapalhando a concentração na leitura. Não teve dúvida. Pegou o exemplar d’O crime do Padre Amaro que acabara de ler e trocou por uns pacotes de bolacha de água e sal e um pouco de manteiga. Num domingo de manhã, em que foi procurar o exemplar das Edições de Ouro d’Os Lusíadas, Miguel Quijada notou a banguela na prateleira do lado da porta. Faltavam bem uns vinte livros. Interrogada, Dulcinéia fuzilou: livro não enche barriga de ninguém.

Miguel Quijada amava os livros. Mas não podia viver sem Duilcinéia. Muito menos impedir que ela vendesse os livros nas horas em que tinha de ir para o trabalho. Instalou-se então uma batalha cruenta. Miguel Quijada decidiu-se a reler todos os livros que ainda lhe restavam, antes que Dulcinéia os trocasse por bolachas. Varava as noites de olhos pregados naquelas páginas preciosas, se despedindo de uma em uma. A cada manhã, Dulcinéia entrava no quarto e levava para trocar por comida o livro que a mão do homem adormecido tentava proteger.

Um dia, ela entrou no quarto e encontrou Miguel Quijada sentado, de olhos abertos, apertando contra o peito um grosso volume de capa de couro verde, com o título impresso a ouro. Ela estendeu a mão, imperativa. Ele fez um não com a cabeça. Ou ele, ou eu. Você escolhe. Ele olhou para o livro e deu as costas para ela. Ela saiu porta afora para nunca mais.

Sozinhos, enfim, o homem e o livro. Miguel Quijada olhou para as estantes vazias, pronto para recomeçar. Não perdera tudo. Restava aquele ali, que colocou com cuidado sobre a mesa, abriu numa página qualquer, com os olhos anuviados pelo sono. O vento que folheou as páginas em sua frente movia agora as pás de um velho moinho lá para as bandas da linha do horizonte. Miguel Quijada montou em seu Rocinante e avançou de lança em riste contra o gigante que roubara sua amada.

Ronaldo Monte

Nasceu em Maceió (AL), em 1947, viveu no Recife e em João Pessoa, onde se aposentou como professor do Departamento de Psicologia da UFPB. É psicanalista e autor de 14 livros de poesia, contos, crônicas e romances. Seu romance mais recente, A paixão insone, foi publicado em edição eletrônica pela Mombak.

Rascunho