Era uma segunda-feira, dia Ăştil para todo mundo, especialmente para mim que ia em direção ao aeroporto em fuga. Uma semana Ăştil que começava com um corte. Eu nĂŁo saĂa sĂł de casa, saĂa do paĂs. Deixava meus filhos com o pai deles e ia embora. Sozinha. No aviĂŁo, ouvi mĂşsica e sorri. Se me chamassem, eu já nĂŁo poderia ouvir.
A primeira vez que deixei minha filha com o pai dela, ela tinha menos de dois meses, mamava no peito e precisei que ela parasse. Minha mãe morria no Brasil e eu precisava encontrá-la agora que já era tarde demais. Naquela manhã, antes da primeira fuga, amamentei minha filha até ela passar mal. Dei banho nela, coloquei a roupinha mais quentinha que encontrei — era fim de fevereiro —, cortei as unhas ainda moles dela, enrolei-a numa manta e entreguei como um pacote ao pai dela. Eu precisava ir embora. Quando voltei, depois de enterrar minha mãe, encontrei minha filha muito bem cuidada, com as bochechas rosadas, vacinas em dia. Mas eu precisava continuar a ir embora, ainda que tivesse acabado de chegar. Como não tinha como fugir, literalmente, desapareci dentro de casa. Estive ausente por seis meses tentando dar conta de um trauma que, assim espero, foi superado. Eventualmente, consegui voltar até a próxima fuga, doze anos depois.
Enquanto planejava a minha segunda retirada, dias antes de partir, fui perseguida e, eventualmente, tomada por uma culpa que quase me engoliu. Dormia com os filhos na minha cama, num sanduĂche que me coroava com uma impensável dor nas costas, mas necessária para que eu sugasse deles cada gota antes do dia D. Enquanto organizava a minha mala, respondia Ă s mensagens de amigas, conhecidas que me perguntavam, assustadas, como eu faria sem as crianças durante dois meses? Foram poucas as pessoas que me perguntaram no que eu trabalharia durante dois meses. O foco era, geralmente, a audácia da minha ida, do rompimento de dois meses inteiros onde eu, desavergonhadamente, fui feliz como nĂŁo era há muito tempo. E as crianças nĂŁo estavam lá. Claro, essas fugas sĂł podem acontecer porque há um indivĂduo interessado em dar esse suporte. Deixar as crianças com o pai delas foi uma decisĂŁo muito mais acertada do que dizer nĂŁo Ă proposta de trabalhar meu livro em Portugal e ter que permanecer frustrada, triste em hipĂłteses, com a minha essĂŞncia abalada. Se eu tivesse ficado nĂŁo teria sido por mim. Talvez para parentes e conhecidos tivesse sido a decisĂŁo acertada, honrosa, sensata. Mas eu nĂŁo estava disposta a estar certa, ter honra ou sensatez. Queria ir embora. Era hora de fugir. Na volta para a casa, a emoção de ver aquele amor sĂłlido ali, dois rostos que sĂŁo duas estrelas brilhantes, esperando por mim como esperei pelo amor deles. No dia seguinte, a vida, surpreendentemente, continuava normal.
Há também mulheres que não podem fugir dessa forma. Então, precisam fugir de fato, pra valer. Quem se lembra da história da mãe que roubou mercadorias no supermercado na esperança de ser presa e que cozinhassem para ela, que ela tirasse uma folga dos filhos e suas intermináveis demandas?
NĂŁo sĂŁo sĂł os filhos que sĂŁo deixados, mas as mĂŁes, especialmente, estĂŁo exaustas, soltas e perdidas dentro de uma pequena gaiola.
Imaginem essa situação: uma mulher jovem com muitos e profundos interesses intelectuais e artĂsticos tem a oportunidade de viver a sua essĂŞncia. Em outras palavras: ser feliz sendo quem Ă©. O obstáculo para ela — desculpe, o uso da palavra Ă© deliberado — sĂŁo as filhas pequenas.
Essa não poderia ser a sinopse para o filme A filha perdida, adaptação do livro homônimo de Elena Ferrante, mas pode dar conta do aspecto que mais me chama a atenção, tanto no filme quanto no livro.
Essa temática na narrativa de Ferrante e no filme dirigido por Maggie Gyllenhaal me comove porque Ă© tabu. Interessa-me porque Ă© um tema reprimido e sofrido em silĂŞncio. Mesmo que essa problemática seja identificada, o que Ă© possĂvel fazer com a consciĂŞncia de que nem sempre uma mulher que Ă© mĂŁe quer seus filhos por perto?
Quem vai falar sobre esse pecado, esse crime, essa culpa, essa suposta falta de caráter e amor? Afinal, o que nĂŁo falta Ă© julgamento. Mas nĂłs podemos falar do assunto e, quem sabe, descamar a observação cristalizada desse cenário para entendermos um pouco mais do humano que compõe uma mĂŁe. Já escrevi sobre o assunto em um texto para a Revista Deriva, no qual falo sobre o assombro que Ă© o filme Sonata de outono, de Bergman. Temos no longa sueco um conflito bastante similar com o do A filha perdida. Uma mĂŁe deixa os filhos com o pai e sai de casa em busca da manutenção da sua identidade essencial e inegociável. Uma mĂŁe que Ă©, antes de qualquer coisa, uma mulher e uma profissional e que nĂŁo está disposta a se enquadrar. Mas esse enquadramento talvez nem seja exatamente relativo Ă dificuldade de se enxergar como matriz. Pode ser, nĂŁo tenho certeza, que o problema seja o entorno com o qual essa mulher de espĂrito livre precisa conviver. Ou seja, a tentativa frustrada de conciliação entre a função de mĂŁe e o que nunca deixou de ser: uma mulher. NĂŁo Ă©, necessariamente, uma incapacidade dessa mulher em conciliar essas identidades, mas, culturalmente, Ă© comum que mĂŁe e mulher sejam papĂ©is colocados como intoleráveis entre si ou excludentes. Mas nĂŁo Ă© sĂł isso. Tanto em Sonata de outono quanto em A filha perdida as mĂŁes tĂŞm camadas. Com isso quero dizer que tĂŞm uma riqueza de passado, um dinamismo no presente, uma excitação pelo futuro. E nĂŁo em relação apenas aos filhos ou Ă famĂlia, mas a elas, especialmente.
Às vezes, porém, um casamento com filhos acontece nas vidas dessas mulheres que mudam de ideia, que estão abertas a experimentar a vida e fazem disso uma prioridade. A vida, porém, é severa com quem deseja. É um pouco a história da criança que sempre quis andar de barco no mar. Quando a praia se afasta dos olhos, ela se vê com náusea e descobre que não gosta de estar ali. As opções são assustadoras: ela pode pular do barco e morrer. Ela pode pular do barco e tentar nadar. Ela pode ficar no barco e vomitar. Ela pode ficar no barco até que chegue à praia novamente. Ela não pode fazer lá tanta coisa assim. Ela está em alto-mar.

Talvez a questĂŁo que pulsa e aquela que se prolonga e nĂŁo vai a lugar algum Ă© a relação que os filhos que foram separados dessas mulheres tĂŞm com suas mĂŁes e com suas prĂłprias questões. NĂŁo posso elaborar sobre rejeição, abandono, narcisismo, raiva, mas a psicanálise pode. Eu como uma mĂŁe completamente imperfeita, em esporádicas fugas e com interesses que vĂŁo muito alĂ©m daqueles da maternidade, nĂŁo consigo nem mesmo pensar em fazer juĂzo dessas mulheres que tiveram uma coragem rara. Custou e sempre custa muito, sem dĂşvidas, mas a coragem esteve lá. Que corte profundo.
Das cenas do filme há algumas que me atravessaram. O encontro de Leda, num jantar em uma conferĂŞncia, com o colega onde ele diz a ela o poema de Yeats, Leda e o cisne, num processo de sedução que ela nĂŁo está disposta a resistir. O poema, claro, Ă© uma referĂŞncia Ă mitologia grega e Ă histĂłria de Leda, uma mulher estuprada por Zeus disfarçado de cisne e que tem dois filhos dele, de dois ovos. Uma associação possĂvel Ă violĂŞncia sofrida por uma mulher por puro desejo de um homem, agente do patriarcado, e que se reflete nas práticas culturais.
Outra cena marcante sobre a mulher dentro da mãe é quando Leda está no parquinho com as filhas e, ao telefone, se excita com o colega professor, num mundo escondido só dela em permanente conflito com a santidade dos rostos angelicais das crianças brincando ao sol. Aquela passagem me faz pensar no livro da Annie Ernaux, Uma simples paixão, onde há o parágrafo:
Na Marie Claire, os jovens, entrevistados, condenam sem apelo os amores da mãe separada ou divorciada. Uma garota diz, com rancor: “Os amantes da minha mãe só serviram para a fazer sonhar”. E que melhor serviço lhe poderiam prestar?
TambĂ©m a cena em que Leda telefona para uma das filhas, no inĂcio do filme. Ela está prestes a falar da bela paisagem que vĂŞ e a filha precisa desligar. A distância entre as duas, talvez a falta de um amor em exercĂcio diário, se impõem na falta de um interesse genuĂno. Na pressa em desligar. Como se tivesse sido bom falar uma com a outra, mas falar uma com a outra custa.
Ninguém nunca pode ter tudo. Muito menos uma mãe que está perdida como uma criança.