Ideias para um mercado do livro de língua portuguesa

As literaturas africanas interessam aos leitores afro-brasileiros, mas serão estes os frequentadores habituais das livrarias e dos ambientes “seletos” da literatura?
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12/04/2021

No texto anterior, escrevi aqui que os livros dos autores de língua portuguesa praticamente não circulam no nosso próprio espaço, ou seja, entre os diferentes países que usam esse idioma não apenas como sua língua oficial e de comunicação nacional, mas também como primeiro veículo de comunicação internacional. Não há mercado, alega-se.

Isso contrasta com um passado relativamente distante, é verdade, mas não tão remoto assim. Os grandes autores portugueses do passado, como Eça, circulavam amplamente no Brasil, tal como os autores brasileiros da primeira metade do século 20 eram muito lidos em Portugal. Quer uns quer outros chegavam também aos atuais países africanos de língua portuguesa, na altura ainda submetidos à dominação colonial portuguesa.

No caso dos livros brasileiros que chegavam aos países africanos, além da comercialização aberta, alguns deles, considerados subversivos, circulavam de maneira clandestina. Subterrâneos da liberdade, de Jorge Amado, é um desses exemplos. Deixo, pois, uma dica aos estudiosos da literatura ou das relações históricas entre o Brasil e esses países: seria interessante pesquisar como tal acontecia.

Isso não sucede mais. Desde logo, os autores dos países africanos de língua portuguesa não circulam entre os seus próprios países. De igual modo, os escritores portugueses e brasileiros também não circulam, praticamente, em tais países. Quanto à circulação de autores africanos em Portugal e no Brasil, de portugueses no Brasil e de brasileiros em Portugal, embora existente, está muito longe do desejável e, vou dizê-lo, do possível.

Na verdade, estou convicto de que existe um mercado reprimido, que precisa de ser melhor trabalhado, em alguns casos, e mesmo “construído”, em outros. Afinal, o significado de marketing não é “fazer mercados”?

Segundo acredito, existem potencialmente, apesar de todos os constrangimentos, mais leitores em todos os nossos países do que aqueles que os números atuais refletem. É preciso descobri-los, atraí-los e encontrar maneiras inovadoras de ir ao encontro deles. O assunto tem de ser visto do ponto de vista do mercado editorial (produção) e do mercado livreiro (distribuição).

Nem todos os autores nacionais têm potencial para que o seu trabalho seja internacionalizado. Mas não tenho dúvidas de que os leitores africanos de língua portuguesa só teriam a ganhar com o acesso regular a autores portugueses e brasileiros, os portugueses a autores africanos e brasileiros e os brasileiros a portugueses e africanos. As seculares relações históricas e culturais entre os nossos povos justificam-no de modo liminar, óbvio e incontestável.

Os editores precisam, por conseguinte, de pesquisar os autores de todos os nossos países, experimentados ou não, que tenham potencial para interessar aos diferentes leitores de língua portuguesa. Por exemplo, há uma série de novos autores brasileiros, alguns deles exilados em Portugal e outros países europeus, que os leitores portugueses têm de conhecer. Outro exemplo: a lista de escritores dos países africanos de língua portuguesa publicados em Portugal ou no Brasil está longe de esgotar o número dos respetivos autores com qualidade literária e viabilidade de mercado nos dois últimos países.

Como se sabe, o tamanho dos mercados pode inviabilizar a publicação. É o que acontece com os limitados mercados dos países africanos de língua portuguesa, onde não parece rentável publicar autores estrangeiros. Mas isso pode ser minimizado recorrendo à impressão por demanda. Entretanto, a solução imediata mais adequada parece ser facilitar a importação de livros de autores da nossa língua comum, o que já tem a ver com o mercado livreiro (distribuição).

O inverso, contudo, não é verdadeiro, ou seja, o mercado editorial quer em Portugal quer no Brasil comporta perfeitamente a publicação de autores africanos de língua portuguesa e não só (mais do que tem acontecido até agora). Nesse caso, o que acontece é que tanto as editoras portuguesas como as brasileiras têm dificuldade em identificar onde estão e como ir ao encontro dos leitores interessados nas literaturas africanas. É também, portanto, uma maka [problema] de distribuição.

No Brasil, por exemplo, há um enorme interesse na academia por essas literaturas, mas as mesmas ainda não chegam ao grande público. Por outro lado, elas interessam em primeira mão aos leitores afro-brasileiros, por razões naturais, mas serão eles os frequentadores habituais das grandes livrarias e dos ambientes “seletos” onde a literatura é consumida? É preciso, pois, ir ao encontro deles, onde eles de facto estão. O mesmo, com as devidas nuances, ocorre em Portugal, onde as comunidades afrodescendentes estão longe do radar das editoras convencionais.

Em suma, apesar de todos os constrangimentos, o mercado do livro de língua portuguesa é uma realidade que apenas espera ser ampliado e consolidado. Resta saber a quem caberá pôr o guizo no pescoço do gato.

A resposta é simples: a todos. Ou seja, às empresas (editoras, livreiros e outros), à academia, à mídia, às organizações sociais, às iniciativas de cidadãos e a todos os interessados. Os nossos governos também não se podem, obviamente, auto-exonerar das suas responsabilidades nessa matéria.

Confesso, por isso, ter ficado estarrecido com a declaração do ministro brasileiro da economia, justificando a intenção de aumentar a taxação dos livros, pois “só rico é que lê”. O governo do meu país, entretanto, não fica muito melhor na fotografia: apesar dos livros técnicos e científicos importados pagarem zero de taxas, os livros literários são sobrecarregados com 25 por cento, a título de taxas alfandegárias.

*** O autor escreve conforme o acordo ortográfico e a variante angolana da língua portuguesa.

João Melo

Nasceu em Luanda (Angola), em 1955. É escritor e jornalista. Morou no Brasil de 1984 a 1992 como correspondente de imprensa. Tem mais de 20 livros publicados, entre poesia, conto e ensaios, em Angola, Portugal, Itália, Cuba e Brasil, onde publicou a coletânea de contos Filhos da Pátria (Record, 2008).

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