A piscina
Minha mulher quer construir uma piscina no jardim. Pequena, ela diz. O jardim fica na parte de trás de nossa casa e era, quando compramos o lote, um emaranhado de árvores frutĂferas e de mato que crescia sem controle desde que a proprietária falecera. Compramos o lote das filhas a um bom preço e construĂmos a casa onde moramos há quase trinta anos. SĂł nĂłs dois e o vira-latas que recolhemos da rua em um dia de ventania. O jardim nĂŁo existia, foi surgindo aos poucos. Primeiro, arrancamos o mato. As árvores despontaram em sua imponĂŞncia, ainda que algumas já nĂŁo dessem frutos. Por isso, demos fim ao enorme abacateiro, depois de trĂŞs anos sem um Ăşnico abacate perfeito. O tronco está todo bichado, nĂŁo vai mais dar fruto e periga atĂ© cair, disse o jardineiro em sua sentença acolhida de imediato por minha mulher. Depois, foi o fim da goiabeira que ficava na divisa com o vizinho Ă direita. As goiabas, preciso reconhecer, estavam sempre podres por dentro. Sem o abacateiro e a goiabeira, a grama foi aparada e compramos sacos de pedras roliças e de tamanhos variados que espalhamos em torno de uma fonte de pedra-sabĂŁo que agora orna o jardim, bem no lugar onde antes estava o abacateiro, mas que nunca funcionou a contento. A laranjeira, plantada logo em nosso primeiro ano, nĂŁo cresceu o que deveria e tambĂ©m foi eliminada. A amoreira resiste, quase encostada ao muro que faz a divisa da casa com o terreno da prefeitura. O pĂ© de limĂŁo nĂŁo teve a mesma sorte: cedeu espaço para a trilha de pedras maiores que liga a varanda dos fundos atĂ© a casinha da cachorra. Assim a gente nĂŁo suja os pĂ©s na grama molhada, foi o que a minha mulher disse. O jardineiro — este já era outro, o primeiro tinha sumido — ficou em silĂŞncio. Como uma espĂ©cie de compensação, minha mulher plantou uma pitangueira na lateral esquerda do jardim. Como se vĂŞ, já Ă© um jardim. O problema agora sĂŁo as trĂŞs enormes jabuticabeiras. Devem ter mais de cinquenta anos de vida e todos os anos dĂŁo jabuticabas saborosas, com personalidades distintas. A jabuticabeira que fica quase encostada Ă varanda Ă© a mais exuberante, tem galhos longos e Ă© muito prĂłdiga em frutos pequenos, de casca lisa e fina. As jabuticabas mais deliciosas sĂŁo as da árvore mais recolhida, a menos visĂvel, encoberta pela arrogância da mais frondosa. Apesar da aparĂŞncia frágil, esta árvore apresenta frutos grandes, de um roxo quase preto. A mais tĂmida das árvores fica em posição intermediária entre as outras duas e nĂŁo se importa em dar cria todos os anos. Ă€s vezes ela falha, parece preguiçosa em seu labor. Suas frutas sĂŁo pequenas e tĂŞm a casca mais grossa, mas a polpa Ă© consistente e tem muito sumo. As trĂŞs se completam, cĂşmplices de um territĂłrio que, aos poucos, vai se moldando e perdendo o ar selvagem e febril, que tanto nos encantou no inĂcio. Pequena, diz a minha mulher. Uma piscina que vai receber a luz do sol em grande parte do dia — desde que cortemos uma das jabuticabeiras. Duas já nĂŁo sĂŁo suficientes? É assim que ela responde Ă minha argumentação contrária ao corte da árvore. Eu resisto Ă ideia enquanto posso, sem nem mesmo saber por quĂŞ. Somos apenas nĂłs dois. Nunca tivemos filhos, desistimos depois de anos de tentativas. SĂł nĂłs dois e a cachorra, que veio bem depois. Agora que estamos envelhecendo, sinto que minha mulher nĂŁo quer ir mais Ă piscina do clube do bairro. Ela nĂŁo diz isso claramente, mas eu nĂŁo enxergo outra explicação para o fato de ela querer uma piscina quando podemos usar uma que está a menos de quinhentos metros de distância. Eu tambĂ©m nĂŁo gosto da companhia de estranhos, do alvoroço de crianças e daquela urgĂŞncia que as pessoas demonstram ter em relação ao lazer. Costumava aceitar a ida ao clube com resignação, sem alegria, mas nem isso mais se cogita. Ela quer uma piscina pequena. O jardim ficou muito bonito, depois de anos de paciente elaboração. O mato sumiu por completo. Agora sĂŁo vasos grandes de cerâmica e muitas flores, coloridas. Azaleias, bromĂ©lias, beijinhos, dálias, agapantos, pacovas, orquĂdeas, rabo de raposa, clĂşsias, lavandas, dasilĂrios, suculentas e atĂ© uma pata de elefante que nunca vingou direito. O mato selvagem foi dizimado, pedras floresceram sobre a grama, já Ă© possĂvel identificar com facilidade quando a cachorra faz suas necessidades. Está tudo limpo, bem arrumado, de uma beleza ordenada que me deixa quieto, mais calado do que já sou. Tudo tĂŁo certo que algo parece dissonante, fora do lugar. Nem sempre a vida tinha sido assim. Fui bem arruaceiro e atĂ© irresponsável, na juventude. As regras eram desrespeitadas com certa frequĂŞncia. Meus amigos (nenhum deles era flor que se cheire) me chamavam de “o louco da estepe” — sim, teve uma Ă©poca que eu andava com o livro do Herman Hesse debaixo do braço, perguntando já leu? pois leia, sua vida vai mudar. A minha nĂŁo mudou nada. Enchi daquilo e passei ao Lobsang Rampa, depois ao Krishnamurti, atĂ© trocar tudo por Burroughs, Henry Miller, Bukowski, Verlaine e outros pirados, mas isso já Ă© outra histĂłria. Quero dizer que eu fazia as coisas do meu jeito. Meus amigos bebiam muito, mas eu bebia mais. Certa noite, depois de muita farra, saĂmos para ouvir os cachorros latindo lá do alto do morro da antena. A lembrança daquela sinfonia canina me arrepia. Na descida do morro, a moto surgiu Ă frente do carro como um fantasma moribundo e foi preciso um movimento brusco e seguro para se desviar dela e nĂŁo despencar no abismo ao lado. NĂŁo sei como consegui aquela proeza. O sujeito da moto se safou ileso e nĂłs tambĂ©m. Bateu um silĂŞncio estrondoso entre nĂłs, depois o Dilson — irmĂŁo mais velho da Doris, com quem me casei — disse apenas cara, vocĂŞ nos salvou, e a gente começou a rir, de nervoso e alĂvio, primeiro baixinho, depois Ă s gargalhadas. SaĂ dali como o herĂłi improvável que jamais fui. Aquilo me deixava alucinado de uma alegria inexplicável. Lembro daquela noite e observo os antĂşrios no fundo do quintal. É provável que eles sobrevivam Ă piscina.

O pai, o filho
O meu pai passou da conta. Ele agora me pediu para engraxar os seus sapatos, acredita? Eu me neguei a fazĂŞ-lo, claro. Ele me disse que seria bom aprender a fazer alguma coisa Ăştil. Eu nĂŁo penso a mesma coisa, nem sei o que seria Ăştil. Ele insistiu, voltou a se referir a sapatos engraxados. Eu disse a ele que, se era para fazer alguma coisa, havia coisas mais interessantes a serem feitas, como ajudar os pássaros que entravam na biblioteca a encontrar o caminho de saĂda. Esta nĂŁo Ă© uma boa ideia, ele replicou, nem mesmo razoável, pois os pássaros costumam se refugiar nas estantes mais altas. Os pássaros e os livros sĂŁo imprevisĂveis, ele falou. Seria mais sensato, ele sugeriu, começar com atividades mais ao meu alcance. Como cuidar dos sapatos. Foi entĂŁo que eu olhei com atenção para os seus sapatos, limpos e engraxados. Aquilo me intrigou. Eram os sapatos mais brilhantes que eu jamais vira. Confesso que me deu uma tristeza assim miĂşda ao pensar nas razões que levariam meu pai a me pedir algo que ele já fazia tĂŁo bem. Meu pesar durou pouco. EntĂŁo eu disse a ele que talvez pudesse fazer aquilo, um dia. Falei por falar. Talvez eu sĂł quisesse interromper aquela conversa que me parecia sem sentido, talvez fosse a sensação de que certas coisas sĂŁo inescapáveis. O fato Ă© que agora os sapatos nĂŁo se desgrudam de mim. Eles estĂŁo comigo o tempo todo, mesmo quando estou dormindo, pois nĂŁo deixo de sonhar com eles. Sofro quando os imagino sujos e maltratados. Um dia terei de cuidar deles. É o que me resta. O legado das ninharias.

O lobo
Você pode contar como eram esses uivos? Eu sabia que essa pergunta iria surgir. Se havia uma questão para a qual eu deveria me preparar, era aquela. Inevitável. Por isso, pensei nela durante os dias que antecederam ao depoimento. Eu era o autor solitário da denúncia, cabia a mim justificá-la. Agora, quando a pergunta se coloca da forma como a imaginei, direta e sem meios-tons, calo-me. Tento encontrar alguma palavra que dê conta daquilo. Por que só eu fora capaz de ouvir os uivos? Não uma, não duas, mas por três noites consecutivas?
Tentei responder com alguma coisa que parecesse plausĂvel, mas foi um fracasso. Gaguejei. Tropecei nas sĂlabas que se misturaram e saĂram de um jeito irreconhecĂvel, fazendo com que caretas de espanto e incredulidade me mirassem como se estivĂ©ssemos naquela brincadeira de quem pisca primeiro, olhos fixos esperando que eu fraquejasse. Meu rosto ficou ruborizado, senti a vermelhidĂŁo que surgia junto ao calor que me assaltava sem que eu pudesse fazer nada para conter a intromissĂŁo indevida. Meu corpo invadido, fustigado pela vergonha e ridĂculo. Os uivos sĂŁo assim, eu queria dizer. Prestem atenção: assim. E nĂŁo dizia. Eu nĂŁo conseguia dizer nada que alguĂ©m cioso de sua dĂşvida pudesse colocar um pingo de fĂ©. Como contar algo novo, que nĂŁo se entende e nĂŁo se nomeia?
Eles tinham paciência, me olhavam em silêncio, enquanto eu me debatia entre mexer os braços, abrir a boca ou bater os pés em sintonia com a minha desarmonia. Nenhuma palavra me acudia. Até que, subitamente, me agachei no piso de cerâmica fria, os braços tesos como patas, as pernas arqueadas como patas, eu queria dizer como eram os uivos e as palavras não vinham, então eu fiz aquilo. Foi como expulsar um corpo estranho, sendo eu já tão estranho naquela posição esquisita, na saliva grossa a encher a boca, nos olhos queimando, na pele que eu sentia escura e peluda. Uivei. Estão ouvindo agora? É isso o que eu escuto nas noites em que vocês dormem seus sonos velhos, desapaixonados. Não identificam esse animal? Não são capazes ainda de ouvir? No segundo uivo reconheci, afinal, uma fome que já não cabia em mim. Eles ainda tentaram se safar, mas eu fui mais rápido.

A baleia
Nunca entendi muito bem as baleias. AtĂ© ser engolido por uma delas. Foi assim. Numa de minhas escapadas solitárias, afastei-me da praia mais do que o habitual. Eu devia estar muito atordoado para nĂŁo perceber que tinha ido longe demais. O barco foi destruĂdo em um temporal imprevisto, e eu, lançado ao mar sem qualquer esperança de sobrevivĂŞncia, tal a violĂŞncia das ondas. Ela me salvou antes que eu afogasse. Agora nĂŁo quero sair de Eloá. Aqui tenho tudo de que preciso, atĂ© o carinho materno que sempre me faltara. Retribuo como posso. Retiro e devolvo ao mar todo o lixo que ela consome com ingenuidade —plásticos, tubos, seringas, embalagens, pneus, uma parafernália sem fim. Mantenho-a asseada, sem os entulhos indigestos. Alimento-me dos peixes que ela generosamente me oferta. NĂŁo sei se um dia voltarei a terra firme. Em noites de lua, Eloá permite que eu vá atĂ© a entrada de sua boca e admire o vácuo escuro do cĂ©u. Eu digo a ela: Querida, nunca entendi bem o universo.