Esses perigosos objetos chamados livros

A “queima” moderna de livros é uma prova de que vivemos em pleno revivalismo macartista
Ilustração: Oliver Quinto
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21/06/2021

* O autor escreve consoante o acordo ortográfico e a variante angolana da língua portuguesa.

Tinha planeado escrever para a coluna de hoje um texto sobre a mais recente antologia de poesia angolana organizada pela professora Irene Guerra Marques e o poeta Carlos Ferreira, sob o título Entre a lua, o caos e o silêncio: a flor, a qual foi lançada no mês passado em Lisboa pela editora Guerra e Paz.

Uma notícia que li na imprensa brasileira, contudo, alterou-me os planos: “Fundação Palmares se desfaz de exemplares raros e mais de 5 mil livros do acervo”. Fiquei, mais do que estupefacto, estarrecido. Essa manchete deveria ser representada em todos os mídias a vermelho-sangue, pingando dolorosamente sobre a consciência coletiva.

Tirei os óculos, para ver melhor ao perto: “Relatório ‘Três décadas de dominação marxista na Fundação Cultural Palmares’ mostra que a fundação retirou de seu acervo pelo menos 5.300 livros por apresentarem ideologia marxista ou estarem velhos e em desacordo ortográfico”.

Zumbi dos Palmares e Nganga Zumba, herdeiros dos guerreiros angolanos levados como escravos para o Brasil, continuam a ser assassinados todos os dias, física ou simbolicamente, no país que ajudaram a fundar.

Entre os livros retirados, contam-se clássicos da literatura universal e brasileira, incluindo obras de Machado de Assis, considerado o maior escritor do país de todos os tempos e que, pela sua origem, deveria ser um símbolo da própria Fundação Palmares. Falando claro: como é que uma instituição criada para resgatar o papel dos negros na formação do Brasil censura, por qualquer razão, o maior escritor negro e nacional do país?

A imprensa destacou também, pelo seu absurdo idêntico, a retirada do livro Dicionário do folclore brasileiro, obra clássica do historiador Luiz da Câmara Cascudo.

Segundo o relatório “Três décadas de dominação marxista na Fundação Palmares” — um exemplo do revivalismo macartista vivido no Brasil e em outras partes do mundo, a começar pela América trumpiana —, dos quase 10 mil livros do acervo da instituição, apenas 5% foram considerados “adequados”.

A leitura desta notícia fez-me pensar na história da perseguição a esses objetos chamados livros, considerados tão perigosos por muita gente. A patética decisão da Fundação Palmares levou-me a pesquisar casos idênticos na História, além dos mais conhecidos e que fazem parte da nossa cultura geral mediana. Felizmente, hoje, o “tio Google” está aí para ajudar-nos (com todas as cautelas).

Achei, assim, uma lista básica, que partilho com os leitores. Além dos episódios ocorridos durante a Inquisição, o nazismo ou o golpe de 1973 no Chile, podemos mencionar outros casos conhecidos como “queima de livros” ao longo da história da humanidade:

1. No Egito antigo, milhares de papiros foram queimados, extinguindo cerca de 75% da literatura existente na altura, por ordens do faraó Akhnatón, que sucedeu a Ramsés II, por falarem de espetros e demiurgos;

2. Por volta de 213 a.C. na China, por ordem do Primeiro Imperador da Dinastia Chin, que mandou queimar uma grande quantidade deles, por considerar que preservavam a moral e as ideias dos Antigos;

3. No ano de 642, a Biblioteca de Alexandria, uma das maiores bibliotecas da história antiga, foi mandada destruir por ordem de Amr ibn al-As, governador provincial do Egito, em nome do califa Rashidun Omar ibn al-Khattab, pouco depois da conquista do Egito comandada por Amr;

4. Em 1153, com a conversão das Maldivas ao Islão, além da decapitação dos monges budistas, uma grande quantidade de escritos sobre o budismo foi incinerada;

5. Em 7 de fevereiro de 1497, partidários do padre dominicano Girolamo Savonarola, em Florença, Itália, recolheram livros e outros objetos de artes ou cosméticos que, supostamente, incitariam ao pecado, queimando-os em praça pública, naquilo que ficou conhecido como “fogueira das vaidades”;

6. Entre 1536 e 1550, uma disputa entre Henrique VIII, da Inglaterra, e o Papa resultou na incineração de textos católicos, fazendo em cinzas cerca de 300 mil volumes;

7. Em 1861, 300 livros espíritas foram queimados publicamente pela Igreja Católica em Barcelona, num episódio que ficou conhecido como “Auto de fé”;

8. Já no século 20, nos Estados Unidos da América, os livros de Wilhelm Reich foram mandados queimar pelo Departamento de Estado, sob a acusação de pornografia, por, entre outras contribuições, debaterem as funções do orgasmo;

9. Em 2012, soldados estrangeiros queimaram exemplares do Alcorão numa base americana no Afeganistão.

Sim, os livros são poderosos, espalham informações e conhecimentos, ensinam e educam, difundem ideias, mudam as consciências, impelem à ação. Espero, pois, que alguém salve os livros “queimados” pela atual presidência da Fundação Palmares.

NOTA
Já tinha entregue esta coluna ao editor, quando li na última sexta-feira, 18, no jornal português Público, uma crónica sobre a temática dos livros, assinada por António Rodrigues, a qual me fez acreditar que talvez haja salvação possível. Dois “mambos”, como dizemos em Angola (“causos”, dir-se-á no Brasil), contados por ele ajudaram-me a ficar menos deprimido em relação ao destino dos livros.

O primeiro é o atual fenómeno da Internet, o #BookTok, com mais de 11,3 milhões de visualizações, onde jovens falam sobre os livros (em papel) que descobriram, fazem recomendações, leem e discutem as suas leituras em pequenos e criativos vídeos. Os booktokers, como se chamam a eles próprios, demonstram que a literatura não passou de moda.

O segundo mambo contado por Rodrigues na sua crónica é a iniciativa de uma série de instituições britânicas para conseguir 15 milhões de libras para evitar que uma importante coleção de manuscritos caia nas mãos de ávidos colecionadores privados. Trata-se da “Biblioteca Honresfield”, juntada pelos industriais vitorianos William e Alfred Law, a qual inclui manuscritos das irmãs Bronte, Jane Austen, Walter Scott e Robert Burns. A coleção estava “sumida” desde 1939. A liderar os esforços para conseguir os fundos necessários para evitar a “privatização” (e atomização) dessa coleção está a organização de beneficência Friends of the National Libraries (FNL).

João Melo

Nasceu em Luanda (Angola), em 1955. É escritor e jornalista. Morou no Brasil de 1984 a 1992 como correspondente de imprensa. Tem mais de 20 livros publicados, entre poesia, conto e ensaios, em Angola, Portugal, Itália, Cuba e Brasil, onde publicou a coletânea de contos Filhos da Pátria (Record, 2008). Pode ser acompanhado no Twitter e no Instagram.

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