* O autor escreve segundo o acordo ortográfico e a norma angolana da lĂngua portuguesa, em formação.
Chegaram-me Ă s mĂŁos dois nĂşmeros preciosos de uma revista espanhola de poesia, Licencia PoĂ©tica, da qual tomei conhecimento graças ao poeta JosĂ© Manuel Suárez, seu diretor e de quem tenho a sorte de ser amigo: trata-se da edição de inverno de 2021 e da edição da primavera do corrente ano, ambas dedicadas Ă poesia dos povos em extinção, nomeadamente americanos (do norte e do sul) e da vasta regiĂŁo euroasiática. O tĂtulo dos dois nĂşmeros Ă© sugestivo: “Pueblos em extinciĂłn, perenne poesia” (I e II).
Os dois nĂşmeros da revista Licencia PoĂ©tica a que me refiro reĂşnem textos de vários povos em extinção, mas tambĂ©m de outros cujas lĂnguas, apesar de eles nĂŁo correrem esse risco, digamos, fĂsico, estĂŁo igualmente condenadas ou ameaçadas a desaparecer lentamente. De facto, nĂŁo Ă© somente a distribuição da riqueza que Ă© injusta, esse desequilĂbrio afeta igualmente as culturas e as lĂnguas. AtĂ© onde sabemos, existirĂŁo no nosso planeta entre 6.500 e 6.900 lĂnguas, mas 96% da população mundial apenas fala 4% desses idiomas, isto Ă©, cerca de 270. Estima-se, a propĂłsito, que em 2050 terĂŁo desaparecido da face da Terra 90% das lĂnguas atuais.
A poesia oral desses povos (ou lĂnguas) em vias de extinção Ă©, como assinala JosĂ© Manuel Suárez, “poesia tradicional, longĂnqua no tempo, pura vivĂŞncia pessoal e social; vinculação Ă terra, ao fogo, à água, a tudo quanto está vivo. Na realidade, tudo está vivo e revive nesta poesia”. Suárez acrescenta que a poesia originária “está para alĂ©m do literário ou, melhor dito, aquĂ©m, pois alheio a qualquer intencionalidade de construção literária. Sendo, de qualquer forma, plenamente literário, nĂŁo intenta sĂŞ-lo”.
Acrescenta o diretor de Licencia PoĂ©tica: “Esta poesia atinge a grandeza porque nĂŁo a pretende; nĂŁo Ă© original, mas originária; nĂŁo proclama a verdade, está na verdade”. O poeta espanhol defende ser necessário “limpar a mente de tantas ideias feitas que moldam a nossa consciĂŞncia do que Ă© valioso”, para, assim, poder apreciar devidamente esta poesia tradicional ou originária. Curiosamente, ele parece responder ao romancista brasileiro Milton Hatoum, o qual, ao comentar o livro Rio sem margem, do poeta angolano Zetho Gonçalves, baseado na poesia tradicional angolana e africana, observou: – “SĂł por preconceito ou incompreensĂŁo a literatura oral Ă© menos lida e estudada que a literatura escrita” (ver aqui a minha coluna da semana passada).
O primeiro nĂşmero destas duas edições de Licencia PoĂ©tica sobre a poesia dos povos em vias de extinção (inverno de 2021), dedicado Ă poesia dos povos originários das amĂ©ricas, inclui uma ampla recolha, acompanhada de anotações crĂticas, feitas pelo mĂ©dico e poeta argentino Robert R. Rivas, que tambĂ©m traduziu os textos. Segundo ele, o trabalho de seleção e tradução para o castelhano da oratura dos povos da AmĂ©rica do Norte foi mais fácil do que o mesmo trabalho feito com as produções dos povos da AmĂ©rica Central e do Sul, pois, no primeiro caso, existe uma abundante bibliografia em inglĂŞs, enquanto, no segundo, quase nĂŁo existem registos; por isso, Rivas converteu-se ele prĂłprio no tradutor da poesia oral dos povos centro e sul-americanos originários.
Robert R. Rivas destaca as lições que os povos originários, também chamados, por puro preconceito, “primitivos”, dão a todos os supostos “civilizados”, muitas das quais podem (e, em alguns casos, foram!) ser encontradas nas poéticas tradicionais americanas (mitos, canções, discursos e várias outras formas expressivas).
Como exemplos, o poeta argentino afirma que Michel de Montaigne (1533-1592) foi influenciado pela oratura dos Ăndios da AmĂ©rica, o que levou Shakespeare a usar alguns dos seus comentários em A tempestade, no discurso de Gonzalo acerca da comunidade ideal; Jean Jacques Rousseau, por seu turno, utilizou as informações do missionário Jean Baptiste Dutetre nos seus comentários revolucionários; por fim, a obra Liga dos Iroqueses, do antropĂłlogo Lewis Henry Morgan (1818-1881), influenciou profundamente Marx e Engels, na sua visĂŁo do que seria uma sociedade socialista no futuro.
Leia-se esta Oração Tradicional:
Quando morrerem as montanhas, nĂłs morreremos.
Quando os rios correrem para trás no tempo,
Os nossos espĂritos irĂŁo com eles.
Dentro de nĂłs, tudo Ă© um cĂrculo.
O que termina aqui
Começou em algum outro lugar.
O que aqui começa não tem fim.
A segunda edição da revista Licencia PoĂ©tica sobre poesias originárias (primavera de 2022) Ă© sobre os povos e lĂnguas euroasiáticas. Assim, foram transcritos poemas e canções dos povos (incluindo, especificamente, esquimĂłs, voguls, yukagir, mansii, buriata, tártaros e kirguises) do Alasca, Gronelândia, SibĂ©ria, MongĂłlia, AfeganistĂŁo, Malásia, Cambodja e AzerbaijĂŁo.
Entre os vários textos, destaco este Canto de uma mulher acerca dos homens, de origem esquimĂł, um explĂcito poema feminista avant la lettre:
Primeiro baixei a cabeça,
Olhando para o solo,
Por um segundo nĂŁo disse nada.
Mas agora que se foram,
Posso responder,
Erguendo a minha cabeça e
Olhando com firmeza para a frente.
Dizem que roubei um homem,
O marido de uma das minhas tias,
Dizem que fiz dele o meu prĂłprio marido.
Mentiras, contos de fadas, difamações.
Foi ele que veio, acostando-se a meu lado.
Mas eles sĂŁo homens e mentem.
Esta Ă© a razĂŁo, a minha triste sorte.
Rivas diz que vários autores já demonstraram que nĂŁo existe nenhum fosse entre o pensamento dos povos considerados “primitivos” e os homens modernos. Para ele, “a vida tribal produz uma relação extraordinária com a natureza e (…) a condição humana”. Assim, explica: – “A minha fascinação pelos cantos, orações e relatos dos povos originários tem a ver justamente com a originalidade que os mesmos mantĂŞm.
O poeta argentino cita Benjamin Lee Whorf: “Em muitas lĂnguas amerĂndias e africanas abundam distinções finamente elaboradas e lĂłgicas, matizes para expressar causa, ação, resultado, qualidade dinâmica ou energĂ©tica, natureza imediatista da experiĂŞncia, etc., todas elas facetas da função conceitual e que, na realidade, constituem a quintessĂŞncia do racional. Desse ponto de vista, superam em muito as lĂnguas europeias”.
O diretor de Licencia PoĂ©tica, JosĂ© Manuel Suárez, observa que o contraste entre a poesia originária e aquela que Ă© publicada presentemente “assusta”. Explica ele: “A poesia dos povos em vias de extinção Ă© primitiva, nĂŁo no sentido habitual da expressĂŁo, mas num sentido nobre, limpo, quase inocente. (…) NĂŁo há utilidade nem cálculo, apenas entrega a uma realidade cujo fundamento Ăşltimo Ă© o ´cantor´, pelo que o poeta apenas pode intuir, obscuramente. A vida, a natureza, os animais com os quais convive, o prĂłprio sofrimento e tudo o que, afinal, se mantĂ©m de pĂ© (existe), tudo para esta poesia Ă© um mistĂ©rio insondável e ao mesmo tempo de uma extrema transparĂŞncia”.
Para a poesia originária, a melhor forma de expressar essa realidade, segundo Suárez, é simplesmente “estar”. Oferenda, doação e gratidão, esse estado é de um “luminoso lirismo”, como se pode apreciar nos versos seguintes:
SĂł uma coisa vale a pena:
Viver para da tenda apreciar
O grande dia que amanhece
E a luz que inunda o mundo
“A poesia dos povos e culturas em extinção é silêncio. Mas do grande silêncio vem-nos a verdade”, conclui José Manuel Suárez.