🔓 Lusofonia, literatura e mercado

Os portugueses precisam de despir-se do complexo de superioridade derivado da convicção de que, supostamente, são os “donos” da nossa língua comum
21/12/2020

“Lusofonia” Ă© um conceito ambĂ­guo e gelatinoso, que urge “descomplexificar”, para que possa de facto ser operacionalizado de acordo e no sentido de materializar as intençÔes mais generosas que levaram a colocĂĄ-lo no centro da construção da chamada comunidade de paĂ­ses de lĂ­ngua portuguesa. Se isso nĂŁo for feito, dificilmente tal comunidade se converterĂĄ numa verdadeira comunidade de povos.

Assim, os portugueses precisam de despir-se do complexo de superioridade derivado da convicção de muitos deles de que, supostamente, sĂŁo os “donos” da nossa lĂ­ngua comum. Talvez careçam, tambĂ©m, de rever as suas mĂșltiplas origens e reconfigurar a sua identidade, assumindo-se mais como “portugueses” (euro-ĂĄrabe-africanos) e menos como “lusitanos”.

Os brasileiros, por seu turno, precisam de libertar-se de uma contradição que tem tolhido a sua vocação para se afirmarem como uma autĂȘntica potĂȘncia global: a sua tendĂȘncia natural para olhar apenas para dentro, como paĂ­s-continente que Ă©, e, simultaneamente, o complexo de inferioridade das suas classes dominantes e da sua classe mĂ©dia, que “quer ser americana”, tal como no passado queria ser “francesa”.

Arrisco-me a dizer que o Brasil precisa de pensar um projeto de afirmação internacional que passe, sem se esgotar, pela afirmação de uma lusofonia abrangente. Afinal, o país, além de ser o maior usuårio da língua portuguesa, é também, por exemplo, o que mais tem contribuído para a expansão da mesma na Internet ou na elaboração de artigos científicos, o que é fundamental para aumentar o seu peso geopolítico.

Quanto aos africanos que adotaram o portuguĂȘs como lĂ­ngua oficial nos seus paĂ­ses, precisam de assumir plenamente todas as consequĂȘncias dessa decisĂŁo polĂ­tica, que foi e continua a ser fundamental nĂŁo sĂł para a sua unidade, mas tambĂ©m para a sua identidade nacional. Hoje, o portuguĂȘs Ă© a lĂ­ngua materna de milhĂ”es de africanos (em Angola, jĂĄ Ă© a principal lĂ­ngua-mĂŁe). AlĂ©m da sua Ășnica lĂ­ngua de comunicação entre todos os grupos internos, Ă© a sua primeira lĂ­ngua de comunicação internacional.

Desde que os portugueses contactaram (nĂŁo “descobriram”) pela primeira vez os africanos, a sua lĂ­ngua foi e continua a ser influenciada, transformada e enriquecida por certas lĂ­nguas africanas, tornando-se, por conseguinte, na lĂ­ngua de todos os seus falantes. Os complexos que alguns africanos ainda alimentam relativamente ao portuguĂȘs nĂŁo tem, pois, o menor sentido.

O facto Ă© que a lĂ­ngua portuguesa possui hoje uma comprovada natureza pluricĂȘntrica. Espanta, pois, que, no dia a dia, muitos nĂŁo o reconheçam. A professora portuguesa Margarita Correia escreveu no passado dia 28 de novembro um artigo no DiĂĄrio de NotĂ­cias, publicado em Lisboa, no qual denuncia a discriminação por razĂ”es linguĂ­sticas de que sĂŁo vĂ­timas cidadĂŁos brasileiros em Portugal. Ela cita, entre outros, os casos de dissertaçÔes e teses de alunos brasileiros que sĂŁo discriminados apesar de possuĂ­rem, sublinha ela, “competĂȘncias e currĂ­culos inatacĂĄveis”.

Na verdade – diga-se – a maka [problema] Ă© geral: as incompreensĂ”es sĂŁo mĂștuas e ocorrem em todos os contextos onde a nossa lĂ­ngua comum Ă© falada.

NĂŁo espero grande coisa dos nossos governos para encontrar soluçÔes para esse e outros problemas e, de facto, materializar a ideia de lusofonia, entendida esta Ășltima simplesmente como cooperação ampla e multiforme entre os povos dos paĂ­ses e outras comunidades de lĂ­ngua portuguesa existentes no mundo. Acredito mais nas iniciativas dos cidadĂŁos, agentes culturais, empresas e outros atores da sociedade civil. Se os governos apoiarem essas iniciativas, jĂĄ serĂĄ de bom tamanho.

A literatura pode ajudar. Para isso, ela precisa de circular. É verdade que as relaçÔes (intertextuais?) entre certos autores de lĂ­ngua portuguesa, no passado ou no presente, sĂŁo conhecidas, sobretudo dos especialistas, mas talvez tenha havido uma diminuição da circulação de livros, bem como de jornais e revistas, entre os nossos paĂ­ses, relativamente a perĂ­odos anteriores (atĂ© meados do sĂ©culo 20).

A verdade Ă© que, atualmente, poucos sĂŁo os autores portugueses publicados no Brasil e menos ainda brasileiros editados em Portugal. “Os leitores portugueses nĂŁo conseguem ler os escritores brasileiros!”, juram certos editores lusitanos. Por outro lado, os autores portugueses e brasileiros simplesmente nĂŁo chegam aos paĂ­ses africanos de lĂ­ngua portuguesa. Mais grave ainda, os autores destes Ășltimos paĂ­ses tambĂ©m nĂŁo circulam entre eles. De igual modo, nĂŁo sĂŁo comummente publicados quer em Portugal quer no Brasil.

“NĂŁo hĂĄ mercado!”, dizem todos. Verdade? Ou serĂĄ apenas consequĂȘncia do preconceito cultural e, principalmente, da falta de visĂŁo profissional? Qualquer aprendiz de marketing sabe o que isso significa: “fazer mercados”, ou seja, criar necessidades novas, atrair consumidores, ir ao encontro deles e outras estratĂ©gias.

No caso da publicação de autores africanos no Brasil, parece que começa agora a haver um maior interesse nesse sentido. Eu nĂŁo tenho dĂșvidas: num paĂ­s com a realidade histĂłrica, Ă©tnica, antropolĂłgica, sociolĂłgica e polĂ­tica do Brasil, hĂĄ inevitavelmente um grande nĂșmero de potenciais leitores das literaturas africanas contemporĂąneas. O assunto, como todos, deverĂĄ ser tratado sob vĂĄrios Ăąngulos. Prometo fazĂȘ-lo em prĂłximo texto.

* O autor escreve de acordo com o novo acordo ortogrĂĄfico e a variante angolana da lĂ­ngua portuguesa.

JoĂŁo Melo

Nasceu em Luanda (Angola), em 1955. É escritor e jornalista. Morou no Brasil de 1984 a 1992 como correspondente de imprensa. Tem mais de 20 livros publicados, entre poesia, conto e ensaios, em Angola, Portugal, Itália, Cuba e Brasil, onde publicou a coletñnea de contos Filhos da Pátria (Record, 2008). Pode ser acompanhado no Twitter e no Instagram.

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