🔓 Filipa Leal

Ensaio fotográfico de Filipa Leal
Foto: Ozias Filho
01/08/2021

Que cidades sou hoje? O mesmo será dizer que rios ou mares navegarei nesta cidade que se me apresenta assim que abro os olhos. Será a mesma cidade com a qual deitei-me na noite anterior ou tudo ter-se-á mudado numa qualquer metamorfose enquanto dormia? Que pessoa serei hoje quando acordar? Que estados de alma ou desnortes me esperarão pela manhã?

Cidades que nos habitam há muitas, as da escritora Filipa Leal são líquidas e talvez — apenas talvez — não sejam tão diferentes das nossas… talvez menos lírica, pois estas só são possíveis aos que estão próximos dos deuses, e com eles mantêm um diálogo intermitente. A poeta Filipa é uma destas privilegiadas, falível como outro qualquer ser de carne e osso, mas que tem este à-vontade, esta particularidade, de levitar ou descer aos infernos do mundo da poesia (os deuses por vezes também residem nas trevas).

Diz-me a Filipa Leal no seu lirismo: As pessoas pescavam dentro de casa (…) Era o medo da morte. A cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Digo que o excerto deste poema maior, denominado A cidade líquida, escrito em 2006, nunca foi tão assertivo sobre as cidades e suas gentes nestes tempos de pandemia, mas já o era em outros tempos, e voltamos ao início, como a serpente Oroboros: que cidades sou hoje, neste mundo estranho, e de novas rotinas? Sou esta cidade líquida que me escorre pelas mãos e que não a consigo agarrar ou a cidade líquida como um mar: mar-de-gente, mar-sem-gente, mar-de-carros, mar-sem-carros, mar-de-casas, mar-sem-casas, mar-de-livros, mar-sem-livros e, por isso, sempre no limite quer do afogamento, quer do alumbramento?

Diz-me Filipa que as cidades deveriam ser movidas a cavalos de verdade e não a cavalos-cilindrados, cavalos que falam a linguagem das máquinas. Diz-me que não conseguiria viver no campo, apesar de desejar cavalos de verdade nas cidades. Diz-me que a sua cidade-família é o Porto; diz-me que a sua cidade atual tem o nome de alguém por quem se apaixonou, e, portanto, a sua cidade-paixão é Lisboa; diz-me que a sua cidade cosmopolita é Londres, cidade que também não se move a cavalos de verdade; diz-me que não se identifica muito com a cidade de Paris, mas no auge do desconforto ao ser fotografada, para este ensaio, trauteia La vie em rose, em pleno Jardim Botânico de Lisboa, para afugentar fantasmas. O que vejo nesta hora, através da lente, é um quadro impressionista de Claude Monet.

Que cidades sou hoje, que mares ou rios, que lirismos, que verdades?

Foto: Ozias Filho

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Foto: Ozias Filho

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Foto: Ozias Filho

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Foto: Ozias Filho

 

Filipa Leal
Nasceu no Porto, Portugal, em 1979. Formada em Jornalismo pela Universidade de Westminter (Londres), é mestre em Estudos Portugueses e Brasileiros pela Faculdade de Letras do Porto. Tem 11 livros publicados (desde 2003), entre os quais A cidade líquida e O problema de ser norte, ou os mais recentes Vem à quinta-feira e Fósforos e metal sobre imitação de ser humano, ambos semifinalistas do Prêmio Oceanos. Está editada na Espanha e na Colômbia e tem poemas publicados em várias antologias no estrangeiro. Poeta, jornalista e argumentista (destaque para o roteiro do filme Jogo de damas – Prémio de Melhor Roteiro nos Festivais de Cinema do Chipre e de Copenhague). Colabora atualmente com o programa de literatura Nada será como Dante, na RTP2.
Ozias Filho

Nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 1962. É poeta, fotógrafo, jornalista e editor. Autor de Poemas do dilúvioPáginas despidas, O relógio avariado de DeusInsularesOs cavalos adoram maçãs e Insanos, estes dois últimos, em 2023). Como fotógrafo tem vários livros publicados e integrou a iniciativa Passado e Presente – Lisboa Capital Ibero-americana da Cultura 2017. Publicou em 2022 o seu primeiro livro infantil, Confinados (com ilustrações de Nuno Azevedo). Vive em Portugal desde 1991.

Rascunho