“Ninguém se parece com Janis Joplin. Ela era única”

Entrevista com a jornalista Holly George-Warren, autora da biografia sobre a cantora mais influente da história do rock
Janis Joplin morreu em 4 de outubro de 1970, aos 27 anos. Foto: David Gahr
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on pinterest
Share on telegram

Dona de um caráter explosivo e um talento vocal além dos padrões, Janis Joplin poderia ter sido apenas mais uma menina do interior, da geração baby boomer, a primogênita de uma tradicional família de classe média norte-americana. Nascida em 1943, em Port Arthur, no Texas, Janis enfrentou, desde cedo, desafios e preconceitos por sua personalidade forte, sua forma livre de amar, sua clara aversão ao racismo numa sociedade segregada e sua paixão pela música negra, sobretudo pelas cantoras do R&B, como Big Mama Thornton e Bessie Smith. Na adolescência, ela passou a se considerar uma beatnik, influenciada pela força da prosa musical e contra o sistema de Jack Kerouac em On the road. Porém, até se descobrir como uma cantora de rock e correr atrás do sonho do estrelato na efervescente São Francisco, Janis dedicou-se às artes — incentivada pela família — e também às discussões filosóficas e literárias, traço herdado do pai, Seth Joplin, de quem também puxou a tendência ao alcoolismo e, por consequência, ao consumo de drogas. O vício a tirou de cena, de forma definitiva, em 4 de outubro de 1970, numa overdose acidental de heroína, encerrando precocemente sua vida e sua carreira em ascensão, colocando-a ao lado de outros outsiders do rock como Jimi Hendrix e Jim Morrison, que tiveram suas vidas tragicamente interrompidas pelo consumo de álcool e drogas aos 27 anos de idade. Apesar do pouco tempo de carreira, Janis deixou sua marca cravada na história do rock, por seu pioneirismo numa época em que mulheres não lideravam bandas e por seu canto potente e inconfundível, carregado de emoção e angústia, que continua influenciando artistas até os dias de hoje.

Na biografia Janis Joplin: Sua vida, sua música, escrita por Holly George-Warren, jornalista e uma das mais respeitadas cronistas da história da música norte-americana, é possível rememorar a trajetória meteórica da cantora, no ano que marca o cinquentenário de sua morte. A obra traz um perfil minucioso de Janis, construído a partir de relatos de familiares, amigos e colegas de banda, além de diários, arquivos pessoais, cartas e entrevistas há muito perdidas no tempo. O resultado é um retrato multifacetado da cantora, que expõe o contraste entre a sua expressão artística enérgica e brilhante com a escuridão contida em seu temperamento depressivo, carente e ansioso. Confira a entrevista de Holly concedida por e-mail ao Rascunho.

• Uma família conservadora e tradicional, uma filha inquieta, transgressora e com alma de artista. Como esse cenário influenciou o comportamento de Janis Joplin durante a infância e adolescência?
Embora sua família fosse conservadora, eles encorajaram seu desenvolvimento intelectual e seu talento como artista visual. Seus pais também lhe ensinaram a expressar suas opiniões — mas quando, ainda adolescente, Janis assumiu uma postura sincera sobre o racismo, virou admiradora do blues e ficava fora de casa bebendo até tarde, isso, de fato, os desagradou.

• A vida de Janis no Texas foi atormentada pelo preconceito devido a sua forma livre de encarar a vida. O quanto essa rejeição é responsável pelo alcoolismo precoce?
Ela começou a beber ainda adolescente, em bares de estrada na Louisiana, onde podia ouvir bandas tocando e gostava muito desse tipo de diversão. Ela começou a se embebedar durante a faculdade porque gostava de festas, mas também porque descobriu que o álcool lhe ajudava a esquecer seus medos e ansiedade. Quando Janis começou a cantar em público, a bebida lhe ajudava a livrar-se das inibições e da timidez. Aos poucos, tornou-se um hábito.

• Como a influência de cantoras negras contribuiu para a formação da identidade de Janis como artista?
Quando Janis descobriu os discos de cantoras como Lead Belly, Odetta e Bessie Smith, ficou encantada com a forma que a música pode ser usada para canalizar emoção, dor e tristeza. Então, ela começou a trabalhar com sua própria voz de soprano e a desenvolver uma maneira diferente de cantar e dar vazão às suas próprias emoções. Ela estudou as letras e música de Lead Belly, Bessie Smith, Ma Rainey e outros artistas de blues em particular.

Janis Joplin em Woodstock. Foto: Elliott Landy

Quando Janis começou a cantar em público, a bebida lhe ajudava a livrar-se das inibições e da timidez. Aos poucos, tornou-se um hábito.

• Apesar da atitude explosiva e personalidade forte, Janis sempre ansiou por ser amada. Sonhava com uma relação estável e duradoura, mas nunca a conquistou. Como sua vida amorosa impactou na sua carreira?
Entre 1967 e 1970, Janis viajou para fazer shows quase sem parar, então era muito difícil manter relacionamentos sérios com aquele estilo de vida. Ela queria a segurança de um relacionamento amoroso — mas, novamente, ela tinha apenas 20 anos, jovem demais para se estabelecer.

• Quais artistas foram influenciados pelo jeito visceral de cantar de Janis?
Muitos, desde Robert Plant, Steven Tyler (Aerosmith) e David Johansen (New York Dolls) a Melissa Etheridge, Joan Osborne, Beth Hart e Pink.

• Janis foi pioneira em liderar bandas formadas exclusivamente por homens. Como isso era visto na época, pela imprensa?
A imprensa costumava comentar sobre sua aparência, bem como descrever seu canto poderoso, tratando-a como um novo fenômeno. Porém Janis foi duramente criticada por veículos da contracultura da época quando decidiu deixar o Big Brother e começar sua carreira solo.

• Em 1970, meses antes de morrer, Janis visitou o Brasil durante o carnaval. Como foi sua experiência no país?
Janis AMOU o Brasil. Foi um dos momentos mais felizes de sua vida. Janis amava a música brasileira e a dança. Tanto que queria fazer um festival de rock no Rio. Ela também viajou para a Bahia e gostou muito de conhecer pessoas lá.

• Qual foi o maior legado deixado pela cantora que se perpetua mesmo 50 anos após sua morte?
Sua música resiste ao tempo, com sua intensa paixão e vocais singulares. Ninguém se parece com Janis Joplin. Ela era única. E ela quebrou barreiras para que intérpretes mulheres assumissem o controle de suas carreiras e se expressassem da maneira que quisessem.

Janis amava a música brasileira e a dança. Tanto que queria fazer um festival de rock no Rio.

• Janis se referia a uma “tristeza cósmica” que a assombrava, tanto que usou o termo para nomear a banda (Kozmic Blues Band) formada e liderara por ela após a saída do Big Brother. Era isso que ela buscava silenciar com o uso abusivo de álcool e drogas?
Sim e, também, de todas as pressões de seu estrelato — sua ansiedade e depressão.

• O quanto a ambição profissional de Janis a conduziu a sua derrocada e morte precoce?
Janis era uma pessoa destemida — conhecia os perigos do caminho que escolheu e não queria viver uma vida “avessa ao risco” como os seus pais. Quando menina, leu On the road, de Jack Kerouac, e a mensagem do livro a tocou profundamente. Certa vez, ela creditou o seu canto e carreira como a “salvação da sua vida” — descobriu que cantar ajudava a libertar a sua energia negativa, o seu trauma e depressão. Mas é óbvio que a sua vida profissional foi muito difícil. Mesmo entre altos e baixos, Janis nunca “perdeu o rumo”. A sua carreira estava num momento ótimo quando teve uma recaída e não resistiu ao tomar uma forte dose de heroína muito pura. Sua morte foi um erro trágico.

• Se estivesse viva, Janis estaria com 77 anos. Quem seria essa mulher, hoje, diante do atual cenário político norte-americano?
Ela estaria participando dos protestos do movimento Black Lives Matter e pedindo explicações ao presidente Trump por suas mentiras e interesses pessoais, e pelo tratamento inadequado dado à pandemia. Ela sempre foi franca e direta sobre suas crenças.

• Como escritora, o que você buscou destacar no livro que o diferenciasse das demais biografias já publicadas sobre a cantora?
Eu tentei dar mais textura a sua caracterização — mostrar seus muitos lados como pessoa — sua alegria e, também sua tristeza. Além disso, eu quis me concentrar em sua musicalidade, o quão duro Janis trabalhou para se tornar uma cantora e como ela amava estar no estúdio de gravação. Ela estava a caminho de se tornar uma produtora musical.

Janis Joplin: Sua vida, sua música
Holly George-Warren
Trad.: Martha Argel e Humberto Moura Neto
Seoman
432 págs.
Holly George-Warren
Foi indicada duas vezes ao Grammy e é autora premiada de 16 livros, entre eles duas biografias: “A man called destruction: The life and music of Alex Chilton” e “Public cowboy #1: The life and times of Gene Autry”, além do best-seller do New York Times: “A estrada para Woodstock” (com Michael Lang). Ela já escreveu para diversas publicações, incluindo The New York Times, Rolling Stone e Entertainment Weekly, tendo atuado também como consultora em documentários como “Muscle Shoals”, “Nashville 2.0” e “Hitmakers”.

Renata Sklaski

É jornalista, redatora, editora de livros e produtora cultural. Apaixonada por biografias e pelo universo rock and roll.

Publicidade

Leia também

Luiz Ruffato

São Paulo - SP

A epidemia dos tolos, ingênuos e desagradáveis, que, multiplicando-se a uma velocidade evangélica, logo se tornarão ampla maioria
Luiz Rebinski

Curitiba - PR

Alegoria sobre a condição judaica, romance é o ponto alto da obra de Moacyr Scliar, que se notabilizou pela linguagem clara e grande imaginação
Rascunho

Curitiba - PR

“Memórias do Brasil”, que vai ao ar nesta sexta-feira (30), traz depoimentos de escritores e amigos do autor amazonense
Rascunho

Curitiba - PR

Autor dos quadrinhos “The Sandman” participa do painel Thunder Arena, falando sobre sua carreira e as adaptações de suas obras para outros formatos