🔓 Susana Fuentes

Ensaio fotogrĂĄfico de Susana Fuentes
Foto: Ozias Filho
01/11/2022

O voo do pĂĄssaro faz lembrar que a beleza que se vĂȘ de cima pode significar prenĂșncio, anĂșncio de tragĂ©dias para quem estĂĄ no chĂŁo; pois tudo que se vĂȘ, mesmo a fealdade, tem outro aspecto estĂ©tico visto da cĂĄtedra celestial. A beleza do perder de vista ilusĂłrio nĂŁo existe com tanta frequĂȘncia no cotidiano de quem trafega em rios de gente, prĂ©dios, automĂłveis, poluição, violĂȘncias de variada ordem, inclusive aquela perpetrada pelos polĂ­ticos, que atingem sempre os mais fracos, sempre os mesmos.

Desta forma — um tanto politizada — sinto o livro A gaivota ou a vida em torno do lago, de Susana Fuentes; tĂŁo leve como a sua visĂŁo panorĂąmica das alturas; tĂŁo ĂĄcido do ponto de vista do chĂŁo, jĂĄ que tudo que sobe, necessariamente, rende-se Ă  lei da gravidade, e o que se vĂȘ neste instante Ă© sobejamente grave.

São esses os dilemas com os quais o leitor se confronta: ser a gaivota, ou a galinha, que por não voar, passa a vida a ensaiar o voo. A escritora tem uma poesia envolvente, e que nos desafia, a todo o momento, a subir aos céus. No entanto, ela nos faz notar o quão pesados são os nossos pés e coraçÔes, no confronto com os pequenos ou grandes episódios da realidade, que conhecemos de cor.

Num primeiro momento, estranhamos a cadĂȘncia e liberdade da sua linguagem ao contar uma histĂłria. Tanto assim Ă© que, no meu caso, preciso dizer a sua poesia em voz alta, para que a sonoridade das palavras traga Ă  tona as lembranças, que me recordam que os embates Ă  volta do corpo fazem sentido, pois no verbo dito em bom som, transformo o fantasma que nĂŁo quero ver em personagem real sentado a minha frente. Dizer a sua poesia para as paredes que me rodeiam, talvez seja a minha forma de voar, mesmo que seja por alguns segundos, o seu eco traz-me algo de novo.

Depois, esta poesia entranha-se, faz eco no silĂȘncio das horas mortas, acompanha-nos, incomoda tal e qual um sapato apertado, e de que nĂŁo conseguimos nos libertar. A poeta passeia atravĂ©s do olhar da gaivota, que Ă© livre, mas que tambĂ©m morre um pouco a cada mazela que encontra pelo caminho. Morre, sente-se destruĂ­da, apagada da histĂłria. A destruição pelo fogo (e pelo descaso das autoridades pĂșblicas) do Museu Nacional do Rio de Janeiro Ă© prova desta morte da memĂłria futura. NĂŁo somos a poeta, muito menos a gaivota, jĂĄ que a nossa capacidade de voar Ă© limitada; e nunca seremos uma FĂȘnix, parece Ăłbvio, pois nos falta algo alĂ©m da mera vontade para renascer das cinzas.

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho

Foto: Ozias Filho
Susana Fuentes
Nasceu no Rio de Janeiro (RJ). Escritora, atriz, doutora em literatura comparada pela UERJ, Ă© autora de A gaivota ou a vida em torno do lago (poesia, 7Letras), semifinalista do PrĂȘmio Oceanos 2022. Escreveu o romance Luzia (finalista do PrĂȘmio SĂŁo Paulo de Literatura) e os contos de Escola de gigantes, seleção Biblioteca do Professor no programa Rio, uma cidade de leitores, ambos pela 7Letras. Autora tambĂ©m de AnotaçÔes de Berlim (MegamĂ­ni) e Carta ao sol (Funarte). É autora tambĂ©m da peça teatral PrelĂșdios, selecionada para o FringeNYC.
Ozias Filho

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1962. É poeta, fotĂłgrafo, jornalista e editor. Autor de Poemas do dilĂșvio, PĂĄginas despidas, O relĂłgio avariado de Deus, Insulares, Os cavalos adoram maçãs e Insanos, estes dois Ășltimos, em 2023). Como fotĂłgrafo tem vĂĄrios livros publicados e integrou a iniciativa Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-americana da Cultura 2017. Publicou em 2022 o seu primeiro livro infantil, Confinados (com ilustraçÔes de Nuno Azevedo). Vive em Portugal desde 1991.

Rascunho